Frente ampla no RS: entre a memória do isolamento e a urgência da vitória
Em determinados momentos históricos, governar exige mais do que convicção. Exige capacidade de compor.
O debate sobre a formação de uma frente entre PT e PDT no Rio Grande do Sul, com vistas às eleições de 2026, expõe mais do que divergências conjunturais. Revela impasses históricos, ressentimentos acumulados e, sobretudo, diferentes concepções sobre estratégia política em tempos de avanço da extrema-direita.
Este artigo é uma síntese das discussões que defendi em um grupo plural e suprapartidário, formado ainda no segundo turno de 2022 para apoiar Luiz Inácio Lula da Silva. Desde então, o coletivo se manteve ativo, ampliando o debate para além do momento eleitoral. Trata-se de um espaço legítimo de reflexão política, que expressa tensões reais do campo democrático popular. Ainda que majoritárias no grupo, essas posições não formaram consenso ali.
Um impasse que vem de longe
O ponto de partida é simples: por que é tão difícil construir uma aliança entre PT e PDT no estado?
A resposta remete à trajetória histórica. O PT gaúcho consolidou uma prática política baseada na centralidade: liderar chapas, raramente ceder. Desde 1989, quando Lula chegou ao segundo turno e obteve apoio decisivo do trabalhismo, consolidou-se a ideia de que o “maior partido” não deveria renunciar à cabeça de chapa.
Essa postura teve efeitos duradouros. Alimentou ressentimentos no PDT, que viu sua base social migrar para o petismo. Mais do que uma disputa eleitoral, criou-se um desencontro político persistente.
Quando a história ilumina o presente
Um episódio de 1990 ajuda a compreender o problema.
Após a derrota para Fernando Collor de Mello, Lula tentou construir uma frente ampla por meio do chamado Governo Paralelo, que foi o embrião do Instituto Lula. Buscou o apoio de Leonel Brizola, que recusou.
Depois de várias tentativas, talvez não acreditando mais na possibilidade da adesão, Lula me encarregou de convencer Brizola. Na segunda conversa que tivemos, Brizola foi direto: não fazia sentido apoiar uma articulação nacional enquanto, no Rio Grande do Sul, seu berço político, o PT se recusava a compor alianças com o trabalhismo, como no caso da negativa de apoio a Alceu Collares, na eleição estadual daquele ano.
Quando narrei o episódio a Lula, ele sintetizou o dilema com franqueza: o PT já tinha aprendido a receber apoio, mas ainda não a apoiar.
Passados trinta e seis anos, a questão ressurge com força inquietante.
Fragmentação e derrota: uma equação conhecida
A insistência em candidaturas isoladas teve consequências concretas no Rio Grande do Sul.
A fragmentação do campo democrático abriu espaço para projetos de centro-direita, como o liderado por Eduardo Leite. Em diversas eleições estaduais e nas dos principais municípios a soma dos votos de PT, PDT, PSB e PSOL seria suficiente para levar esse campo ao segundo turno.
Separados, porém, esses partidos foram derrotados ainda na primeira etapa.
O resultado é recorrente: no segundo turno, resta apoiar candidaturas que não representam esse campo político, sob a lógica do “menos pior”, para conter a extrema-direita.
Esse ciclo não apenas fragiliza o campo democrático. Também desmobiliza sua base social.
O potencial oculto das alianças
Há, porém, um aspecto ainda pouco explorado no debate: o impacto das alianças na composição das bancadas legislativas.
Uma frente ampla que inclua PT e PDT — e que se mantenha no campo da esquerda democrática, sem diluição programática — não apenas amplia as chances no Executivo. Ela tem efeito direto sobre a eleição de deputados estaduais, federais e senadores.
Isso ocorre por três razões objetivas.
Primeiro, a unificação de candidaturas majoritárias fortalece o voto de legenda. Eleitores tendem a alinhar suas escolhas proporcionais com candidaturas competitivas ao governo, especialmente quando há clareza de projeto.
Segundo, a redução da fragmentação evita a dispersão de votos entre candidaturas concorrentes do mesmo campo. Hoje, votos que poderiam eleger parlamentares acabam se anulando na disputa interna.
Terceiro, a ampliação da base eleitoral — sobretudo em setores de centro — cria condições para que mais candidaturas atinjam o quociente eleitoral, tanto na Assembleia Legislativa quanto na Câmara dos Deputados.
No caso do Senado, o efeito é ainda mais direto. Uma candidatura competitiva ao governo tende a puxar votos para as candidaturas ao Senado vinculadas à mesma frente, aumentando significativamente suas chances.
Em síntese, a frente ampla não é apenas uma estratégia defensiva contra a extrema-direita. É também um instrumento de reconstrução de força institucional.
Sem isso, mesmo uma eventual vitória no Executivo pode resultar em governos fragilizados, sem base parlamentar suficiente para sustentar políticas públicas.
O dilema atual: identidade ou vitória
A disputa entre Edegar Pretto e Juliana Brizola expressa esse impasse.
Não se trata apenas de comparar trajetórias ou qualidades individuais. Trata-se de avaliar qual candidatura amplia mais o campo político necessário para vencer — e para governar.
Eleições majoritárias exigem capacidade de agregação. Exigem diálogo com setores que não estão organicamente vinculados à esquerda. Exigem, sobretudo, visão de conjunto.
Nesse cenário, resistir a alianças amplas pode ser um erro estratégico.
Alianças não são afinidade, são convergência
Como lembra Norberto Bobbio, a democracia é o regime do dissenso. Alianças não se fazem entre iguais, mas entre diferentes que compartilham objetivos mínimos.
Entre os socialistas, tanto Lênin quanto Trotsky, não obstante as divergências que mantinham entre si, defenderam, nas décadas de 1920 e 1930, uma Frente Única contra o fascismo na Alemanha.
A experiência recente do Brasil confirma isso. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 só foi possível com uma ampla coalizão, que incluiu nomes como Geraldo Alckmin e Simone Tebet.
Nenhum deles representa integralmente o campo progressista. Mas foram decisivos para a construção de uma maioria eleitoral.
O tamanho do risco
O contexto atual impõe uma responsabilidade adicional.
O avanço da extrema-direita no Brasil, na América Latina e no mundo todo não é episódico. Ele se articula internacionalmente e opera com força política e cultural significativa.
Uma eventual derrota de Lula em 2026 não será apenas uma alternância de poder. Representará um reposicionamento estratégico da região e o fortalecimento de agendas regressivas em todo o mundo.
Diante disso, a eleição no Rio Grande do Sul ganha dimensão nacional e internacional.
Entre governar e ter razão
O campo democrático popular gaúcho está diante de uma escolha clara.
Persistir na fragmentação, reafirmando identidades e disputas internas, ou construir uma frente ampla capaz de disputar e vencer — e de governar com base parlamentar.
Não se trata de abandonar princípios. Trata-se de organizá-los em uma estratégia eficaz.
A política não é o espaço da pureza. É o espaço da correlação de forças.
E, em determinados momentos históricos, governar exige mais do que convicção. Exige capacidade de compor.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



