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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Inflação nos EUA acelera com choque do petróleo e reduz espaço para queda de juros

A tendência é de manutenção de juros elevados tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil por um período prolongado

Um carrinho de compras é visto em um supermercado enquanto a inflação afeta os preços ao consumidor em Manhattan, Nova York, EUA (Foto: REUTERS/Andrew Kelly)
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A inflação nos Estados Unidos voltou a preocupar os mercados após a divulgação de dois indicadores considerados bastante negativos para o cenário monetário americano. O CPI de abril mostrou alta de 0,6% no mês, levando a inflação acumulada em 12 meses para 3,8%, o maior nível em três anos. 

O principal vetor de pressão continua sendo a energia. A gasolina subiu, em média, 5,4% no mês e já acumula alta de cerca de 28% em relação a abril de 2025. O preço médio do galão nos Estados Unidos alcançou US$ 4,50, contra algo próximo de US$ 2,90 no início do ano. O movimento reflete a continuidade das tensões no Oriente Médio e a manutenção do barril do petróleo Brent acima de US$ 107. 

O cenário geopolítico segue pressionando a oferta global de petróleo. Aproximadamente 20 milhões de barris por dia, cerca de 20% do comércio mundial da commodity, passam pelo Estreito de Ormuz. Com os riscos crescentes na região, o mercado trabalha com a percepção de uma restrição relevante de oferta, espalhando pressões inflacionárias por toda a economia global.

Os efeitos já aparecem em diferentes cadeias produtivas. Além dos combustíveis, os preços de gás natural, fertilizantes e commodities metálicas seguem pressionados, enquanto os alimentos começam a acelerar tanto nos Estados Unidos quanto em outras economias. Nos EUA, os alimentos subiram 0,7% no último CPI. 

O núcleo da inflação, que exclui itens mais voláteis como energia e alimentos, mostrou comportamento um pouco melhor, mas ainda permanece elevado: alta de 0,4% no mês e 2,8% em 12 meses. O dado reforça a percepção de que as pressões inflacionárias estão se espalhando além do choque inicial de energia. 

A deterioração do poder de compra do consumidor americano já começa a afetar a atividade econômica. Grandes empresas relatam queda de vendas e piora do ambiente de consumo. Há companhias reportando retração de até 10% nas receitas, enquanto o aumento expressivo dos gastos com combustíveis compromete o orçamento das famílias. O custo para abastecer um carro praticamente dobrou nos últimos meses. 

Outro dado que chamou atenção nos EUA foi o PPI, índice de preços ao produtor, que subiu 1,4% no mês, muito acima da expectativa de 0,5%. Em termos anualizados, a inflação ao produtor já roda próxima de 6%, indicando forte pressão de custos nas cadeias industriais e elevando o risco de repasse adicional ao consumidor nos próximos meses. 

Diante desse cenário, o Federal Reserve praticamente perdeu espaço para iniciar um ciclo de corte de juros em 2026. O mercado já zerou as apostas de redução da taxa básica neste ano e parte dos dirigentes da autoridade monetária americana voltou a discutir até mesmo a possibilidade de novas altas, caso a inflação continue surpreendendo para cima.

No Brasil, o choque do petróleo também pressiona a inflação. O IPCA de abril ficou próximo de 0,7%, levando a inflação acumulada no ano para cerca de 2,8% já nos quatro primeiros meses. Ainda assim, o país conta com um fator de alívio importante: a valorização cambial. O dólar abaixo de R$ 5 ajuda a reduzir o impacto inflacionário sobre bens comercializáveis e impede uma deterioração ainda maior dos índices de preços. 

Esse movimento, porém, produz um paradoxo conhecido da economia brasileira. O petróleo elevado piora a inflação, mas ao mesmo tempo fortalece o setor externo do país. O Brasil registrou superávit comercial recorde em abril, impulsionado pelas exportações de commodities e pela entrada de capital atraída pelos juros elevados e pela percepção de que o país é um grande exportador de petróleo e recursos naturais. 

Nesse contexto, a tendência é de manutenção de juros elevados tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil por um período prolongado. Nos EUA, a taxa básica deve permanecer próxima de 3,75% até o fim do ano. Já no Brasil, o Banco Central ainda pode promover pequenos cortes adicionais, mas o espaço parece bastante limitado. O cenário mais provável é de Selic próxima de 14% até o final de 2026, com crescimento econômico moderado e inflação ainda pressionada, embora possivelmente abaixo de 5% graças ao câmbio valorizado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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