Lula defende “parceria” com os EUA e diz que retorno de Maduro à Venezuela “não é a preocupação principal”
Presidente afirma que quer diálogo direto com o presidente dos Estados Unidos e diz que foco regional deve ser democracia e melhoria das condições de vida
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que pretende aprofundar o diálogo político e econômico entre Brasil e Estados Unidos, defendendo uma relação baseada em parcerias estratégicas e conversas diretas entre os chefes de Estado. Ao comentar a situação venezuelana, Lula disse que a principal preocupação não é o retorno do presidente Nicolás Maduro ao país, mas sim o fortalecimento da democracia e a melhoria das condições de vida da população.
As declarações foram dadas em entrevista ao UOL nesta quinta-feira (5). Lula afirmou que planeja uma viagem a Washington, possivelmente na primeira semana de março, para um encontro presencial com Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos. “Eu vou à Índia, à Coreia. Essa são as últimas duas viagens que eu faço para fora do Brasil, com exceção da viagem a Washington, possivelmente na primeira semana de março, para ter uma conversa olho no olho com o presidente Trump”, disse.
Segundo o presidente brasileiro, o diálogo direto é essencial para lidar com interesses comuns e divergências entre os dois países. “Somos presidentes das duas maiores democracias do Ocidente. Não pode ficar conversando por Twitter. Temos que sentar, ver quais são os problemas que afligem ele e os que me afligem, o que interessa para os Estados Unidos e para o Brasil e vamos trabalhar juntos, estabelecer acordos”, afirmou.
Lula destacou que não há temas vetados no diálogo bilateral, desde que a soberania brasileira seja respeitada. “Não tem tema proibido para mim. A única coisa que eu não discuto é a soberania do meu país. Mas discutir parcerias na indústria na exploração de terras raras, investimentos, aumento de exportação, tudo isso somos livres para discutir”, declarou.
Ao ampliar a análise para a América Latina, o presidente defendeu uma mudança de postura histórica na política internacional da região. “Nós, latino-americanos, precisamos aprender que temos 525 anos de história para saber o que deu certo ou não na América Latina. Fomos colonizados por espanhóis e portugueses, pela indústria inglesa e pelos países ricos, com os Estados Unidos tendo muita influência. A América do Sul quase não conversavam. Toda a AMérica do Sul espanhola era doutrinada a ter medo do Brasil, e o Brasil era doutrinado a não se preocupar com os pobres. Eu tomei a decisão de que a gente deveria mudar a lógica da política internacional do Brasil. Nós vivemos o melhor período de política social, de inclusão social e crescimento da história da América do Sul no período de 2002 a 2012”.
Questionado sobre a possibilidade de retorno do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa à Venezuela após o sequestro por forças dos Estados Unidos em 3 de janeiro, Lula relativizou o tema. “Essa não é a preocupação principal. A preocupação principal é a seguinte: há possibilidade da gente fortalecer a democracia na Venezuela? E o povo da Venezuela, 8 milhões que estão fora, voltar? Há condições de fazer com que a democracia seja respeitada efetivamente e o povo possa participar efetivamente? O que está em jogo é se a gente vai melhorar a vida do povo ou não, se vai gerar emprego, se vai voltar a produzir 3,7 milhões de barris por dia”, afirmou.
O presidente também disse ter reforçado ao presidente dos Estados Unidos a visão de que a América do Sul deve ser tratada como uma região de paz. “O que estamos dizendo ao presidente Trump? A América do Sul é uma zona de paz, a gente não tem bomba atômica, arma nuclear. O que a gente quer é crescer economicamente, fortalecer o processo democrático e melhorar a vida de milhões de latino-americanos. A América Latina não pode continuar sendo pobre”, disse.
Para Lula, a solução para a crise venezuelana deve partir do próprio povo do país. “Eu disse ao presidente Trump: quem vai resolver o problema da Venezuela são os venezuelanos. Permitam que eles resolvam os problemas deles. Eles têm que assumir a responsabilidade. Ou nós, latino-americanos criamos coragem e criamos instituições fortes entre nós e montamos um bloco para trabalharmos conjuntamente com o resto do mundo, ou nós estamos fadados a mais um século de pobreza e esquecimento. Depende de nós. Precisamos descolonizar a nossa cabeça”, declarou.
Lula também comentou a proposta de criação de um “Conselho de Paz” para tratar da situação em Gaza e disse que o Brasil tem interesse em participar, desde que haja representação palestina. “Eu disse ao presidente Trump que se o ‘Conselho de Paz’ for para cuidar de Gaza, o Brasil tem todo o interesse de participar. Agora, é muito estranho que voce crie um conselho e não tenha um palestino na direção desse conselho. Que a proposta que foi apresentada de reconstrução é mais um resort do que a reconstrução de Gaza. Quero saber quem vai reconstruir as casas, os hospitais, as padarias, os bares que foram detonados. A vida de 75 mil de mulheres e crianças não retornarão mais. Estamos dispostos a participar, mas é preciso que os palestinos estejam na mesa”, concluiu.


