Guerra é guerra
Trump governa na contagem regressiva
Se diz que a política é a guerra em outros termos. Pode-se dizer que a política de tarifas do governo Trump é uma espécie de guerra política.
Se há um ano o tarifaço pegou a todos de surpresa, desta vez o objetivo maior está claro: Trump tem uma eleição daqui a 5 meses, para a qual a previsão é que ele saia como pato manco. Se não está fácil para ele governar os Estados Unidos, com o desprestígio do seu discurso – que segunda, quarta e sexta promete uma coisa, para desmentir-se terça, quinta e sábado –, com o apoio de somente um terço da população norte-americana, como será governar com minoria no Congresso?
Esse fantasma leva Trump a essas novas aventuras tarifárias. Com o velho argumento de que o seu país está sendo prejudicado por concorrências desleais de outros países, ele tenta passar o discurso para os norte-americanos de que todas as loucuras que faz são para defender o povo do seu país.
Em função dessa disputa eleitoral, que ele dificilmente pode reverter até lá, Trump governa na contagem regressiva. Em princípio, sua promessa de terminar com as guerras já está comprometida, com a derrota na guerra com o Irã e com a dificuldade de um acordo de paz. Que, se fosse se dar com a vitória que ele diz que seu governo teve, teria que se dar com a rendição total do Irã, o que está fora de cogitação, porque o consenso mundial é que os Estados Unidos perderam essa guerra.
Não conseguir ser o pacificador e candidato ao Nobel da Paz que ele pretendia e, além disso, ser derrotado por um país com força militar milhares de vezes menor do que a sua faz de Trump um derrotado na guerra e na paz.
É mais um capítulo do declínio da hegemonia norte-americana no mundo. Um fenômeno que não ocorreria no século passado, em que os Estados Unidos se valeram da sua força militar para consolidar e ampliar sua esfera de influência pelo mundo afora. Agora, perde uma guerra, não para a Rússia ou para a China, mas para o Irã!
Como será o mundo até a metade deste século, com a afirmação e expansão dos Brics, ao lado do declínio – ou mesmo da decadência – da outrora superpotência norte-americana?
Restará, cada vez mais, aos Estados Unidos, a impressionante sobrevivência do “modo de vida norte-americano”, do “american way of life”, que tem nos shopping centers seu instrumento fundamental. Apesar da diminuição do seu peso econômico no mundo, suas marcas seguem sendo as predominantes nos estilos de consumo globalizado, que chegam até a China e a Rússia.
Esta é a disputa fundamental ao longo deste século, ou pelo menos da sua primeira metade. Que tipo de consumo, de comércio, poderá superar essa modalidade predominante dos Estados Unidos?
O plano da cultura, dos estilos de vida, das formas de consumo, torna-se central na disputa da superação definitiva dos resquícios, ainda importantes, do decadente poderio norte-americano no mundo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




