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Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

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Há forte motivo por trás da desistência da visita de Tarcísio a Bolsonaro

Nada seria mais importante do que cumprir a agenda em Brasília, depois de mobilizar um ministro do STF, mais a PGR, para a autorização da visita

Brasília (DF) - 29/11/2024 - O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Crie corvos e eles lhe comerão os olhos. Tenho dito desde setembro de 2025, que Tarcísio seria candidato à presidência em 2026. Não possuo uma bola de cristal, tampouco estou criando um bolão de apostas. Apenas observando despretensiosamente a paisagem política. 

Tarcísio nasceu para o meio eleitoral de uma costela de Bolsonaro, que o lançou ao governo de São Paulo e deu certo. Foi eleito. Desde então, publicamente atrela seu nome ao do condenado a 27 anos e três meses de prisão e, portanto, inelegível. Até aqui foi assim. Porém, com a indicação de Flávio ao posto de pretendente ao cargo, Tarcísio recolheu as velas. Seu último movimento ao desmarcar a visita que faria a Jair, amanhã (quinta-feira, 22/01), diz muito sobre o seu futuro. E a última pesquisa da AtlasIntel/Bloomberg diz muito mais. 

Tarcísio não se pertence, como escrevi lá atrás.(https://www.brasil247.com/blog/tarcisio-continua-candidatissimo-em-2026-rmzwa5kp). 

A direita persegue desesperadamente um nome que possa lançar para o eleitorado “neutro” e não é de hoje que a Faria Lima considera que esse nome é o do governador de São Paulo. Até agora, ele vinha dizendo que quer a reeleição, que fará campanha para Flávio Bolsonaro – mentira -, e continuava dando mostras (embora mais discretas), de sua fidelidade. Ao se ver com a possibilidade de estar frente a frente com o seu “criador” e, na saída, precisar jurar amor eterno no quebra-queixo com os jornalistas, recuou. 

Tarcísio tem um compromisso com a Faria Lima. Daqui por diante vai evitar ao máximo explicitar o seu compromisso de apoio ao Flávio, por um motivo simples. Se a pesquisa – e a mídia - destacaram que o primogênito reduz a distância momentaneamente de Lula, minimizou que Tarcísio está praticamente no mesmo patamar do indicado de Jair. Além disso, é preciso levar em conta que Flavio está perto de atingir o teto do núcleo de apoiadores de Jair, sem que seja abraçado pelo centrão ou pela mídia. E nem mencionamos o empresariado, grupo que ele visitou, mas passou em branco. Não empolgou.

Enquanto isso, a mais recente rodada da pesquisa eleitoral AtlasIntel/Bloomberg, traz um cenário mais amplo de primeiro turno, com Lula registrando 48,4% das intenções de voto, e abrindo vantagem próxima de 20 pontos sobre Flávio Bolsonaro, que soma 28%. Quieto, continuando a negar que é, sim, candidato, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), colocado junto com Flavio nessa simulação, aparece em terceiro lugar, com 11%, enquanto Ronaldo Caiado (União) e Renan Santos (Missão) empatam com 2,9%, enquanto Romeu Zema (Novo) e Ratinho Jr. (PSD) têm 1,7% cada. Aldo Rebelo (DC) marca 1%. Brancos e nulos chegam a 2,1%, e os indecisos, a 0,3%. Ou seja, Tarcísio é o único, depois de Flávio, que abre vantagem sobre o pelotão de direitistas. 

Isto fica mais evidente quando o nome da oposição a Lula é apenas Tarcísio de Freitas. Nesse caso Lula aparece com 48,5% das intenções de voto, contra 28,4% do governador paulista (ou seja, o mesmo índice de intenções em Flávio, na outra simulação). Caiado chega a 5%, Ratinho Jr. e Zema ficam com 3,9% cada, Renan Santos marca 3,2% e Aldo Rebelo, 1,1%. Brancos e nulos totalizam 5%, e os indecisos, 1,1%. O governador de São Paulo está tecnicamente empatado com Flávio. Bingo, portanto. 

Pela primeira vez ele, Faria Lima e toda a torcida pela tal “terceira via”, vislumbraram uma chance real de Tarcísio, que não é do PL, lançar o seu nome pelo Republicanos, o seu partido, ou qualquer outro que queira abrigá-lo num voo solo.

Comunicado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que foi escolhido pelo pai como pré-candidato à Presidência, de que durante a visita seria pressionado a enterrar qualquer pretensão de candidatura nacional e a trabalhar com mais entusiasmo pelo projeto do clã (informação publicada no Valor), desistiu de estar frente-a-frente com Jair. Não foi, na justificativa pela desistência, além do protocolar “surgiu um outro compromisso”. A menos que fosse tirar o pai da forca, nada seria mais importante do que cumprir a agenda em Brasília, depois de mobilizar um ministro do STF, mais a PGR, para a autorização da visita que se daria nesta quinta. 

Não se espantem se daqui por diante – agora, certamente, bastante atacado pelo clã -, o virem sumir e reaparecer candidato, com todo o apoio da mídia, que esquecerá rapidamente a foto com o boné do MAGA, ou os seus aplausos ao tarifaço de 50% contra o seu país, e os “vivas” da Faria Lima. Tarcísio é candidato. Emparelhou com Flávio, que daqui por diante não deve render mais do que esse empuxo de agora. Um “terceira via”, enfim! 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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