ICE: a polícia do terror como método
O ICE, tal como instrumentalizado pelo governo Trump, não é apenas uma agência migratória. Tornou-se uma polícia a serviço de um projeto autoritário
Ao longo da história, regimes autoritários sempre dependeram de um mesmo instrumento para se manter: o medo. Não o medo difuso, abstrato, mas o medo concreto, administrado por instituições armadas que atuam acima ou à margem da lei. Foi assim com a Gestapo na Alemanha nazista, com a NKVD no stalinismo soviético, com a OVRA no fascismo de Mussolini, com a DINA de Pinochet no Chile, com a SAVAK do Xá do Irã e com tantas outras polícias políticas espalhadas pelo mundo. Mudam os nomes, mudam os discursos, mas o método é recorrente: repressão seletiva, desumanização do “inimigo” e violência legitimada pelo Estado.
Essas forças não existiam para garantir segurança pública. Existiam para impor obediência. Atuavam com prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos, assassinatos e perseguições sistemáticas. O direito era substituído pela exceção permanente. O cidadão, pelo suspeito. O opositor, pelo inimigo a ser eliminado.
É impossível observar a atuação do ICE (Immigration and Customs Enforcement) sob o governo Donald Trump sem reconhecer os ecos perigosos desse passado. Criado como órgão de controle migratório, o ICE foi transformado politicamente em um instrumento de intimidação, voltado não apenas à aplicação da lei, mas à produção deliberada do medo. Batidas espetaculares, prisões em massa, separação de famílias, detenções sem transparência adequada e um discurso oficial que trata imigrantes como ameaça existencial compõem um cenário que vai muito além da política migratória.
Não se trata de afirmar que os Estados Unidos vivem um regime totalitário nos moldes do século XX, mas de reconhecer que o fascismo não surge pronto. Ele se constrói gradualmente, normalizando abusos, testando limites institucionais e convertendo forças do Estado em braços ideológicos de um líder. Quando agentes passam a agir estimulados por retórica de ódio, quando o alvo é um grupo específico desumanizado, quando a violência estatal se torna espetáculo e recado político, o sinal de alerta já foi disparado.
Há registros de mortes em custódia, denúncias recorrentes de violações de direitos humanos e uma cultura de impunidade que se fortaleceu sob o discurso de “lei e ordem”. Há imagens que mostram um assassinato a sangue-frio, com três disparos feitos a menos de um metro de distância. Uma execução. Ainda que cada caso deva ser apurado individualmente, o conjunto revela um padrão: a repressão como política, o medo como ferramenta de governo.
A história ensina que nenhuma polícia política começa dizendo que serve ao terror. Todas dizem servir à ordem, à pátria ou à lei. Mas quando a lei deixa de proteger e passa a ameaçar, quando o Estado escolhe quem merece direitos e quem merece o medo, estamos diante de um velho roteiro com novos protagonistas.
O ICE, tal como instrumentalizado pelo governo Trump, não é apenas uma agência migratória. Tornou-se uma polícia a serviço de um projeto autoritário, que usa prisões e violência institucional para impor medo, silenciar e disciplinar. Ignorar essas semelhanças históricas não é neutralidade - é cumplicidade com a repetição do horror.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


