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Florestan Fernandes Jr

Florestan Fernandes Júnior é jornalista, escritor e Diretor de Redação do Brasil 247

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Imperialismo e as veias abertas da América Latina

Apesar das lutas, das revoluções e das tentativas de autodeterminação, os mecanismos de dominação seguem se reinventando

Nicolás Maduro, Donald Trump, navio anfíbio USS Iwo Jima navegando no mar do Caribe e o mapa da América do Sul ao fundo (Foto: Divulgação I Logan Goins/Marinha dos Estados Unidos)

A operação militar desencadeada pelo governo dos Estados Unidos na madrugada de sábado (03/01), cujo objetivo declarado foi o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, resultou na morte de mais de 80 pessoas, entre civis e militares. Essas mortes provocaram pouca, ou quase nenhuma comoção na opinião pública internacional.

Da mesma forma, não despertaram indignação no chamado mundo “civilizado” as mais de 100 mortes de pescadores venezuelanos e colombianos, cujas pequenas embarcações foram simplesmente apagadas do mapa por mísseis lançados por forças militares dos Estados Unidos nos mares do Caribe e do Pacífico. Mortes invisibilizadas, tratadas como danos colaterais; sem rostos, sem nomes e sem luto coletivo.

O objetivo dessa matança e da tentativa de sequestro de Maduro é claro. O governo dos Estados Unidos busca controlar as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, localizadas na Venezuela; mais de 303 bilhões de barris, cerca de 17% do total global.

Algo semelhante, embora por meio de outras estratégias, ocorreu no Brasil. Em 2013, Edward Snowden revelou documentos secretos que confirmaram a espionagem em massa realizada pelo governo dos Estados Unidos, então sob a administração de Barack Obama, incluindo comunicações da presidenta Dilma Rousseff. Um dos principais alvos dessa bisbilhotagem foi a Petrobras, especialmente em razão da descoberta do pré-sal, de enorme interesse econômico e estratégico.

A privatização dessa riqueza só se tornou possível a partir da Operação Lava Jato, comandada por Sergio Moro. Prisões arbitrárias e delações obtidas a fórceps, contribuíram para o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula. A Lava Jato escancarou a porteira para a privatização do pré-sal brasileiro com a chegada ao poder de Michel Temer e Bolsonaro. 

Voltando à xenofobia e à discriminação racial presentes no governo Trump, é importante constatar que tampouco houve reação expressiva diante das prisões e deportações arbitrárias de mais de 200 mil imigrantes, incluindo até mesmo cidadãos estadunidenses de ascendência latino-americana, expulsos sumariamente do território dos EUA. Não se viram campanhas globais, notas de repúdio contundentes ou lágrimas públicas em solidariedade a essas famílias dilaceradas. O sofrimento dos povos latino-americanos, ao que parece, segue fora do campo da empatia internacional.

Mais perturbador ainda é assistir a setores da extrema direita latino-americana celebrarem a humilhação imposta a seus próprios compatriotas, reproduzindo o discurso do opressor e naturalizando a violência contra seus povos. Trata-se da expressão mais crua do colonialismo internalizado, que transforma vítimas em cúmplices simbólicos da opressão que as atinge.

São mais de 500 anos de resistência contra o imperialismo e a exploração sistemática da América Latina. Apesar das lutas, das revoluções e das tentativas de autodeterminação, os mecanismos de dominação seguem se reinventando. A humilhação imposta aos nossos povos continua a caminhar lado a lado com a pirataria moderna e o saque das riquezas naturais.

Exemplo recente disso foi o confisco, em mar aberto, de três navios petroleiros venezuelanos por forças armadas dos Estados Unidos, um ato que se praticado por qualquer país fora do eixo do poder global, seria imediatamente classificado como crime internacional. Soma-se a isso a retenção, pelo Reino Unido, de cerca de US$ 1 bilhão pertencentes à Venezuela, depositados no Banco da Inglaterra, em meio a uma disputa judicial envolvendo o reconhecimento do governo de Nicolás Maduro e do autoproclamado opositor Juan Guaidó.

Essas potências se arrogam, simultaneamente, o papel de lei, juiz e executor. Confiscam riquezas, impõem sanções, intervêm militarmente e decidem o destino de nações soberanas como se ainda vivessem sob a lógica colonial, segundo a qual os recursos e os povos do Sul Global lhes pertenceriam por direito histórico.

Enquanto isso, a retórica da democracia, dos direitos humanos e da liberdade segue sendo utilizada de forma seletiva: aplicada contra governos que desafiam a ordem imperial e convenientemente esquecida quando as vítimas são latino-americanas. O que está em jogo não é a defesa de valores universais, mas a manutenção de um sistema global profundamente desigual. 

Mais do que isso, assiste-se ao retorno dos países da América Latina à submissão total aos interesses dos Estados Unidos, ressuscitando o fantasma das ditaduras militares que devastaram a região sob o patrocínio de Washington.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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