Hipocrisia imperialista: petróleo, droga e subserviência da direita brasileira
A defesa da soberania venezuelana é inseparável da defesa da nossa própria soberania
A recente escalada de ameaças dos Estados Unidos contra a Venezuela, sob o pretexto raso de um "combate ao narcotráfico", é uma farsa cínica que deve ser desmascarada com vigor. Não posso me calar diante desta nova investida imperialista, que encontra eco vergonhoso em setores da extrema-direita brasileira. A história recente, que muitos tentam apagar, nos fornece as chaves para entender o jogo. O alvo real não é um suposto combate às drogas, mas as vastas riquezas do subsolo venezuelano, o imenso mar de petróleo que há décadas atiça a cobiça do Tio Sam.
A hipocrisia da narrativa norte-americana salta aos olhos quando confrontada com seus próprios atos. O mesmo governo que hoje vocifera contra Maduro, no passado recente perdoou um ex-presidente de Honduras condenado por tráfico de drogas. O silêncio ensurdecedor de então, de figuras como Trump, sobre graves episódios que mancharam outros países, revela a seletividade geopolítica de sua "guerra às drogas". Essa guerra só é declarada quando serve a interesses estratégicos e econômicos, nunca quando envolve aliados submissos ou quando a sujeira respinga em suas próprias elites.
Nós, brasileiros, sabemos bem como essa hipocrisia se manifesta. Não podemos e não vamos esquecer o dia 25 de junho de 2019, quando um sargento da Aeronáutica foi preso no aeroporto de Sevilha, na Espanha, com 39 quilos de cocaína em um avião da Presidência da República. Era a aeronave oficial, à disposição do então presidente Bolsonaro, em viagem para uma cúpula do G20. Esse episódio gravíssimo, que expôs ao mundo o envolvimento de entes oficiais brasileiros no narcotráfico, foi convenientemente varrido para debaixo do tapete pela mesma extrema-direita que hoje aponta o dedo para a Venezuela.
Essa mesma direita subserviente, que passa uma borracha em seus próprios escândalos, agora se faz de surda e cega aos reais motivos do cerco à Venezuela. Eles, que deveriam zelar pela soberania nacional, chegam ao cúmulo do repugnante: há figuras no Congresso, como certo deputado mineiro que chamo de "chupetinha do império", que ousam pedir a invasão do Brasil e a prisão do presidente Lula pelos Estados Unidos. São picaretas que não entendem o significado de nação, que cospem no conceito de nacionalismo e atraiçoam a defesa da pátria em troca de likes e aplausos de seus senhores estrangeiros.
Portanto, quando vejo esses setores apoiando as investidas contra Caracas, enojamento é pouco. É uma traição dupla: à história do nosso próprio país, com seus episódios obscuros que eles insistem em esquecer, e ao futuro da América Latina, que precisa de integração e não de intervenção. Eles protegem traficantes de farda em seu próprio quintal enquanto acusam, sem provas, um presidente estrangeiro. Sua moral é de conveniência, seu patriotismo, de fachada.
A defesa da soberania venezuelana é, assim, inseparável da defesa da nossa própria soberania. Permitir que a narrativa hipócrita do combate às drogas justifique uma agressão é abrir um precedente perigosíssimo para toda a região. O petróleo venezuelano é do povo venezuelano. As contradições e problemas da Venezuela devem ser resolvidos pelos venezuelanos, sem a espada nem o dólar estadunidense ameaçando sua autodeterminação.
Como deputado de esquerda, sempre lutei contra as amarras do imperialismo e em defesa dos recursos nacionais. O ataque à Venezuela é a face mais crua dessa lógica. Reavivar a memória sobre o caso do avião presidencial carregado de cocaína não é mero revisionismo; é um dever político para desnudar quem, de fato, compactua com o tráfico e a ilegalidade quando isso lhe interessa. A luta é pela verdade.
Conclamo a sociedade brasileira a rejeitar esse discurso belicista e hipócrita. Devemos repudiar veementemente os canalhas internos que pedem intervenção estrangeira e nos solidarizar com o povo irmão da Venezuela. O caminho para a América Latina é o da união, da diplomacia e do respeito mútuo, nunca o da pilhagem disfarçada de moralidade. A extrema-direita brasileira que se alinha a esse projeto não merece respeito, mas sim a nossa mais firme e organizada resistência.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



