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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Inflação sob pressão: alta do petróleo contamina expectativas e trava alívio monetário

"Enquanto alguns analistas ainda mantêm projeções ligeiramente mais otimistas, a percepção dominante entre gestores e traders é de um cenário mais restritivo"

Inflação sob pressão: alta do petróleo contamina expectativas e trava alívio monetário (Foto: Pavel Mikheyev / Reuters)

O início da semana é marcado pela continuidade das tensões no Oriente Médio, com impactos diretos sobre os mercados globais. O preço do petróleo tipo Brent alcança US$ 115 por barril, um patamar elevado e preocupante, que já começa a alterar de forma mais estrutural as expectativas econômicas.

Diante de choques dessa natureza, o debate entre economistas e bancos centrais costuma girar em torno de uma questão central: trata-se de um movimento transitório ou permanente? Se for transitório, os efeitos sobre inflação e atividade tendem a ser limitados. No entanto, sinais recentes indicam que o choque atual pode ter caráter mais persistente, o que muda substancialmente o cenário macroeconômico.

No Brasil, as expectativas de inflação já começam a refletir esse novo ambiente. O último relatório Focus aponta o IPCA em 4,30%, mas algumas instituições financeiras já projetam números próximos de 4,50%, no limite superior da banda da meta. A principal pressão vem da expectativa de reajustes relevantes nos preços de combustíveis, como gasolina, diesel e querosene de aviação, com efeitos em cadeia sobre toda a economia.

Esse novo quadro também altera as perspectivas para a política monetária. A expectativa anterior de queda mais acentuada da taxa Selic foi revista. Hoje, o cenário predominante no mercado aponta para uma taxa terminal entre 14% e 14,25%, o que implicaria espaço bastante limitado para cortes adicionais ao longo do ano — possivelmente duas ou, no máximo, três reduções de 0,25 ponto percentual.

Há, como de costume, divergências entre economistas e agentes de mercado. Enquanto alguns analistas ainda mantêm projeções ligeiramente mais otimistas, a percepção dominante entre gestores e traders é de um cenário mais restritivo. Na melhor das hipóteses, a Selic deve encerrar o ano próxima de 14%, podendo inclusive interromper o ciclo de queda antes disso, caso as pressões inflacionárias se intensifiquem.

Os indicadores de preços já começam a sinalizar essa deterioração. O IGP-M de março registrou alta de 0,52%, revertendo a deflação de 0,73% observada em fevereiro. Apesar disso, o índice ainda não incorpora de forma significativa o impacto dos combustíveis, já que os reajustes ainda não foram plenamente repassados. Esse efeito deve aparecer nas próximas leituras, especialmente com a esperada alta de diesel e gasolina nas semanas seguintes.

Na composição do índice, o IPA — que mede os preços no atacado e representa cerca de 60% do IGP-M — avançou 0,61%, indicando pressão relevante nos custos de produção. O IPC, com peso de 30%, subiu 0,30%, refletindo uma inflação ainda disseminada no consumo. Já o INCC, que capta os custos da construção civil, registrou alta de 0,36%, mantendo uma trajetória consistente de elevação.

No acumulado em 12 meses, a inflação da construção civil segue elevada, impulsionada principalmente pela alta da mão de obra, que avança cerca de 9%. Mesmo com alguma acomodação nos preços de materiais, como tubos, conexões e placas cerâmicas, o setor continua operando com inflação estrutural na faixa de 5% a 7% ao ano — um patamar incompatível com a meta de inflação de 3%.

O cenário atual, portanto, pode ser descrito como uma “panela de pressão inflacionária”, ainda parcialmente contida, mas com risco crescente de liberação nos próximos meses, à medida que os choques de custos forem sendo repassados aos preços finais.

Na agenda econômica, a semana — embora encurtada pelo feriado de Páscoa — traz indicadores relevantes. Nos Estados Unidos, o destaque fica para os dados de emprego, tradicionalmente os mais importantes para a condução da política monetária. No Brasil, será divulgada a produção industrial, que ajudará a calibrar as expectativas sobre o ritmo da atividade econômica.

Por fim, o comportamento dos mercados financeiros reforça esse novo ambiente. As ações de grandes empresas de energia, como Chevron e ExxonMobil, acumulam cerca de 14 semanas consecutivas de valorização, refletindo a perspectiva de preços elevados do petróleo por um período prolongado. O conjunto desses fatores aponta para um cenário mais complexo e desafiador no curto prazo, com inflação pressionada, juros elevados por mais tempo e maior incerteza global.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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