Investigação detalha o papel do Reino Unido na ofensiva dos EUA contra a Venezuela
Investigação detalha apoio britânico a ações políticas, financeiras e diplomáticas
247 - O Reino Unido desempenhou um papel central, ainda que em grande parte discreto, na estratégia adotada pelos Estados Unidos para pressionar e desestabilizar o governo da Venezuela ao longo dos últimos anos. A atuação britânica envolveu decisões diplomáticas, medidas financeiras e iniciativas internas que, segundo especialistas, contribuíram para fragilizar a posição internacional de Caracas e abrir caminho para ações mais agressivas conduzidas por Washington.
A apuração é do jornal investigativo britânico Declassified UK, que analisou documentos oficiais, registros internos e declarações públicas para reconstruir como Londres se alinhou à política externa do governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, em relação à Venezuela. Segundo a reportagem, mesmo quando buscou se distanciar formalmente de operações militares, o Reino Unido manteve apoio político e estrutural às iniciativas norte-americanas.
Esse alinhamento ficou evidente após o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, ocorrido nas primeiras horas da manhã de sábado, quando forças norte-americanas bombardearam o país e sequestraram o presidente Nicolás Maduro. A ação foi descrita como uma violação do direito internacional e da Carta da ONU, mas não recebeu condenação direta do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer.
Em entrevista à BBC no próprio sábado, Starmer afirmou: “Quero reunir todos os fatos materiais e, simplesmente, ainda não temos o quadro completo neste momento”. Pouco depois, escreveu em redes sociais que o Reino Unido “considerava Maduro um presidente ilegítimo e não derramava lágrimas pelo fim de seu regime”. A postura contrastou com a reação rápida do premiê à invasão da Ucrânia pela Rússia, classificada por ele como uma “guerra de agressão” em menos de 24 horas.
Ao Declassified UK, o ex-embaixador britânico Sir Richard Dalton criticou duramente a posição do governo, afirmando que Londres deixou de enfrentar a “lei da selva” ao adotar uma postura “cínica” diante da Venezuela. Embora Starmer tenha sustentado que “não houve envolvimento do Reino Unido nesta operação”, a investigação aponta que militares da Marinha Real britânica estiveram integrados à frota dos EUA que cercou a Venezuela nas semanas anteriores ao ataque.
O Ministério da Defesa britânico afirmou que seus militares receberam ordens para não participar diretamente de ações ofensivas e que o compartilhamento de inteligência entre Estados Unidos e Reino Unido no Caribe teria sido temporariamente suspenso para evitar cumplicidade em violações do direito internacional. Ainda assim, o governo se recusou a avaliar publicamente a legalidade das ações determinadas por Donald Trump.
Segundo o Declassified UK, o apoio britânico à pressão contra a Venezuela vem se consolidando desde 2019. Nesse período, Londres congelou mais de US$ 2 bilhões em ouro venezuelano depositado no Banco da Inglaterra, financiou iniciativas políticas contrárias ao governo de Caracas e criou estruturas internas para planejar um cenário de transição de poder no país.
Um dos marcos dessa política ocorreu em quarta-feira (23) de janeiro de 2019, quando o Reino Unido reconheceu Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, apesar de ele nunca ter disputado eleições presidenciais. Guaidó alegou um “vácuo absoluto de poder” com base no artigo 233 da Constituição venezuelana, argumento prontamente endossado pelo governo de Donald Trump.
No dia seguinte, quinta-feira (24), o então chanceler britânico Jeremy Hunt esteve em Washington para reuniões com o secretário de Estado Mike Pompeo e o vice-presidente Mike Pence. De acordo com os diários do ex-ministro Alan Duncan, Hunt defendeu o alinhamento com os Estados Unidos. Duncan registrou que Hunt afirmou: “Precisamos usar a Venezuela como uma questão em que possamos estar o mais alinhados possível com os EUA”.
A investigação aponta que interesses econômicos também influenciaram a postura britânica. Em 2018, Duncan declarou que “a revitalização da indústria do petróleo [na Venezuela] será um elemento essencial de qualquer recuperação econômica”, mencionando o interesse potencial de empresas como Shell e BP. O Reino Unido também acompanhava de perto a disputa territorial entre Venezuela e Guiana pela região do Essequibo, rica em petróleo.
Em janeiro de 2019, a representante de Guaidó em Londres, Vanessa Neumann, foi gravada dizendo que “a principal questão identificada pelo Foreign Office é que eles não nos apoiarão enquanto mantivermos a linha oficial de que queremos retomar o Essequibo da Guiana”. Ela orientou seus colegas a “abandonar o tema” para assegurar o apoio britânico.
O reconhecimento de Guaidó foi decisivo para que, em sexta-feira (25) de janeiro de 2019, o Banco da Inglaterra congelasse as reservas de ouro da Venezuela. Segundo o ex-assessor de segurança nacional dos EUA John Bolton, Jeremy Hunt ficou “satisfeito” em colaborar, “por exemplo, congelando os depósitos de ouro venezuelanos no Banco da Inglaterra”.
Registros dos diários de Alan Duncan indicam que o governo ofereceu respaldo político ao banco central. Em conversa com Mark Carney, então presidente do Banco da Inglaterra, Duncan escreveu: “Digo a Carney que compreendo plenamente que, embora seja uma decisão do Banco, ele precisa de uma certa cobertura política nossa”.
Em maio de 2020, o governo venezuelano acionou a Justiça britânica para tentar reaver o ouro. O Reino Unido reafirmou o reconhecimento de Guaidó e chegou a gastar £80.697 para apoiar sua estratégia jurídica, apesar das críticas da relatora especial da ONU Alena Douhan. Em 2021, ela denunciou as “repetidas recusas de bancos no Reino Unido de liberar ativos venezuelanos, mesmo para a compra de medicamentos, vacinas e equipamentos de proteção” durante a pandemia.
A investigação do Declassified UK revela ainda que, no outono de 2019, o governo britânico criou a Venezuela Reconstruction Unit (VRU), instalada no Foreign Office e liderada pelo diplomata John Saville. Oficialmente, o grupo teria a função de coordenar a resposta à crise econômica e humanitária, mas documentos mostram reuniões voltadas ao planejamento da participação britânica no setor energético venezuelano após uma eventual queda de Maduro.
Após a divulgação dessas informações, a embaixada britânica em Caracas classificou internamente as reportagens como “particularmente sensíveis”. Atualmente, o Foreign Office se recusa a informar quais organizações não governamentais recebeu recursos britânicos na Venezuela, alegando que a divulgação poderia “prejudicar as relações entre o Reino Unido e outro Estado”.


