Gratidão não basta — é preciso entender o porquê
A comunicação política – vejam bem, não falo da comunicação eleitoral - mais poderosa não é o comício, os reels, os jingles. É a sala de aula
Lágrimas encharcaram minhas retinas ao assistir a um vídeo em que jovens agradeciam a Lula pela oportunidade de estudar em um Instituto Federal no interior do Nordeste. Me tocou de verdade. Contudo, ficaria mais feliz em descobrir que, para além da gratidão que tem morada no coração daqueles meninos e meninas, também se está construindo em suas mentes a capacidade de realizarem leituras críticas sobre a realidade - que lhes permita compreender que a visão de mundo de Lula, a sua leitura de futuro para a sociedade brasileira, é a mais humana, a mais justa, a mais igualitária entre aquelas que se apresentam em nosso país.
Porque gratidão, sozinha, é frágil. Gratidão sem consciência se dissolve no primeiro discurso sedutor que aparecer pela frente. E o Brasil já provou, com um custo altíssimo, o que acontece quando uma parcela significativa da população - na casa dos 40% - se deixa capturar por um projeto que coisifica pessoas, que transforma seres humanos em ameaças a combater, em categorias a desprezar, em corpos a controlar. O bolsonarismo não foi um acidente. Foi o resultado previsível de décadas de negligência com a formação crítica do cidadão brasileiro. Isso é preciso ser assumido por todos nós.
Há uma diferença fundamental entre alfabetizar e educar. Alfabetizar é ensinar a decodificar símbolos. Educar - no sentido pleno, freiriano - é formar pessoas capazes de ler o mundo por trás das palavras, de identificar quem fala, de onde fala, a serviço de quê e de quem. É essa educação que penso faltar, de forma estrutural, ao Brasil. Não por acaso: uma população que pensa criticamente é uma população difícil de manipular, difícil de convencer de que o inimigo mora na vizinhança pobre, na diversidade, na diferença. O discurso bolsonarista prosperou em terreno fértil porque soube explorar medos reais com respostas falsas. Soube nomear a dor de quem foi deixado para trás e apontar bodes expiatórios - a mulher que ocupa espaço, o negro que reivindica direitos, o gay que existe em público, o indígena que tem terra, o professor que questiona. Esse é o funcionamento clássico do autoritarismo: simplificar o complexo, desumanizar o diferente e entregar ao ódio a função que deveria caber à análise.
Contra isso, não há vacina mais eficaz do que a educação crítica. Não a educação decorativa, que ensina datas e fórmulas para esquecer na semana seguinte. A educação que ensina a perguntar: quem se beneficia com isso? O que esse discurso esconde? Por que me pedem para ter medo disso e não daquilo? Os Institutos Federais – ao lado das universidades e das escolas em todos os níveis - são, nesse contexto, muito mais do que uma política pública de formação técnica. São territórios de disputa civilizatória.
Quando um jovem do sertão nordestino, filho de trabalhador rural, passa a frequentar um espaço de conhecimento, de debate, de convívio com a diversidade, algo se transforma - não apenas em sua trajetória individual, mas no tecido social ao seu redor. Ele volta para casa diferente. Faz perguntas diferentes. Isso é subversivo no melhor sentido da palavra. Por isso mesmo os Institutos Federais foram alvo sistemático de ataques, cortes e desmoralização durante o governo Bolsonaro. Não foi descuido. Foi estratégia.
A gratidão daqueles jovens é real e é justa. Mas o objetivo maior da educação - e da política que a sustenta - não pode ser produzir gratidão. Tem que ser para produzir autonomia. Cidadãos capazes de avaliar, de comparar, de escolher com consciência. Cidadãos que votem em Lula não porque lhe devem algo, mas porque compreenderam, com suas próprias cabeças, que um projeto de país inclusivo, antirracista, que respeita mulheres, que não entrega soberania a potências estrangeiras, que não humilha os pobres e não glorifica a violência, é objetivamente superior a um projeto que faz exatamente o oposto.
A comunicação política – vejam bem, não falo da comunicação eleitoral -, mais poderosa não é o comício, os reels, os jingles. É a sala de aula. E enquanto o Brasil não levar isso a sério, os 40% que se permitem seduzir pelo ódio continuarão sendo um risco real à democracia. Construir consciência é mais lento do que destruir instituições. Mas é o único caminho que não precisa ser refeito a cada geração.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




