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Luiz Estevão, dono do Metrópoles, fechou patrocínio com o Will Bank, do Master, para a Série D

Acordo entrou em vigor já com o campeonato em andamento, em meio à crise que levou o banco digital à liquidação

Luiz Estevão (Foto: Divulgação)

247 – O empresário e senador cassado Luiz Estevão, dono do Grupo OK e do portal Metrópoles, negociou diretamente com o Will Bank, braço digital do Banco Master, de Daniel Vorcaro, um acordo inédito de patrocínio para a edição de 2025 da Série D do Campeonato Brasileiro, a quarta e última divisão nacional. A informação foi revelada em reportagem do jornal Estado de S. Paulo, que também apontou como a movimentação afronta o discurso de “fair play financeiro” promovido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), entidade que mantém parceria com o empresário na realização de eventos como a Supercopa.

O contrato fez do Will Bank o detentor dos naming rights do torneio, que passou a se chamar “Brasileirão Série D Will Bank”. Foi a primeira vez que a competição, organizada pela CBF, teve os direitos comerciais sobre o nome vendidos. Segundo a reportagem, no entanto, a parceria só entrou em vigor já na última rodada da primeira fase, três meses depois do início do campeonato, e não houve comunicados públicos específicos sobre a comercialização dos naming rights. A reportagem não confirmou o valor do contrato.

Como o acordo foi possível: direitos comerciais comprados da CBF

A negociação só foi viabilizada porque Luiz Estevão havia comprado da CBF os direitos comerciais da Série D. Com essa prerrogativa, passou a explorar o torneio no mercado, incluindo a venda do nome da competição e o patrocínio vinculado às transmissões de partidas no canal do Metrópoles no YouTube.

Ao jornal Estado de S. Paulo, Luiz Estevão afirmou que a proposta ofereceu visibilidade aos clubes, criando uma vitrine capaz de melhorar a atratividade comercial do torneio. "O patrocinador está em busca de visibilidade, e o fato de o Metrópoles transmitir dá ao clube a possibilidade de oferecer ao seu patrocinador um grande alcance", disse o empresário, ao defender que a transmissão ajudaria a ampliar a audiência do portal e agregar novos seguidores ao canal.

A CBF confirmou que o Metrópoles “realizou, de forma independente, a negociação dos naming rights da competição com o Will Bank” e informou que o contrato foi encerrado em 2025. Em nota, a confederação afirmou que, para 2026, está recebendo propostas e negociando com interessados nos direitos comerciais da Série D, mantendo o calendário previsto.

Cronologia: marca só apareceu na 14ª rodada

A Série D de 2025 começou em 19 de abril. O Metrópoles e a CBF anunciaram nos dias 2 e 3 de julho, respectivamente, um acordo relacionado à transmissão das partidas. As primeiras transmissões gratuitas no YouTube ocorreram na 11ª rodada, com 15 jogos exibidos em 5 e 6 de julho. Já a logomarca do Will Bank, segundo a reportagem, só passou a aparecer nas placas centrais de publicidade a partir de 26 de julho, na 14ª rodada, última da primeira fase.

O Metrópoles afirmou ter transmitido 140 partidas, enquanto a listagem do YouTube contabilizou 126 jogos exibidos, que somaram 12,5 milhões de visualizações. A média registrada foi de 99,7 mil espectadores por transmissão. O jogo mais assistido teria sido a primeira partida da final entre Santa Cruz (PE) e Barra (SC), em 27 de setembro, com 1,1 milhão de espectadores. A decisão do campeonato ocorreu em 4 de outubro e terminou com o título do Barra, de Balneário Camboriú (SC).

Duas fontes consultadas pela reportagem no mercado de direitos de transmissão afirmaram que os valores da operação não seriam relevantes, citando a “baixa atratividade” do torneio e o custo médio de produção, estimado em R$ 40 mil por partida, além da dificuldade de gerar receita com as exibições — já que, segundo o relato, a CBF não vinha bancando essas despesas.

Gravação divulgada e convite ao jornal para parceria

Outro ponto sensível descrito pelo jornal Estado de S. Paulo foi a divulgação, pelo Metrópoles, da gravação da conversa telefônica entre Luiz Estevão e o repórter que buscava informações sobre a negociação. Segundo a reportagem, a publicação ocorreu antes da matéria ir ao ar.

Na ligação, Luiz Estevão sugeriu que o jornal fosse apresentado como potencial parceiro do Metrópoles na transmissão da Série D. "Coloca na matéria que o Luiz Estevão convidou o Estadão para ser parceiro do Metrópoles na transmissão da Série D", disse, de acordo com o relato do jornal.

O episódio evidenciou o grau de controle do empresário sobre um ecossistema que combina mídia, contratos de transmissão e comercialização de ativos do futebol — um arranjo que, na avaliação apresentada pela reportagem, colide com as diretrizes de governança e integridade que a CBF afirma perseguir.

Quem é Luiz Estevão e qual é o contexto em Brasília

Cassado em 2000, Luiz Estevão é descrito como um dos empresários mais influentes de Brasília, com atuação em imóveis, eventos e comunicação. No futebol, é apontado como o principal cartola da capital, organizando desde 2023 a Supercopa mediante compra do direito de operação junto à CBF, com arrecadação por diferentes frentes comerciais.

A reportagem relembra ainda que sua trajetória empresarial e política inclui condenação a 31 anos de prisão em 2006 por obras no Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP), com início do cumprimento da pena em 2016. Em 2020, ele obteve autorização para cumprir prisão domiciliar por integrar grupo de risco durante a pandemia de covid-19.

Atualmente, segundo o texto do jornal Estado de S. Paulo, Luiz Estevão responde a ação civil pública movida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Distrito Federal (MPDF), acusado de chefiar organização criminosa investigada na Operação Al Capone, que apura práticas como inadimplência deliberada de IPTU, fraudes em negociação de imóvel da Terracap e transações bilionárias envolvendo empresas de fachada.

O que é o Will Bank e a crise do Master

O Will Bank adotou uma política agressiva de propaganda e se expandiu após ter sido comprado por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em fevereiro de 2024. A fintech havia sido fundada quatro anos antes com a proposta de oferecer serviços bancários e investimentos a um público desbancarizado, com foco na região Nordeste.

Segundo a reportagem, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro, citando crise de liquidez, indícios de irregularidades e incapacidade de honrar dívidas. Com a medida, o Will Bank entrou em Regime de Administração Especial Temporária (Raet). Em 21 de janeiro, o Banco Central também decretou a liquidação do próprio Will Bank.

A reportagem menciona ainda que o BRB, banco controlado pelo governo do Distrito Federal, tentou comprar parte do Banco Master, com anúncio em 28 de março e reprovação da operação pelo Banco Central em 3 de setembro. Também cita investigação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal (MPF) que apontou indícios de venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes ao BRB e entrega de documentos falsos ao Banco Central.

BRB, patrocínios e a engrenagem de eventos em Brasília

O jornal Estado de S. Paulo também contextualiza a relação entre Luiz Estevão e o BRB, descrito como um dos principais parceiros do empresário na realização de eventos culturais e esportivos em Brasília, incluindo a Supercopa Rei. A reportagem aponta que o BRB reservou R$ 27,3 milhões para patrocínios em determinado período e que, em 2025, esse montante teria chegado a R$ 125,7 milhões. Menciona ainda que o Metrópoles recebeu R$ 15,3 milhões entre 2022 e o primeiro semestre de 2025 para eventos artísticos e esportivos e que, apenas para a Supercopa de 2025, realizada em Belém, o BRB pagou R$ 1 milhão ao Metrópoles. Os valores de 2026 ainda não haviam sido divulgados, segundo a reportagem.

Com a venda dos naming rights da Série D e a entrada tardia do patrocinador em campo, o caso expõe uma combinação de interesses comerciais, mídia e futebol que levanta novas interrogações sobre transparência e regras de integridade no esporte, especialmente quando a própria CBF tenta sustentar uma agenda de “fair play financeiro” enquanto terceiriza ativos estratégicos a agentes com poder concentrado no ecossistema de eventos e comunicação.

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