Master pagou R$ 27 milhões ao Metrópoles; hipótese provável é a de busca do apoio de Luiz Estevão à venda do banco para o BRB
Relatório indica movimentações atípicas, enquanto bastidores levantam hipótese de alinhamento editorial para viabilizar venda do banco ao BRB
247 – O Banco Master repassou R$ 27,283 milhões ao Metrópoles entre 2024 e 2025, segundo documento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que aponta suspeitas sobre a movimentação desses recursos. De acordo com reportagem do jornal Estado de S. Paulo, os valores enviados à empresa Metrópoles Marketing e Propaganda LTDA foram seguidos de “débito imediato” para outras companhias ligadas à família do ex-senador Luiz Estevão, controlador do veículo de comunicação.
O relatório citado na reportagem registra que esse fluxo “pode configurar possível movimentação de recursos em benefício de terceiros” e também classifica os aportes do Master como “inusitados”. O documento ainda aponta movimentação “incompatível com o faturamento médio mensal” da empresa recebedora, ampliando o peso das suspeitas detectadas nas comunicações encaminhadas ao órgão de controle.
Segundo os dados relatados, o Master aparece como o “principal remetente” de recursos ao Metrópoles no período analisado em 2025, com pagamentos que chegaram a R$ 5,7 milhões. No segundo semestre de 2024, o banco realizou duas transferências que somaram R$ 838,8 mil. O restante do montante foi enviado entre janeiro e outubro de 2025.
O período em que os repasses se intensificaram coincidiu com um momento decisivo para o Banco Master. Em março de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro tentou vender a instituição ao BRB. Depois, passou a ser alvo de investigações por suspeita de fraude financeira bilionária. Em novembro, o banco acabou liquidado pelo Banco Central. Vorcaro está preso, segundo a reportagem.
O ponto central do alerta do Coaf está na destinação dada a parte dos recursos logo após o recebimento. O documento menciona que o Metrópoles fez “débito imediato” de valores transferidos pelo Master para empresas como Madison Gerenciamento S/A, Sense Construções e Participações S/A e Macondo Construções e Participações S/A. As três têm Luiz Estevão e suas filhas no quadro societário ou em funções de direção.
Para o órgão de controle, o padrão das operações mereceu atenção não apenas pelo volume dos recursos, mas também pela rapidez com que os valores deixaram a conta da empresa de mídia. O relatório destaca que a movimentação se deu em um contexto de operações consideradas fora do padrão esperado para o faturamento médio da pessoa jurídica analisada.
As comunicações que embasaram o relatório foram feitas pela Caixa Econômica Federal. Nos alertas encaminhados ao Coaf, o banco público pontuou o “recebimento de transferências de valores inusitados”, além da já mencionada “movimentação de recursos incompatível com o faturamento médio mensal”.
O documento é taxativo ao justificar a comunicação. Segundo o trecho reproduzido na reportagem, “A comunicação ao Coaf é justificada pois no período analisado foi movimentado recursos incompatíveis com o faturamento médio mensal da pessoa jurídica, identificamos o recebimento de transferências de valores inusitados, a movimentação foi caracterizada pelo recebimento de crédito com o débito imediato dos valores, há indícios de movimentação de recursos em benefício de terceiros e movimentação com pessoas expostas politicamente”.
Cronologia levanta dúvidas sobre justificativa comercial
Luiz Estevão contestou a leitura de irregularidade e afirmou que os pagamentos recebidos tinham relação com o patrocínio do Will Bank, então pertencente ao Master, para a transmissão da Série D do Campeonato Brasileiro de 2025 pelo Metrópoles, além da venda dos naming rights da competição.
A cronologia, porém, levanta questionamentos. Embora os repasses tenham começado em janeiro de 2025, a competição teve início apenas em 19 de abril. Ainda assim, a exibição da marca do Will Bank nas transmissões só ocorreu três meses depois do início do torneio.
O Metrópoles e a Confederação Brasileira de Futebol anunciaram o acordo relativo à transmissão dos jogos apenas nos dias 2 e 3 de julho. As primeiras partidas exibidas gratuitamente no YouTube foram as da 11ª rodada, nos dias 5 e 6 de julho.
Também em relação aos naming rights, a implementação foi tardia. A competição passou a ser chamada de “Brasileirão Série D Will Bank”, mas a logomarca só foi instalada nas placas centrais dos estádios a partir de 26 de julho, já na reta final da primeira fase.
Esse descompasso temporal chama atenção: o Master já transferia recursos havia meses antes da efetiva entrega de visibilidade comercial.
Hipóteses sobre o real objetivo dos repasses
Diante desse conjunto de inconsistências — valores elevados, antecipação dos pagamentos e transferência imediata a empresas da própria família do controlador —, cresce a interpretação, nos bastidores políticos e financeiros, de que os aportes podem ter tido finalidade além da relação comercial formal.
Uma das hipóteses consideradas mais plausíveis é a de que os repasses tenham contribuído para alinhar editorialmente o veículo, evitando resistência à tentativa de venda do Banco Master ao BRB, anunciada em março de 2025.
Essa leitura se apoia no contexto em que os pagamentos ocorreram, justamente no momento em que a operação enfrentava escrutínio público e poderia gerar controvérsia política e institucional. Embora não haja comprovação formal dessa finalidade, o padrão descrito pelo Coaf — com movimentações atípicas e dispersão imediata dos recursos — intensifica os questionamentos sobre o real objetivo dos aportes.
Defesa de Luiz Estevão
O ex-senador também rebateu críticas sobre os repasses internos e afirmou que não há irregularidade na destinação dos valores recebidos.
“O dinheiro que eu recebi passa a ser meu e faço com ele o que eu quiser. Posso comprar publicidade no Estadão, posso transferir esses recursos para outras empresas minhas, comprar um imóvel, fazer o que quiser”, declarou.
Ele também negou que os valores do contrato tenham sido superdimensionados e afirmou que, na verdade, o banco deixou de cumprir integralmente os pagamentos previstos.
“O valor foi maior. Eles não pagaram tudo. Ainda estão devendo dinheiro e estamos atrás de receber. O valor não está nada fora”, disse.
Mesmo com a defesa, o caso segue cercado de questionamentos, sobretudo pelo padrão financeiro identificado e pelo contexto em que as transferências foram realizadas.


