IBC-Br recua 0,67% em março e sinaliza desaceleração no primeiro trimestre
Queda supera projeções do mercado e aponta retração generalizada nos setores produtivos; expectativas de inflação e juros se deterioram no relatório Focus
O Banco Central divulgou nesta manhã o IBC-Br de março, proxy mensal do PIB, com queda de 0,67% na comparação mensal com ajuste sazonal — resultado consideravelmente pior do que o consenso de mercado, que projetava recuo de 0,30%. O dado confirma uma retração generalizada da atividade econômica no mês, com todos os setores registrando variação negativa. O setor de serviços foi o que mais pesou, com queda de 0,79%, revertendo a alta de 0,57% registrada em fevereiro — movimento que já havia sido antecipado pela Pesquisa Mensal de Serviços da semana passada. A indústria recuou 0,23%, em linha com a PIM, e a agropecuária cedeu 0,21%. Excluindo o setor agropecuário, a contração chega a 0,93%. É um dado ruim: a retração foi generalizada e deixa claro que a economia está desacelerando.
Apesar do resultado negativo de março, o carregamento estatístico acumulado desde 2024 ainda deve sustentar um crescimento positivo no primeiro trimestre. A estimativa é de expansão em torno de 0,5% a 0,6% no trimestre — ritmo mais lento do que o observado no final de 2024. Na comparação interanual, o IBC-Br acumula alta de aproximadamente 3,0%, refletindo o efeito de arrasto do crescimento robusto do ano anterior, um “bônus estatístico” de 2024 que se prolonga ao início de 2026.
O Relatório Focus desta manhã mostrou nova rodada de deterioração das expectativas. A inflação projetada para 2025 avançou para 4,92%, bem acima do teto da meta de 4,5%. O próprio Ministério da Fazenda, em projeções divulgadas hoje, já trabalha com o IPCA no teto. O mercado, de modo geral, já incorporou ao cenário base uma inflação de pelo menos 4,5% — e muitas casas apontam para valores superiores. Para 2026, a expectativa recua para cerca de 4,0%, mas segue em trajetória ascendente. Na curva de juros, a Selic esperada para o final de 2025 migrou para 13,25%, e para 2026 a projeção é de 11,25%. O padrão é consistente: o mercado segue elevando tanto as expectativas de inflação quanto as de juros.
No ambiente externo, há algum alívio pontual com o Brent recuando para abaixo de 110 dólares nesta segunda-feira, após o estresse da semana passada — quando o juro de 30 anos americano ultrapassou 5% e o de 10 anos atingiu 4,50%, máxima em 24 meses. A sequência adversa de dados nos EUA, com PCE core subindo 0,6% e PPI acima de 1%, reforça a percepção de que o Fed não deve cortar juros no curto prazo, contaminando as condições financeiras globais.
Para o Brasil, o diagnóstico passa pelo acúmulo de choques de oferta dos últimos anos: a pandemia, a guerra na Ucrânia, a recente alta do petróleo e a forte depreciação cambial na virada de 2024 para 2025, quando o real superou 6 reais por dólar. Esse conjunto de perturbações explica a persistente resistência da inflação brasileira. Trazê-la consistentemente abaixo de 5% tem custado muito caro em termos de Selic — e o custo, ao que tudo indica, ainda não terminou.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




