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José Reinaldo Carvalho

Jornalista, editor internacional do Brasil 247 e da página Resistência: http://www.resistencia.cc

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Foi um erro subestimar a libertação de Maduro, mas a crítica a Lula não pode ser um “palpite infeliz”

Declaração de Lula sobre a libertação de Maduro expõe riscos políticos e exige crítica fraterna da esquerda, escreve o editor internacional do Brasil 247

José Reinaldo Carvalho, Nicolás Maduro e Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247 | Ricardo Stuckert/PR)

Por José Reinaldo Carvalho (*) - A declaração do presidente Lula, ignorando a importância da luta pela libertação de Nicolás Maduro foi profundamente infeliz. Ele errou no mérito, na forma, na oportunidade e na circunstância. Ao subestimar a necessidade imperiosa da luta pela libertação do presidente legítimo e constitucional venezuelano e da deputada Cilia Flores, sua esposa, designada como “primeira combatente”, Lula acabou transmitindo uma impressão politicamente perigosa diante de um episódio que não pode ser relativizado: ambos foram sequestrados durante um ataque militar a um país soberano irmão.

O episódio de 3 de janeiro último foi um crime contra a soberania de um Estado nacional, cometido por uma potência estrangeira, uma agressão aberta à inviolabilidade do mandato presidencial e ao princípio da autodeterminação dos povos, portanto mais um ataque do imperialismo estadunidense ao Direito Internacional. Não se pode, em hipótese alguma, em nome de cultivar relações normais com os Estados Unidos, naturalizar um atentado dessa magnitude. 

Uma declaração infeliz no pior momento

O Brasil possui uma tradição diplomática construída historicamente sobre pilares sólidos: não intervenção, defesa da paz, solução negociada de conflitos e respeito à soberania dos países. Esses princípios constituem a base de uma política externa que busca proteger o país. No exercício dessa política por um governo comandado por forças progressistas, a solidariedade também é uma cláusula pétrea.

Por isso, causou dura reação em amplos setores da base progressista de apoio a Lula a sua declaração subestimando a causa da libertação de Maduro. Um chefe de Estado da estatura do presidente brasileiro não pode nem deve deixar sequer um vestígio de impressão de que caminha lado a lado com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja conduta internacional tem sido marcada pela lógica da força, da chantagem econômica e da intimidação militar.

O problema não está em manter relações diplomáticas com Washington, algo inevitável e necessário, mas em transmitir qualquer sinal de tolerância ou acomodação diante de um ataque que representa uma violação direta do direito internacional e que pode atingir a todos os países. 

Não é possível aceitar que, em nome do pragmatismo, se relativize o sequestro de um presidente em pleno exercício de seu mandato, retirado do território de seu país sob ataque militar. Esse tipo de precedente abre uma porta perigosa: hoje é a Venezuela, amanhã pode ser qualquer nação do Sul Global que contrarie interesses estratégicos do imperialismo estadunidense. A soberania de um país não pode ser tratada como moeda de troca em negociações bilaterais, tampouco como peça descartável na busca por “boa convivência” com uma superpotência que se comporta como delinquente internacional.

A postura de Donald Trump tem-se caracterizado por medidas que desestabilizam o sistema internacional: guerras comerciais, imposição de tarifas unilaterais, bloqueios econômicos, sanções extraterritoriais, ameaças e ataques militares e pressões sistemáticas contra países considerados “desobedientes” às ordens de um celerado que se pretende o tirano do mundo. 

Em apenas um ano de mandato, Trump já demonstrou disposição de impor ao mundo uma espécie de tirania global, baseada na chantagem econômica e no uso recorrente da força. A política de bloqueios e sanções, que estrangulam populações inteiras, soma-se à retórica agressiva e à prática de intervenções diretas. 

O papel estratégico do Brasil na multipolaridade

O Brasil deve manter, desenvolver, aperfeiçoar e aprofundar os princípios que regem sua política externa, especialmente nas novas circunstâncias internacionais, em que a multipolaridade se afirma como realidade incontornável.

A defesa da soberania nacional, nossa e dos demais países, é o fundamento da contribuição que o Brasil pode oferecer à paz mundial, à cooperação internacional e à luta por uma nova ordem econômica e política. Um país com as dimensões e o peso do Brasil deve atuar como agente ativo em favor da democratização das relações internacionais, do multilateralismo, e fortalecendo alianças estratégicas, consoante os interesses nacionais e a promoção da paz mundial.  

Crítica fraterna e firmeza política da esquerda

As forças consequentes da esquerda devem fazer a crítica fraterna a determinadas posições internacionais do presidente Lula. Mas essa crítica precisa ser conduzida com respeito, responsabilidade e consciência política, na qualidade de forças aliadas. Não pode assumir a forma de pressão destrutiva, nem servir para alimentar a narrativa da oposição de direita, que busca permanentemente enfraquecer o governo e minar qualquer política de soberania nacional. Não pode tampouco ignorar o balanço positivo da diplomacia de chefe de Estado, bem manejada pelo titular do Planalto na sua já larga experiência à frente do Governo e do Estado.

Uma crítica fraterna não significa complacência. Significa firmeza com prudência. Significa alertar para o erro sem produzir fraturas políticas internas que só interessam aos adversários do campo popular.

O risco do “palpite infeliz”

Se a declaração de Lula foi infeliz, a resposta não pode ser um “palpite infeliz”. O combate a um erro não pode conduzir a outro erro estratégico e grave. Reações movidas pela inconsequência política correm o risco de deslocar o debate para um terreno estéril e perigoso. Como já cantava Noel Rosa há quase um século: “Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do céu, que palpite infeliz”.

Há, nesse tipo de reação apressada, o perigo real de mudar de campo político: fazer coro com a “extrema esquerda” pretensamente internacionalista, aquela que fomenta o identitarismo estéril e se atribui o monopólio de movimentos antifascistas globais, apresentando-se como fundadora de uma "internacional antifascista" - como correia de transmissão do trotsquismo retrógrado de uma facção da "quarta internacional" -, ou com o nacionalismo também falso, por ser tosco e trêfego, que saltita do comunismo para a direita. Tais alinhamentos são a todos os títulos malsãos, justamente no momento em que a vida política nacional e internacional atravessa uma fase crítica. 

Prudência estratégica diante da escalada global

O desenvolvimento dos conflitos internacionais, entrelaçado aos desafios nacionais, será inevitavelmente um tema relevante no embate eleitoral. As forças consequentes da esquerda, destacadamente os comunistas e os setores organizados do campo popular, devem atuar solidamente posicionadas na campanha pela reeleição do presidente Lula. 

Nesse sentido devem ajudá-lo a cultivar os bons princípios da estratégia e da tática, demonstrando as vantagens concretas de um posicionamento internacional firme: ao lado das causas justas do Sul Global, do BRICS, da integração regional, da defesa da paz e da cooperação internacional, da solidariedade com Cuba,  Venezuela, Palestina e todos os povos ameaçados e agredidos. Neste aspecto, é indispensável reafirmar, como fez Lula no discurso comemorativo do 46º aniversário do PT neste sábado (7), que é irrevogável a decisão do Brasil de manter e fortalecer ainda mais a parceria estratégica com a República Popular da China, a despeito das pressões em contrário do chefete da Casa Branca.

Na fase atual, marcada pela fúria de uma superpotência decadente e pelas intentonas golpistas da extrema direita, é imperioso atuar com prudência estratégica, o que exige lucidez combinada com firmeza de convicções. 

Posições movidas por interesses individuais, pela vaidade política ou pela húbris, em choque com a inteligência coletiva, não são boas conselheiras em situações como esta. O momento exige maturidade histórica, visão estratégica e compromisso com os princípios que sempre orientaram as melhores tradições da elaboração e ação da esquerda consequente, mormente dos comunistas brasileiros. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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