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Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

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Gênesis S.A.

No sétimo dia, o Deus Dinheiro não descansou. Seria uma má alocação de recursos

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No princípio era o saldo.

E o saldo estava negativo.

Disse então o Deus Dinheiro: “Haja crédito.” E houve crédito. E viu o Deus Dinheiro que o crédito era bom. Sobretudo quando voltava acrescido de juros e correção monetária. Separou então os aprovados dos reprovados e chamou uns de clientes preferenciais e outros de “em análise”. E o mundo começou a se organizar em torno dessa distinção sutil.

No segundo dia, criou o desejo. Não o anseio simples, que se resolve com um pão quente ou uma rede à sombra, mas a ambição sofisticada, que exige entrega expressa e embalagem minimalista. E o homem passou a querer o que não sabia que existia cinco minutos antes. Graças, claro, a um anúncio muito criativo. E viu o Deus Dinheiro que isso era conveniente.

No terceiro dia, criou o tempo. Não o cronológico, que é previsível, mas o promocional, que expira em 24 horas ou enquanto durarem os estoques, o que acabar primeiro. E disse: “Tudo deve ser urgente.” E o homem passou a comprar como quem foge de um incêndio. E viu o Deus Dinheiro que a pressa vende mais que a razão.

No quarto dia, criou a marca. E a marca passou a valer mais que a coisa. Um sapato já não era um sapato: era uma narrativa. Uma camiseta já não vestia, posicionava. E o Deus Dinheiro soprou sobre o mundo o espírito do exclusivo, produzido em escala industrial. E viu que todos queriam ser únicos, do mesmo jeito.

No quinto dia, criou o Sistema, essa entidade abstrata que ninguém vê, mas todos obedecem. Criou taxas, tarifas, siglas e a senha que nunca funciona na primeira tentativa. E instituiu o extrato, documento sagrado onde se revelam os pecados do mês. E o homem passou a contemplá-lo com a mesma mistura de fé e desespero com que se olha um oráculo. E viu o Deus Dinheiro que o desconhecimento rende dividendos.

No sexto dia, criou o homem e a mulher. Deu-lhes login, senha, e a eterna sensação de que faltava alguma coisa, geralmente com frete grátis acima de um valor um pouco maior do que o saldo disponível. E disse-lhes: “Consumai-vos uns aos outros.” E eles consumiram: produtos, serviços e tendências parceladas em suaves prestações.

No sétimo dia, o Deus Dinheiro não descansou. Seria uma má alocação de recursos. Sentou-se diante de múltiplas telas, acompanhou gráficos que subiam e desciam, e aplicou. Investiu em ações, fundos, ouro, imóveis. E criou, nesse dia, a mais refinada de suas obras: a oscilação. Porque nada seduz mais do que a esperança de ganhar. E o medo de perder.

O mundo ali deixou de ser medido em dias, passou a ser contado em ciclos de faturamento. E sempre que alguém ousava perguntar pelo sentido da vida, o Deus Dinheiro respondia com um cupom: “Válido até meia-noite.”

E viu o Deus Dinheiro que tudo isso era muito bom.

Principalmente, quando batia as metas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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