Horrores inimagináveis e a desigualdade nuclear diante do fim possível
Bunkers estatais, vetos diplomáticos e governança lenta contrastam com populações expostas, desinformadas e sem proteção em um cenário nuclear
Do primeiro clarão às consequências duradouras, o artigo descreve colapsos simultâneos em cidades, saúde, telecomunicações, alimentos e clima, revelando por que a guerra nuclear nunca permanece localizada geograficamente.
Em fevereiro de 2026, falar de guerra nuclear deixou de ser um exercício marginal reservado a especialistas, arquivos da Guerra Fria ou ficção científica. O tema voltou ao centro do noticiário internacional impulsionado por conflitos ativos, rivalidades estratégicas abertas e pela erosão visível de tratados que, por décadas, funcionaram como amortecedores do impensável. Nove países concentram hoje milhares de ogivas nucleares prontas para uso, herança direta de uma lógica de dissuasão que sobreviveu ao fim do mundo bipolar e se adaptou a um planeta mais instável, fragmentado e impulsivo. Estados Unidos e Rússia mantêm a maior parte desse arsenal, mas já não controlam sozinhos o tabuleiro: China, potências europeias e Estados regionais armados nuclearmente completam um cenário em que decisões tomadas em minutos podem desencadear efeitos globais duradouros. É nesse contexto que este texto se propõe a pensar o pior — não para profetizar o desastre, mas para compreender por que ele jamais seria local.
É a partir desse pano de fundo — concreto, documentado e contemporâneo — que este artigo se organiza como exercício mental.
É preciso que o leitor saiba, desde a primeira linha, que isto é um exercício mental — uma tentativa consciente, imperfeita e um pouco no escuro de prever o imprevisível sem cair nem na fantasia, nem na anestesia. Escrevo em fevereiro de 2026 porque os sinais de alerta já não estão apenas nos relatórios: estão no noticiário, nas doutrinas militares, na erosão dos tratados e na facilidade com que a palavra “nuclear” volta a circular como se fosse um adjetivo qualquer. No dia 27 de janeiro de 2026, o Bulletin of the Atomic Scientists ajustou o “Relógio do Juízo Final” para 85 segundos antes da meia-noite, o ponto mais próximo do colapso desde que a marca existe, citando tensões entre potências nucleares, conflitos em curso e falhas de liderança global.
Ainda assim, a gravidade simbólica desse ajuste não produziu, na mesma proporção, um debate público à altura de suas implicações.
Apesar de um dado muito preocupante, aparentemente passou despercebido na imprensa.
Lucidez verificável
Não escrevo para espalhar pânico. Escrevo para disputar o pânico com algo melhor: lucidez verificável. E lucidez, aqui, exige uma combinação rara de intimidade e método: imaginar pessoas concretas — e, ao mesmo tempo, amarrar o imaginado às melhores evidências públicas disponíveis.
Começo pelo chão numérico que impede a imaginação de virar delírio. O SIPRI — Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo — estimou que, em janeiro de 2025, nove países somavam 12.241 ogivas nucleares; 9.614 estavam em estoques militares potencialmente utilizáveis; 3.912 estavam “implantadas” com forças operacionais; e cerca de 2.100 permaneciam em alto estado de alerta, quase todas de Rússia e Estados Unidos, com a China possivelmente mantendo algumas ogivas em mísseis mesmo em tempos de paz. O Federation of American Scientists, criado em 1945 por cientistas do Projeto Manhattan, mantém um dos painéis públicos mais usados para acompanhar inventários e modernização nuclear.
Esses números não são abstrações estratégicas; eles definem o tempo disponível para errar — e para corrigir.
Esse é o pano de fundo do qual quase ninguém fala à mesa do jantar: o mundo não só ainda tem armas suficientes para nos destruir — como mantém parte delas em prontidão compatível com decisões tomadas sob minutos, sob medo e sob informação incompleta.
Agora ponho o leitor dentro do exercício mental, sem pedir permissão, porque a história não pede.
Três redes humanas
Escolho três cidades, não por sadismo, mas por representarem densidade, simbolismo e interdependência. Nova Iorque tinha população estimada em 8,48 milhões em 1º de julho de 2024, segundo o Departamento de Planejamento da própria cidade e o U.S. Census Bureau. Xangai registrava 24.802.600 residentes ao final de 2024, conforme o Bureau Municipal de Estatísticas e o órgão nacional de estatísticas local. Londres tinha 8,945 milhões em meados de 2023, segundo o London Datastore, com base nas estimativas oficiais britânicas.
Não são “alvos”. São redes humanas: hospitais, metrôs, escolas, data centers, bolsas, redações, portos, aeroportos, cozinhas. E é exatamente por isso que uma explosão nuclear em qualquer uma delas não ficaria “contida” no perímetro do clarão.
A física chega antes da política — e antes do som. No primeiro milionésimo de segundo após a detonação, forma-se uma bola de fogo que, em descrições clássicas de efeitos imediatos, pode chegar a centenas de metros. Dentro dela, tudo termina no mesmo instante. É uma frase que eu quase não consigo escrever sem sentir vergonha da frieza — mas é precisamente essa frieza que o tema exige: ali não há heroísmo, não há escolha, não há “sobrevivência”. Há ausência.
Em seguida, a onda de choque redesenha a cidade como se a cidade fosse um material frágil. Prédios cedem, fachadas viram lâminas, pontes e túneis deixam de ser infraestrutura e passam a ser armadilhas. Quem estava a caminho do trabalho fica preso num espaço onde “sair” deixa de ser um verbo simples. E logo vem o calor: combustão em cadeia, incêndios simultâneos, fumaça tão densa que a respiração vira um problema moral — porque você passa a disputar o ar com milhares de pessoas ao mesmo tempo.
E então, a cena que o cinema costuma suavizar: carros batem por falta de sinalização, por pânico, por cegueira da fumaça. Trens saem dos trilhos. O subterrâneo, que nos dias comuns é refúgio do trânsito, vira corredor de sufocamento. O ar quente sobe e, com ele, correntes violentas que podem desestabilizar aeronaves em aproximação ou decolagem: o céu, que parecia distante da tragédia, desaba para dentro dela.
A pergunta que surge não é “quantos morreriam?”, mas “quem sobra para contar”.
Precisão impossível
Ainda assim, o jornalismo precisa aproximar números sem fingir precisão impossível. O que se sabe, a partir de modelos e simulações usados por pesquisadores e instituições, é que uma grande detonação em área densamente povoada pode produzir dezenas ou centenas de milhares de mortes rápidas — e uma massa ainda maior de feridos graves.
No exercício mental, eu me atenho a um detalhe que raramente recebe destaque: a rede hospitalar dessas cidades — sofisticada, cara, admirável — não foi desenhada para tratar, de uma vez, centenas de milhares de queimados extensos, politraumatizados e irradiados, com água, energia e equipes também atingidas.
A própria literatura médica e humanitária insiste, há décadas, que um ataque nuclear ultrapassa a capacidade de resposta de qualquer sistema de saúde.
Quando se fala em “radiação”, muita gente imagina um veneno abstrato.
Só que a radiação, no cotidiano de um pós-ataque, vira uma sequência de escolhas desesperadas: ir atrás de alguém e se contaminar; ficar parado e morrer de sede; correr para um hospital inexistente; acreditar num boato; perder tempo tentando confirmar uma mensagem que não chega.
Redundância digital
Aqui entra o primeiro grande colapso moderno: telecomunicações. A vida urbana hoje depende de redundância digital — mas a redundância também tem pontos de falha. A International Telecommunication Union(UIT), fundada em 1865, é um organismo intergovernamental ligado ao sistema ONU que coordena padrões técnicos e a operação global de redes de telecomunicações — incluindo atribuições sobre espectro e órbitas de satélites.
Em 2024, a UIT publicou a Recomendação K.87, um guia sobre riscos e requisitos de segurança eletromagnética para centros de telecomunicações — um lembrete técnico de que o mundo real é vulnerável a interferências, perturbações e falhas físicas em infraestrutura crítica.
O leitor não precisa decorar K.87. Precisa entender o efeito social: quando a comunicação falha, o rumor ocupa o lugar do fato. E o rumor, nesse cenário, mata.
É aqui que eu introduzo os satcoms — comunicações por satélite — não como fetiche tecnológico, mas como linha nervosa do planeta. Um sistema de satcom depende de três camadas: segmento espacial (os satélites), segmento terrestre (estações e antenas) e o meio de transmissão. Satélites funcionam como repetidores, conectando regiões, navios, aeronaves, militares, bancos, emissoras e emergências. A cidade que sofre uma detonação perde antenas, perde energia, perde roteadores, perde pessoal técnico — e, ao mesmo tempo, o resto do mundo passa a desconfiar da integridade de dados, horários, rotas, autorizações. O que não cai, desacredita. E um planeta que desacredita de seus próprios sinais entra num modo de paralisia.
Cadeia de suprimentos
O segundo colapso é logístico: transporte e suprimentos.
Em crises súbitas, o World Food Programmetrabalha com janelas de resposta aceleradas e metodologias para avaliar necessidades e estabelecer rotas em poucas dezenas de horas. Em material público, o WFP afirma que, “em caso de choque”, suas equipes de cadeia de suprimentos podem estar no terreno em até 72 horas para avaliar necessidades críticas e montar rotas. Essa frase, num ataque nuclear, vira o retrato do impossível: 72 horas podem ser tempo demais quando uma metrópole perde centros decisórios, aeroportos, estoques e segurança pública simultaneamente.
E aqui eu peço que o leitor imagine algo prosaico — porque é o prosaico que desmorona primeiro. Quando há previsão de furacão ou tornado, pessoas correm ao supermercado, aos postos, às farmácias. O medo faz com que decisões individuais racionais produzam um desastre coletivo: prateleiras vazias, brigas, pânico, desinformação. Num cenário nuclear, isso explode em escala e em violência, porque o corpo entende antes da mente: “vai faltar”.
Múltiplas ogivas
Até aqui, eu descrevi uma bomba. Mas nenhuma doutrina séria trabalha com “uma”. Forças nucleares planejam redundância, saturação e garantia de destruição. A lógica técnica dessa multiplicação tem nome: MIRV — veículo de reentrada com múltiplas ogivas independentemente direcionáveis. É o princípio de que um único míssil pode liberar várias ogivas, cada uma com um alvo distinto. O resultado psicológico é devastador: não é apenas uma cidade que entra em colapso; é a ideia de que qualquer reparo é inútil, porque o próximo clarão pode vir antes da próxima ambulância.
A letalidade do alcance também precisa ser dita sem rodeios. Um míssil balístico intercontinental (ICBM) é definido, em classificações amplamente aceitas, como um míssil com alcance superior a 5.500 km. Isso significa que, em termos estratégicos, o planeta é um tabuleiro sem distância segura. Entre teatros de tensão — Coreia do Norte e Coreia do Sul; Índia e Paquistão; Israel e Irã; e a competição de primazia entre Washington e Pequim — o que cresce não é apenas o risco de “guerra”, mas o risco de escalada por erro, por interpretação, por vaidade, por liderança impulsiva.
O gatilho nuclear
É a partir desse ponto que o exercício mental deixa de ser abstrato. Porque mísseis não voam sozinhos: eles obedecem a decisões humanas tomadas em contextos regionais concretos, onde crises locais podem, em cadeia, perder rapidamente o adjetivo “local”.
No Oriente Médio, o exercício mental exige precisão máxima. Em 2024 e 2025, o mundo assistiu a ataques diretos e indiretos entre Israel e Irã, drones e mísseis inéditos, ações militares dos Estados Unidos contra milícias aliadas de Teerã no Iraque, na Síria e no Iêmen, além de sabotagens e ciberoperações. Tudo isso foi real e perigoso.
Mas o gatilho nuclear não foi acionado. Não houve destruição deliberada das instalações centrais do programa nuclear iraniano por uma potência nuclear com o objetivo explícito de eliminar sua capacidade estratégica futura. Essa distinção é decisiva: uma ação percebida como ameaça existencial mudaria o jogo e encurtaria o tempo do mundo, acionando alianças, proxies e pressões sobre infraestrutura energética e rotas marítimas.
No caso específico do Irã, porém, esse gatilho possui uma densidade estratégica singular que o distingue de outros teatros de crise. O programa nuclear iraniano não é apenas um ativo técnico ou uma ficha de barganha diplomática: ele é percebido internamente como a última garantia de sobrevivência do regime diante de décadas de sanções, isolamento econômico, sabotagens, assassinatos seletivos de cientistas e ameaças explícitas de mudança forçada de governo. Um ataque direto, profundo e inequívoco a instalações nucleares centrais — sobretudo se conduzido ou apoiado por uma potência nuclear reconhecida — tenderia a ser interpretado em Teerã não como contenção preventiva, mas como tentativa deliberada de remover o último degrau de dissuasão estratégica do país. Nesse cenário, a resposta dificilmente seria limitada ou simétrica. O Irã acionaria de forma coordenada sua rede de aliados e grupos armados regionais, ampliaria ataques assimétricos contra interesses israelenses e ocidentais, pressionaria rotas energéticas vitais como o Estreito de Hormuz, elevaria o custo regional do conflito e buscaria criar uma crise sistêmica suficientemente ampla para forçar as grandes potências a escolher entre uma escalada aberta — com riscos nucleares reais — ou um recuo político humilhante. O perigo nuclear, aqui, não nasce de um lançamento imediato, mas da erosão consciente do último pilar de dissuasão percebido por um Estado que se vê cercado, desacreditado e existencialmente ameaçado.
O planeta respirando fumaça
Se o curto prazo é o colapso urbano, o médio e o longo prazo são o planeta inteiro respirando fumaça. Aqui, a ciência climática entra como testemunha. O que chamamos de “inverno nuclear” é a hipótese — sustentada por modelagens — de que fuligem injetada na atmosfera por incêndios urbanos maciços reduziria a luz solar e derrubaria temperaturas, afetando agricultura em escala global.
Um estudo na Nature Food (2022) simulou cenários de fuligem (soot) e estimou quedas grandes na produção calórica global; no cenário extremo de 150 Tg, os autores apontam que a produção calórica média de culturas poderia cair em torno de 90% após alguns anos. O International Committee of the Red Cross, em documento sobre efeitos climáticos e alimentos, cita pesquisas indicando que mais de um bilhão poderia enfrentar fome após uma guerra nuclear regional e lembra que reservas alimentares globais cobrem algo como 60 a 70 dias de consumo — um número que dá vertigem porque transforma “planeta” em “prateleira”.
Nesse ponto, a frase mais importante do texto é simples: explosões nucleares não respeitam fronteiras. Vento, chuva, correntes, cadeias de suprimento e mercados não têm passaporte. O hemisfério não é parede. Continentes não são escudos.
Contaminação oceânica
E os oceanos? O leitor tem razão em exigir esse capítulo. A prontidão de submarinos nucleares é um dos pilares da dissuasão: plataformas móveis, silenciosas, capazes de lançar mísseis. O impacto indireto sobre oceanos e vida marinha envolve risco de acidentes, de contaminação e, sobretudo, de radionuclídeos circulando por correntes e cadeias alimentares. A NOAA, por exemplo, mantém material público sobre radionuclídeos derivados de Fukushima detectados em atuns no Pacífico — uma lembrança objetiva de que traços radioativos podem viajar e servir como marcadores de trajetórias oceânicas. Fukushima não foi guerra, e justamente por isso é útil como metáfora factual: se a natureza transporta sinais radioativos em um acidente, imagine a complexidade de um conflito.
Governança
Eu ainda não falei do ponto mais humano — e talvez mais cruel: governança.
O mundo tem mecanismos para tentar impedir o pior, mas esses mecanismos têm engrenagens lentas, regras, vetos e política doméstica. As Nações Unidas podem convocar sessões emergenciais, acionar diplomacia, pressionar por cessar-fogo; mas o Conselho de Segurança pode paralisar por veto dos próprios envolvidos. O Parlamento Europeu pode aprovar resoluções, articular sanções e coordenação continental; mas não controla arsenais alheios, apenas influencia custos e legitimidades. E ainda assim, em cenários de escalada, legitimidade é um instrumento real: ela pode comprar tempo — e tempo, aqui, é vida.
Há também caminhos jurídicos e normativos que precisam ser citados sem ingenuidade. O Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares — adotado em 2017 — entrou em vigor em 22 de janeiro de 2021 no sistema ONU, mesmo sem adesão das potências nucleares, funcionando como marco moral e de pressão internacional. Ele não desarma sozinho, mas muda o vocabulário do aceitável — e vocabulário, quando o assunto é apocalipse, é infraestrutura.
A desigualdade em cenário nuclear
No meio desse quadro, surge a pergunta que o leitor sempre faz em silêncio: “E eu? Onde eu estaria?”
Aqui entram os bunkers — não como fantasia de bilionário, mas como política pública em alguns países. A Suíça, por exemplo, mantém a regra histórica de “um abrigo por habitante”: o governo afirma que há cerca de nove milhões de vagas em aproximadamente 370 mil abrigos privados e públicos, com taxa de cobertura acima de 100%. A Finlândia informa possuir cerca de 50.500 abrigos, com espaço para 4,8 milhões de pessoas, muitos deles estruturas privadas reforçadas em edifícios. A Suécia declara ter cerca de 65 mil abrigos, com capacidade para sete milhões, e que, em caso de alerta elevado, devem poder ser preparados em até dois dias.
Mas o texto precisa dizer o óbvio que, em geral, se evita por educação: em muitas nações, bunkers estratégicos servem prioritariamente para proteger chefes de Estado, primeiros-ministros, suas famílias imediatas, o estado-maior militar e centros de comando.
A desigualdade, num cenário nuclear, não é apenas de renda: é de ar respirável, de porta blindada, de água potável.
Colapso cognitivo
Agora vem o trecho que conecta método e angústia com um nome próprio: Princeton Program on Science and Global Security. Em 2019, pesquisadores do programa publicaram a simulação “Plan A”, modelando uma escalada plausível entre EUA e Rússia, e estimaram mais de 90 milhões de mortos e feridos nas primeiras horas do conflito. A utilidade disso não é prever o futuro com precisão; é mostrar a velocidade do colapso: decisões em minutos, mortes em horas, efeitos por décadas.
Quando eu olho para fevereiro de 2026 — conflitos quentes e guerras por procuração, tensões no Indo-Pacífico, instabilidade no Oriente Médio, retórica agressiva circulando nas redes, e a intoxicação cotidiana pela desinformação — eu concluo que a ameaça nuclear não se tornou “mais provável” apenas por arsenais. Tornou-se mais provável porque o ambiente mental da política internacional está mais irritável, mais performático, mais refém de humilhações públicas. E isso é explosivo em qualquer regime — especialmente em lideranças autoritárias e impulsivas, onde recuar pode parecer fraqueza e onde cercas institucionais podem ser contornadas por vontade pessoal.
Por isso a desinformação merece um parágrafo próprio.
Em cenários extremos, não é apenas a bomba que mata: é o colapso cognitivo. Boatos sobre “segunda onda”, sobre “ataque químico”, sobre “cidade segura”, sobre “culpado oculto” podem disparar migrações suicidas, linchamentos, saques e choques entre forças de segurança e civis desesperados. O pânico tem logística própria: ele entope estradas, consome estoques, destrói confiança e acelera decisões ruins.
Hiroshima e Nagasaki
É aqui que eu volto ao passado — não como lição escolar, mas como advertência corporal. Em 1945, Hiroshima e Nagasaki foram atingidas por armas muito menos potentes do que as ogivas típicas hoje implantadas em mísseis e submarinos. Ainda assim, a devastação foi suficiente para produzir mortes imediatas em massa e consequências prolongadas por radiação, cânceres e sofrimento dos sobreviventes.
E o que a história prova é simples: a bomba não encerra o drama no dia do clarão; ela inaugura um regime de dor que atravessa gerações.
Uma lufada de ar
Nesse ponto, eu preciso oferecer ao leitor uma lufada de ar — não de otimismo tolo, mas de ação possível. A proscrição das armas nucleares, a proibição do uso de gases venenosos ou a interdição da guerra bacteriológica não eliminarão as causas básicas das guerras. Por mais importantes que tais medidas práticas obviamente sejam, como elementos do processo de apaziguamento, por si só elas são demasiado superficiais para poderem ter um efeito duradouro.
Os povos são suficientemente engenhosos para inventar novos instrumentos de guerra, e para utilizar meios como os alimentos, as matérias-primas, as finanças, o poderio industrial, a ideologia e o terrorismo na subversão uns dos outros, numa procura incessante de supremacia e domínio.
Ainda assim, há medidas preventivas concretas — e inadiáveis — que não dependem de milagres: restaurar canais militares de comunicação direta para evitar erros de interpretação; reforçar regimes de verificação e transparência; ampliar compromissos de “não primeiro uso” onde houver condições políticas; proteger infraestrutura crítica contra colapsos em cascata; tratar a desinformação como ameaça à segurança humana, não como mero ruído cultural; fortalecer instrumentos multilaterais e humanitários, porque eles compram tempo e reduzem a tentação da escalada.
Paus e pedras
E, por fim, as frases que soam antigas porque são verdadeiras demais. A citação atribuída a Albert Einstein — “não sei com que armas será travada a Terceira Guerra Mundial, mas a Quarta será travada com paus e pedras” — circula há décadas e foi investigada por checadores de citações; o núcleo da ideia é consistente com registros e reaparições históricas, ainda que a formulação exata varie em versões.
E o que ela faz, mais do que impressionar, é devolver à política internacional um princípio de humildade: quando se normaliza a linguagem da destruição total, a civilização inteira vira refém de um acesso de fúria.
Eu termino como comecei: isto não é profecia. É um espelho. Um espelho desconfortável, porém necessário, para que o leitor — e eu junto com ele — possa reconhecer que o risco nuclear não é um capítulo encerrado da Guerra Fria, mas um perigo contemporâneo, amplificado por tecnologia, rivalidade e desinformação.
Se a humanidade tiver sorte, este texto será apenas um exercício mental. Se não tiver, será uma nota de rodapé escrita antes do silêncio.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



