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Leo Bento

Sócio-fundador da Inaperê e doutorando em Educação pela PUC-SP

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Funk, linguagem e pertencimento: quando o museu educa para além dos muros da escola

Exposição “FUNK: um grito de ousadia e liberdade”, no Museu da Língua Portuguesa, aterrissou em São Paulo com um acervo visual fabuloso

Funk, linguagem e pertencimento: quando o museu educa para além dos muros da escola (Foto: Reprodução/YT)

“O dia em que o morro descer e não for carnaval, ninguém vai ficar pra assistir o desfile final”. Os versos de Wilson das Neves, que narram o impacto de uma "única escola e uma só bateria" descendo sem fantasias para cobrar o que lhe é de direito, poderiam ser sobre muitas manifestações artísticas de origem afro que enfrentam o silenciamento e o estigma da suspeição, como o samba, o hip hop ou o jongo. No entanto, eu gostaria de sublinhar um gênero específico que hoje representa essa "evolução de guerrilha" estética e rítmica nas metrópoles: o funk!

Recentemente, fui à exposição “FUNK: um grito de ousadia e liberdade”, no Museu da Língua Portuguesa. A mostra, que já percorreu o MAR, no Rio de Janeiro, e passou por Paris, aterrissou em São Paulo com um acervo visual fabuloso, com nomes icônicos para a luta antirracista, como Angela Davis, James Brown, Abdias do Nascimento e Mano Brown.

Para além do lado mais ativista, há um aspecto que me chamou a atenção: o lado celebrativo. Imagens dos bailes funk do Rio de Janeiro, capas de discos da Furacão 2000, fotos e pinturas da performer Lacraia, serigrafias de Jorge Lafond (certamente mais famoso como a televisiva Vera Verão) compõem as paredes do Museu da Língua Portuguesa, que sempre se destacou por apresentar versões descolonizadas do nosso idioma.

É justamente na intersecção entre arte, linguagem e educação que a exposição revela sua potência mais transformadora. Como aponta a curadora Renata Prado, trata-se de “mostrar novas possibilidades de enxergar a arte através da cultura funk”. Essa afirmação, por si só, já indica um deslocamento importante: sair do eixo eurocêntrico que historicamente balizou o que entendemos como arte legítima e abrir espaço para epistemologias periféricas, negras e populares.

Para a educação básica, esse movimento é especialmente relevante. Exposições visuais como essa funcionam como dispositivos pedagógicos potentes, capazes de traduzir conceitos complexos em imagens, sons e experiências sensoriais. Em vez de apenas ler sobre desigualdade, racismo estrutural ou cultura afro-brasileira, estudantes podem ver, ouvir e sentir essas narrativas. Isso amplia repertórios, provoca identificação e, sobretudo, suscita debates em sala de aula.

Estamos falando de jovens em processo de formação, muitas vezes ainda construindo suas referências culturais e identitárias. Ao entrar em contato com o funk, um gênero frequentemente estigmatizado e marginalizado, dentro de um espaço institucionalizado como um museu, esses estudantes são convidados a revisar preconceitos, questionar hierarquias culturais e reconhecer a potência estética e política das periferias.

O funk, nascido das dinâmicas urbanas e da ancestralidade negra, não é apenas música: é linguagem, é corpo, é território. Ele transforma modos de falar, vestir e existir. Ao ser apresentado como objeto de reflexão artística e histórica, ganha uma nova camada de legitimidade que dialoga diretamente com a proposta de uma educação antirracista: valorizar saberes historicamente silenciados e promover justiça cognitiva.

Além disso, ao atrair um público jovem que, muitas vezes, não frequenta espaços culturais, a exposição também cumpre um papel de inclusão simbólica. O estudante que se reconhece ali - na batida, na estética, na narrativa - passa a se ver como parte daquele espaço. E isso, em termos educacionais, é revolucionário, sob uma perspectiva freiriana.

Em um país marcado por desigualdades profundas, iniciativas como essa nos lembram que educar não é apenas transmitir conteúdo, mas também ampliar horizontes, construir pertencimento e desafiar estruturas. O funk, nesse contexto, deixa de ser apenas um som que ecoa nas periferias e passa a ser uma chave de leitura do Brasil. Falo aqui de um país que precisa, urgentemente, se ouvir por inteiro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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