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Ivete Nenflidio

Escritora, curadora artística e pesquisadora

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Homens, cuidem do jardim!

Neste 8 de março, mulheres ainda enfrentam violência e desigualdade, enquanto homens são chamados a ouvir, dividir responsabilidades e mudar atitudes

Homens, cuidem do jardim!

Neste 8 de março, há pouco a comemorar. Mulheres seguem sendo violentadas, agredidas física e psicologicamente e mortas. São silenciadas, desrespeitadas, xingadas no  trânsito. São exploradas no trabalho e também dentro de suas próprias casas, em famílias que  ainda entendem que, por serem mulheres, são as únicas responsáveis pelos cuidados com as pessoas, com a casa, com a alimentação, com a escola e com a educação dos filhos. 

Somos sobrecarregadas. Realizamos, diariamente, inúmeros trabalhos necessários para manter nossas famílias e lares funcionando e, ainda assim, grande parte desse trabalho permanece invisível, não reconhecido, não remunerado. Quantas mulheres trabalham a vida inteira e, na velhice, sequer conseguem se aposentar? Enquanto isso, muitos de seus maridos seguem crescendo profissionalmente, evoluindo em suas carreiras, permanecendo ativos e reconhecidos. Elas ficam para trás. 

Por isso, homens, não queremos flores — não as arranquem da natureza. O que queremos é algo muito mais básico: a tranquilidade de caminhar na rua sem precisar olhar para trás a cada minuto, com medo de estarmos sendo perseguidas. Não queremos temer pedir um táxi e ter a rota alterada por um abusador. Não queremos viver com medo da noite, como se ela não nos pertencesse. Não queremos ter receio de existir, de nos arrumarmos, de sermos vistas. 

Queremos que os homens sejam parceiros no sentido mais amplo da palavra: companheiros na construção de uma vida compartilhada, na divisão real das  responsabilidades, no verdadeiro partilhar do pão. 

Convido os homens a se abrirem à escuta. Às mulheres, convido que sigam lutando, reivindicando, criando e compartilhando sua sensibilidade, sem receio de ocupar espaços e tornar suas vozes visíveis. 

Em um mundo que ainda se estrutura por múltiplas formas de violência contra nós, ser ouvida é um gesto potente e transformador. 

Penso nas meninas que estão crescendo agora. Desejo que encontrem um mundo que respeite suas capacidades de criação, de força e de liderança. Um mundo onde não precisem diminuir-se para caber, nem disputar entre si os poucos espaços que lhes foram historicamente concedidos. 

E desejo também homens diferentes: mais sensíveis, mais inteiros, mais humanos. 

Homens que possam chorar diante de um filme ou de uma canção sem vergonha de sua própria emoção. Que vistam rosa, roxo ou qualquer cor. Que usem adornos, que se permitam delicadezas. Que cuidem de si — mais da mente do que dos músculos. 

Homens que saibam partilhar a vida: que cozinhem para quem amam, que cuidem de seus filhos, de seus animais, de seus idosos. Que compreendam que o cuidado não diminui ninguém — ao contrário, amplia o mundo. 

E que, quando houver tempo, cuidem também de seus jardins. Sem arrancar flores, mas aprendendo, finalmente, a fazê-las crescer.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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