Governo Tarcísio empurra SP para a próxima tragédia
Cortes no orçamento e ausência de prevenção revelam escolhas políticas que transformam chuvas previsíveis em tragédias evitáveis em São Paulo
No Estado de São Paulo administrado pelo governador Tarcísio de Freitas, o futuro insiste em repetir o passado. Tragédias anunciadas se acumulam, lições são ignoradas e a política pública segue refém da improvisação e do discurso fácil. O ano de 2026 mal começou e estamos, novamente, sofrendo com as chuvas de verão.
Desde dezembro do ano passado, ao menos 12 pessoas já morreram no Estado de São Paulo em decorrência dos temporais. O caso mais recente chocou o país: um casal de idosos perdeu a vida após o carro em que estavam ter sido arrastado por uma enxurrada na zona Sul da capital.
Não foi um acidente inevitável. Foi consequência direta da ausência de prevenção. Longe de ser um episódio isolado, diversas cidades paulistas enfrentam alagamentos, deslizamentos e prejuízos materiais neste início de ano.
É verdade que o verão concentra grandes volumes de chuva. Mas isso não é novidade. Trata-se de um ciclo conhecido, previsível e amplamente estudado. Justamente por isso, exige planejamento, investimento contínuo e responsabilidade.
Em fevereiro de 2023, ainda nos primeiros dias do governo Tarcísio de Freitas, São Sebastião, no litoral paulista, foi devastada por um dos maiores deslizamentos de terra da história recente do país. Foram 64 vidas perdidas, milhares de famílias desalojadas e uma comoção nacional que, à época, parecia capaz de provocar uma mudança de rumo.
A expectativa era legítima: que aquela tragédia se transformasse em aprendizado, planejamento e investimento permanente, que o Estado assumisse a prevenção como prioridade absoluta. Mas expectativa e realidade, no governo Tarcísio de Freitas, caminham em direções opostas.
Com o fim do verão, as chuvas diminuem, as tragédias saem do noticiário e a urgência some da agenda política. O ciclo se repete ano após ano: os investimentos minguam, as obras estruturais ficam pelo caminho e os problemas ignorados retornam com força total na estação seguinte.
Quando a tragédia acontece novamente, o governo se diz surpreendido e terceiriza a responsabilidade, culpando a “força da natureza”, a “imprevisibilidade do clima”, “problemas nas obras”. É um discurso confortável. E, infelizmente, também é perigosamente eficaz.
Quer ver só: o prefeito Ricardo Nunes, aliado de primeira hora do governador Tarcísio, havia prometido para maio do ano passado a entrega de um piscinão no Capão Redondo que poderia ter evitado o alagamento que resultou na morte do casal de idosos mencionado no início deste texto. Não o fez. Justificou o atraso por uma camada de rochas encontrada durante as escavações e jogou a inauguração do reservatório para junho deste ano, depois da temporada de chuvas.
Com o governo Tarcísio de Freitas não é diferente. Na proposta de Orçamento para o Estado de São Paulo de 2026, a atual gestão promoveu um corte brutal de 60% nos recursos destinados ao combate às enchentes. Trata-se de uma decisão política consciente, tomada apesar de todas as evidências, alertas técnicos e experiências recentes de perda de vidas.
E o ataque não se restringe a essa área. Setores fundamentais para reduzir vulnerabilidades urbanas e sociais, como habitação, meio ambiente e direitos humanos, também sofreram cortes significativos. Ou seja: menos moradia digna, menos proteção ambiental, menos políticas para quem vive nas áreas mais expostas aos efeitos extremos do clima.
Enquanto isso, os gastos do governo Tarcísio aumentam justamente onde o retorno político é imediato. Casa Civil e Relações Institucionais tiveram ampliação de recursos, fortalecendo o controle político do governo, a distribuição de convênios e a consolidação da base aliada. Coincidência ou não, esse movimento ocorre em pleno ano eleitoral. O Orçamento deixa de ser instrumento de planejamento e passa a funcionar como ferramenta de poder.
Governar é escolher. E o governo Tarcísio fez escolhas claras. Cidades precisam de obras de micro e macrodrenagem, contenção de encostas, reassentamento de famílias em áreas de risco, monitoramento permanente e sistemas de alerta eficientes. Nada disso acontece sem recursos. E cabe ao Governo do Estado liderar esse esforço, coordenar municípios e garantir que a prevenção seja prioridade, não discurso.
Cortar o orçamento de combate às enchentes não é apenas uma decisão técnica equivocada. É uma escolha política que custa vidas. E, mais cedo ou mais tarde, a conta sempre chega.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



