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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Inflação nos EUA segue pressionada e choque do petróleo eleva incertezas globais

No Brasil, a tendência segue de cortes graduais de juros, possivelmente na ordem de 0,25 ponto percentual nas próximas reuniões

Notas de dólar (Foto: Dado Ruvic/Reuters)

Os dados mais recentes de inflação nos Estados Unidos, referentes a fevereiro, vieram em linha com o esperado, mas continuam indicando um cenário desconfortável para a política monetária. O índice cheio avançou 0,4% no mês, acumulando alta de 2,8% em 12 meses, enquanto o núcleo — que exclui itens mais voláteis — também subiu 0,4% no mês, atingindo 3% na comparação anual. 

Apesar de não trazer surpresas, o dado reforça que a inflação americana segue acima da meta de 2%, especialmente no núcleo, que ainda mostra rigidez. Trata-se, além disso, de um indicador defasado, anterior ao novo choque de alta do petróleo, o que sugere pressões adicionais nos números mais recentes.

O cenário deve se deteriorar nos dados de março, ainda não divulgados, quando os efeitos do aumento dos preços de energia aparecerão com mais intensidade. Nos Estados Unidos, ao contrário do Brasil, o repasse ao consumidor ocorre de forma praticamente imediata. O preço da gasolina, por exemplo, saltou de cerca de US$ 2,80 para US$ 4 por galão, com impacto disseminado sobre toda a economia.

No Brasil, o efeito inflacionário tende a ser mais amortecido no curto prazo, em função da política de preços da Petrobras, que ainda atua como um mecanismo parcial de contenção. Ainda assim, o IPCA de março, a ser divulgado, já deve refletir aumentos em combustíveis como gasolina e diesel.

No mercado internacional, o petróleo voltou a operar próximo de US$ 100 por barril, revertendo parcialmente o alívio observado anteriormente. A persistência das tensões geopolíticas e o risco de interrupções no fluxo global de petróleo mantêm os preços elevados e voláteis.

Embora exista um cessar-fogo formal, ele é considerado frágil e vulnerável, com riscos constantes de escalada. Esse ambiente de incerteza sustenta a pressão sobre as commodities e limita uma normalização mais consistente dos mercados.

No caso brasileiro, há um fator compensatório relevante: a valorização cambial. O real tem se apreciado com a alta do petróleo, refletindo a posição do país como um importante exportador da commodity. Esse movimento ajuda a mitigar, ao menos parcialmente, o impacto inflacionário vindo do exterior.

Em termos práticos, a valorização do real reduz o preço em moeda local dos produtos cotados em dólar, como combustíveis. Assim, uma alta do petróleo em dólar pode ser neutralizada, em parte, por um câmbio mais valorizado.

O efeito líquido sobre a inflação dependerá justamente desse balanço entre preços internacionais e taxa de câmbio. Em um cenário hipotético de alta de 20% no petróleo compensada por valorização equivalente do real, o impacto doméstico poderia ser praticamente anulado.

Ainda assim, o ambiente global permanece incerto. O conflito no Oriente Médio continua pressionando o câmbio e os preços de energia, limitando a margem de apreciação mais consistente da moeda brasileira.

Do ponto de vista de política monetária, o cenário não altera substancialmente as expectativas. No Brasil, a tendência segue de cortes graduais de juros, possivelmente na ordem de 0,25 ponto percentual nas próximas reuniões.

Já nos Estados Unidos, a combinação de mercado de trabalho resiliente, inflação persistente e choque de energia sugere maior cautela. O Federal Reserve deve manter os juros elevados por mais tempo, aguardando maior clareza sobre a trajetória inflacionária.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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