Jornalistas do Metrópoles não precisam sair em defesa do patrão; ele é grandinho e sabe se defender
Postagens de jornalistas em defesa de Luiz Estevão expõem um dilema ético que coloca em risco a própria credibilidade, e também a do jornal
Em momentos de crise, especialmente quando envolvem dinheiro, poder e influência, um dos maiores testes do jornalismo não está na apuração, mas na postura. E é justamente nesse ponto que alguns profissionais do Metrópoles parecem ter tropeçado ao sair em defesa pública de seu próprio patrão, Luiz Estevão.
A situação se agrava porque não se trata de uma controvérsia trivial. O empresário teria recebido R$ 27,2 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, o personagem central do que o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad definiu como “a maior fraude bancária da história do Brasil".
Diante disso, o mínimo esperado de jornalistas, sobretudo aqueles que trabalham em um veículo financiado por esse mesmo empresário, seria cautela, distanciamento e, idealmente, silêncio público. Mas não foi o que ocorreu.
O episódio mais simbólico foi protagonizado por Sam Pancher. Segundo relato publicado na rede X (antigo Twitter), Pancher fez uma postagem defendendo o veículo (e, consequentemente, endossando seu dono), mas acabou apagando o conteúdo. O gesto de recuo, embora tardio, sugere ao menos algum reconhecimento do problema.
Já André Shalders seguiu um caminho diferente: manteve sua manifestação pública. Ao fazer isso, não apenas reforçou o alinhamento com o patrão, como também expôs um dilema clássico — o conflito entre independência editorial e lealdade corporativa.
Shalders diz que está sendo atacado pessoalmente pela divulgação da informação de que o Metrópoles recebeu dinheiro de Vorcaro. Se é verdade que está sendo atacado, não houve repercussão e, portanto, a manifestação dele serve muito mais de um agrado ao patrão do que de defesa própria.
Shalders diz que processará os críticos.
Nenhum dos dois casos seria especialmente relevante se não revelassem algo maior: a naturalização de jornalistas atuando como linha auxiliar de defesa de interesses empresariais.
Jornalistas têm direito a opiniões. O problema surge quando essas opiniões coincidem sistematicamente com a proteção de quem paga seus salários, especialmente em contextos que envolvem suspeitas, investigações e uma montanha de dinheiro.
Ao defender publicamente o jornal de Luiz Estevão, esses profissionais não apenas colocam em xeque sua independência, como também contaminam a percepção pública sobre todo o veículo.
E isso tem consequências. A credibilidade, uma vez arranhada, não se recupera com facilidade.
Fundado em 2015 em Brasília, o Metrópoles rapidamente se consolidou como um dos maiores portais de notícias do país, acumulando prêmios e grande audiência digital.
Luiz Estevão construiu sua fortuna no setor imobiliário e da construção civil em Brasília, tornando-se um dos empresários mais influentes da capital federal. Também teve carreira política, tendo sido senador da República.
Sua trajetória, porém, é marcada por um dos maiores escândalos de corrupção do Judiciário brasileiro: o caso da construção do Fórum Trabalhista de São Paulo.
As investigações revelaram um esquema de desvio de recursos públicos por meio de obras superfaturadas no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, envolvendo o então juiz Nicolau dos Santos Neto.
Nesse processo, Luiz Estevão foi condenado por peculato, estelionato e corrupção ativa — este último crime caracterizado pelo pagamento de propina para viabilizar o esquema.
As condenações levaram à cassação de seu mandato e, anos depois, à execução da pena. Em 2016, após decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal, ele foi preso, permanecendo quatro anos na Papuda, tornando-se o primeiro ex-senador brasileiro a cumprir pena em regime fechado por condenação criminal.
O episódio marcou profundamente sua trajetória pública e permanece como referência quando seu nome volta ao debate nacional.
Já o nome de Daniel Vorcaro aparece no centro de investigações recentes envolvendo o sistema financeiro, com suspeitas que incluem fraudes, corrupção e lavagem de dinheiro. É nesse cenário que pagamentos milionários ganham relevância pública, e exigem investigação, não defesa automática.
Nenhum empresário precisa de jornalistas para defendê-lo publicamente — especialmente alguém como Luiz Estevão, com recursos, influência e acesso a advogados.
Quando jornalistas assumem esse papel, deixam de exercer sua função essencial: questionar o poder, não protegê-lo.
A imprensa não existe para blindar seus donos. Existe para informar a sociedade.
E, nesse caso, a melhor contribuição que esses profissionais poderiam dar seria simples: não dizer nada. Deixar que os fatos falem por si.
A diretora de redação do Metrópoles, Lilian Tahan, foi procurada, mas não se manifestou.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



