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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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Futebol e a invenção do Brasil: como a bola criou a identidade nacional

O futebol deixou de ser apenas um jogo. Transformou-se em território simbólico onde o Brasil passou a imaginar a si mesmo

Bola de futebol (Foto: Brasil 247)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Que o futebol é o maior fenômeno cultural da modernidade tardia, nenhum historiador honesto pode negar. Nascido na Inglaterra, espalhou-se pelo planeta como um rastilho de pólvora. Onde chegou, levado por ingleses ou seus descendentes, foi apropriado, reinventado e nacionalizado. Não foi diferente na América do Sul. O esporte ajudou a formar os sportsmen sul-americanos na Argentina, no Uruguai e no Chile.

No Brasil, entretanto, a nacionalização do futebol ocorreu de maneira mais tardia em relação aos vizinhos platinos. Enquanto argentinos e uruguaios já possuíam clubes consolidados ainda no século XIX, o futebol brasileiro só adquiriu dimensão efetivamente popular nos anos 1920, especialmente após a conquista do Campeonato Sul-Americano de 1919, primeiro grande título internacional da seleção brasileira. Foi justamente depois daquela conquista que o esporte bretão tornou-se impossível de ser contido no Brasil.

Neste processo de popularização, uma figura tornou-se central para a história do futebol brasileiro: Arthur Friedenreich (1892-1969). Filho de pai alemão e mãe negra brasileira, Friedenreich foi o primeiro grande craque do futebol nacional e o primeiro jogador negro a alcançar enorme reconhecimento no esporte brasileiro ainda em um período profundamente marcado pelo racismo e pela exclusão social. Em uma época em que muitos clubes restringiam ou dificultavam a presença de atletas negros, Friedenreich tornou-se símbolo da capacidade técnica, da improvisação e da criatividade que mais tarde seriam identificadas como marcas do futebol brasileiro. Sua trajetória antecipava, em campo, as disputas raciais e culturais que atravessariam a construção da identidade nacional nas décadas seguintes.

Mas foi em 1938, após a Copa do Mundo da França, que o futebol revelou definitivamente sua força em terras brasileiras. Naquele Mundial, a seleção conquistou o terceiro lugar e apresentou ao mundo Leônidas da Silva, o “Homem Borracha”, posteriormente eternizado como “Diamante Negro”. O futebol consolidava-se como linguagem das massas urbanas e populares.

Foi também naquele contexto que Gilberto Freyre publicou, em 17 de junho de 1938, no Diário de Pernambuco, o célebre artigo “Foot-ball mulato”. O sociólogo interpretava a seleção brasileira como expressão positiva da mestiçagem nacional, contrapondo-se às teorias raciais pessimistas então difundidas por intelectuais como Oliveira Vianna. Freyre enxergava justamente na mistura cultural e racial brasileira a origem de um estilo de jogo criativo, improvisado, plástico e singular. Em suas palavras, o futebol brasileiro teria desenvolvido “dança”, “capoeiragem” e “malandragem”, elementos que diferenciariam o país das escolas europeias excessivamente rígidas e mecânicas. Na prática, o texto ajudava a legitimar culturalmente a ideia de uma identidade nacional mestiça em um período marcado pela ascensão dos nacionalismos e pelo peso das teorias raciais no mundo ocidental. Por outro lado, jogou uma espécie de cortina de fumaça sobre a violência do racismo brasileiro. O multiculturalismo legitimou a falsa ideia de democracia racial no país.  Foi neste mesmo contexto histórico que o Estado brasileiro percebeu o enorme potencial político do futebol.

Eric Hobsbawm, em sua célebre formulação sobre a “invenção das tradições”, demonstrou como os Estados nacionais modernos produziram símbolos, rituais e práticas capazes de criar sentimentos de pertencimento coletivo. Muitas das tradições que parecem ancestrais são, na realidade, construções relativamente recentes, elaboradas para fortalecer identidades nacionais, legitimar projetos políticos e produzir coesão social.

O futebol brasileiro insere-se perfeitamente nesta dinâmica histórica. Nos anos 1930, auge dos nacionalismos e dos projetos centralizadores ao redor do mundo, Getúlio Vargas compreendeu rapidamente o poder de mobilização das multidões futebolísticas. O Estádio de São Januário, inaugurado em 1927 pelo Club de Regatas Vasco da Gama, transformou-se em palco privilegiado dos discursos do Estado Novo. Não por acaso. O futebol começava a funcionar como linguagem nacional-popular capaz de unificar simbolicamente um país profundamente desigual, regionalizado e fragmentado.

A camisa da seleção, o rádio esportivo, os grandes craques e a própria ideia de “pátria de chuteiras” passaram a compor aquilo que Hobsbawm identificaria como uma tradição inventada: práticas reiteradas, carregadas de símbolos e emoções, destinadas a produzir continuidade histórica e identidade coletiva.

Em 1950, o Brasil acreditava ter encontrado no futebol a confirmação definitiva de sua entrada na modernidade. O Maracanã, construído como monumento nacional, representava mais do que um estádio. Era um projeto de país. A linha ofensiva formada por Friaça, Zizinho, Ademir de Menezes, Jair Rosa Pinto e Chico parecia destinada à consagração.

Mas a derrota para o Uruguai, diante de quase 200 mil pessoas, produziu um trauma nacional. O “Maracanazo” transformou-se em um dos grandes dramas da identidade brasileira. Assim como guerras civis, revoluções e derrotas militares marcaram profundamente outras nações, a derrota de 1950 tornou-se uma ferida simbólica capaz de reorganizar afetos, discursos e percepções sobre o próprio Brasil.

Foi daquele episódio que emergiu o famoso “complexo de vira-latas”, expressão consagrada por Nelson Rodrigues. Também foi naquele momento que o racismo estrutural brasileiro revelou uma de suas faces mais cruéis ao transformar Barbosa, goleiro negro da seleção, em bode expiatório de uma derrota coletiva.

A tragédia de 1950 consolidou o futebol como espaço privilegiado da identidade nacional. A partir dali, ganhar ou perder uma Copa do Mundo passou a ser interpretado como metáfora do próprio destino brasileiro.

Hobsbawm talvez dissesse que poucas tradições inventadas no século XX alcançaram tamanho êxito quanto o futebol no Brasil. A seleção brasileira tornou-se um ritual cívico. As Copas do Mundo converteram-se em calendários emocionais da nação. A camisa amarela virou símbolo de pertencimento coletivo, ainda que, nos últimos anos, tenha sido disputada politicamente por diferentes projetos de país.

O futebol deixou de ser apenas um jogo. Transformou-se em território simbólico onde o Brasil passou a imaginar a si mesmo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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