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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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Ilse, Michelle e as mulheres dos criminosos

“Por que Bolsonaro e seu entorno familiar ainda desfrutam de tratamento institucional, apesar dos crimes e horrores que praticaram?", pergunta Moisés Mendes

Alexandre de Moraes e Michelle Bolsonaro (Foto: Antonio Augusto/Secom/TSE | Isac Nóbrega/PR)

Ilse Pröhl Hess era a mulher de Rudolf Hess, o vice-führer de Hitler. Ilse e Hess eram grandes amigos do líder. Ela não era apenas a esposa, e sim uma voz forte na liderança do nazismo, até com produção literária sobre as ideias do grande chefe.

Mas nenhum alemão imaginaria, em 1945, depois da condenação do temido Hess à prisão perpétua pelo Tribunal de Nuremberg, que Ilse pudesse ser recebida por um dos juízes. E muito menos implorar para que o marido cumprisse a pena em casa. Hess sofria de distúrbios mentais sérios.

Ilse não fez nada até porque logo depois também foi presa. E não poderia fazer, mesmo se estivesse solta, porque Hess não tinha mais, como todos os nazistas depois da guerra, força política alguma. O condenado morreu na cadeia, apesar do poder que havia ajudado a construir durante uma década.

É inimaginável que um alemão pudesse usar o seguinte argumento em nome de concessões a Hess e aos outros chefes nazistas condenados: eles merecem privilégios por terem ocupado altos postos no governo. Deveriam ser respeitados pelo que haviam sido.

É o que prevalece hoje, em boa parte do meio político e jurídico, em relação a Bolsonaro. A Justiça deveria levar em conta sua condição de ex-presidente da República e respeitá-lo institucionalmente.

Nesse contexto, pergunta-se: é razoável, é compreensível, é aceitável ou é grandiosamente humano que um ministro da mais alta Corte do país receba, em audiência cerimoniosa, a mulher do presidiário líder do golpe, com o pedido para que ele retorne para casa em prisão domiciliar?

Não é uma dúvida qualquer: um condenado como chefe de organização criminosa, por ter atentado contra a democracia, pode continuar desfrutando dos salamaleques dedicados a ex-presidentes? 

É aceitável que essa visita seja vista como normal, considerando-se que o esposo da visitante era o comandante em chefe de militares encarregados do assassinato do presidente da República eleito, do vice e do próprio ministro que a recepciona?

A comparação aqui não é do nazismo com o fascismo brasileiro, que é outra pauta. É com a condição, tanto de Hess quanto de Bolsonaro, como prisioneiros por crime graves. Hess morreu na prisão porque foi condenado à pena perpétua. 

Bolsonaro cometeu um conjunto de crimes, alguns ainda sob investigação, como os da pandemia, que deixaria pouco espaço para a sua exaltação como ex-presidente. Bolsonaro é terrivelmente criminoso.

Mas a mulher dele vai ao encontro do juiz que comandou o processo da condenação, por ainda desfrutar dessas concessões do poder. Não é a advogada, é a mulher do golpista.

Tem o que Ilse não teve. Hess foi condenado a morrer na cadeia porque não tinha mais nada, era um fracassado. Bolsonaro vai sair da cadeia porque perdeu, mas ainda tem força política.

Ilse era muito mais do que a mulher de Hess, era uma militante de ponta e pensadora política. Michelle é uma das principais ativistas e lideranças do bolsonarismo, já anunciada como futura senadora por Brasília.

A ex-primeira-dama foi sozinha ao Supremo, sem o suporte de familiares, políticos e advogados, conversar com Moraes. É como se, numa situação em que tudo se normaliza e se naturaliza, os sentimentos prevalecessem em relação a todo o resto.

A intervenção dos afetos, para muito além da interferência das considerações jurídicas, pelos advogados, e técnicas, pelos médicos, pode ter sensibilizado o ministro? Michelle conseguiu o que mulheres de presos comuns dificilmente terão.

Teve a chance da conversa com o ministro que condenou o marido e chegou ao êxito pelo convencimento. Ela, e não os advogados ou os médicos, fica com a imagem de vencedora. Bolsonaro voltará para casa. 

Certamente deveria voltar, por suas condições físicas precárias e mesmo que tal privilégio não seja concedido a outros presos sem lobby e sem mulheres poderosas. A questão aqui é outra. Seria melhor se a decisão pela prisão domiciliar não ficasse parecendo uma concessão depois dos argumentos de Michelle. 

Não há exagero algum na reação de quem não entende essa interferência, o tratamento diferenciado a Michelle – em relação às mulheres dos Zés da Silva – e o próprio tratamento de ex-estadista, acima da condição atual de criminoso e presidiário, para Bolsonaro.

Tudo porque a extrema direita continua viva e o chefe da organização criminosa continua poderoso. É ruim e é constrangedor, mas hoje não há muito o que fazer. Michelle tem a força que Ilse não teve.

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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