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Kleber Chagas Cerqueira

Professor, Consultor Legislativo e Cientista Político

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Liberais e socialistas frente ao fascismo

Vale lembrar mais essa pérola do pensamento liberal, atribuída a Benjamin Franklin: “o homem que troca liberdade por segurança não merece nenhuma das duas”

Liberais e socialistas frente ao fascismo (Foto: Reprodução)

Numa conversa recente com amigos, fui desafiado a provar as afirmações de que o economista austríaco Ludwig von Mises arrastava uma asinha pro nazifascismo e a de que o filósofo francês Jean Paul Sartre não tinha nada a ver com o stalinismo.

Aproveitei para refletir sobre a posição de liberais e de socialistas frente ao fascismo.

Pois bem, começando pelo grande guru dos ultraliberais, em seu livro “Liberalismo Segundo a Tradição Clássica”, ele afirma, ao final de um capítulo chamado “As razões do fascismo”:

Não se pode negar que o fascismo e movimentos semelhantes, visando ao estabelecimento de ditaduras, estejam cheios das melhores intenções e que sua intervenção, até o momento, salvou a civilização europeia. O mérito que, por isso, o fascismo obteve para si estará inscrito na história. Porém, embora sua política tenha propiciado salvação momentânea, não é do tipo que possa prometer sucesso continuado. O fascismo constitui um expediente de emergência. Encará-lo como algo mais seria um erro fatal. 

Ou seja, o nazifascismo não é a solução ideal, mas em certos momentos ajuda pra caramba!

Nada a surpreender, aliás, que os grandes pensadores liberais arrastem uma asinha pra alguma ditadura. Basta lembrar como nasce o pensamento liberal na era moderna, com as canetas de grandes pensadores que discorriam sobre liberdades e direitos naturais, pagando suas contas com um dinheirinho modesto proveniente da escravidão e do tráfico de escravizados: John Locke, Voltaire, Montesquieu, Thomas Jefferson, George Washignton and so on (a lista é imensa!). Putz, até o Voltaire! Que tem aquela frase maravilhosa: não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo”! Pois é...

Aliás, uma das operações de marketing mais impressionantes da história do pensamento intelectual moderno foi o liberalismo ter conseguido se apresentar – e ser comprado por esse valor de face – como um pensamento genuinamente democrático e igualitário, no que diz respeito aos direitos iguais para todos.

O liberalismo no Brasil nasceu convictamente escravocrata: o grande escritor e senador José de Alencar, a alegar os riscos de destruição da economia nacional com a abolição abrupta da escravidão (não lembra muito aqueles discursos de que política social de mais, valorização do salário mínimo e fim de escala 6x1 vão quebrar nossa economia?); o Visconde de Cairu (o primeiro grande divulgador da obra de Adam Smith entre nós); o mineiro Martinho Campos, que mais de uma vez se declarou um "escravocrata da gema". Tudo isso sem deixar de lembrar e de render merecidas homenagens aos liberais antiescravagistas – Tavares Bastos, Rebouças, Quintino Bocayuva, Joaquim Nabuco – verdadeiramente democráticos e, por isso mesmo, curiosamente, defendendo coisas bastante próximas do que advogavam os socialistas de então: General Abreu e Lima, Alcebíades Bertollotti, Antônio Pedro de Figueiredo.

O requinte de cinismo liberal escravocrata em nosso continente está nos debates da aurora da República estadunidense sobre a definição da quantidade de delegados de cada estado para comporem o colégio eleitoral que elege o Presidente da República. Como o critério básico era o do tamanho da população, logo impôs-se a questão: mas contam-se apenas os cidadãos-livres? Ora, isso prejudicaria enormemente a representação política dos estados escravocratas sulistas, que tinham em sua população uma massa de escravizados muito maior que a dos estados do norte. Como resolver o impasse? Muito simples; aritmeticamente: na contagem da população, cada escravizado vale 3/5 de um homem livre. Não é lindo? 

Afinal, quem poderia ser contra um regime social que garante a “nossa” mais ampla liberdade de ir e vir? Especialmente sobre uma liteira! 

Irresistível lembrar da genial tese do velho barbudo da Renânia: “nenhum homem é contra a liberdade; o máximo que ele pode ser é contra a liberdade dos outros” (a começar pelas mulheres, acrescento eu).

Mas, chega de história longínqua! Tragamos a coisa mais pra perto de nós.

Os Chicago Boys, discípulos do grande economista liberal Milton Friedman e sua Escola de Chicago, com nosso Paulo Guedes de estagiário aplicado, não aproveitaram a “democrática” (pero, sanguinária) ditadura de Augusto Pinochet no Chile para implementarem o primeiro experimento genuíno de política econômica ultraliberal na América Latina?  Os velhinhos famélicos de lá são super agradecidos pelo sistema previdenciário ultramoderno que lhes restou como herança. 

E o que dizer dos grandes pensadores liberais brasileiros Roberto Campos (o Bob Fields), Octávio Bulhões, José Guilherme Merquior, em seu apoio entusiasmado à Ditadura Militar brasileira? Quando um ser perigosíssimo como Wladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, querido por todos os colegas, entrou caminhando na sede do DOI-Codi, em São Paulo, para atender a chamada para depor e foi trucidado, o que ouvimos dos nossos grandes liberais em defesa das liberdades e da democracia? Cri, cri, cri, cri.... 

Aliás, o Bob Fields, com sua erudição e brilhantismo, que, infelizmente, não conseguiu legar para o neto , afirmava:

"Com notável instinto de preservação, que lhe garantiu três séculos de história, façanha não desprezível, a "Lex Curiata" da República Romana admitia regimes transitórios de exceção para a solução de crises. Eram a dictadura rei gerundae causa (a ditadura para fazer as coisas) e a dictadura seditionis sedandae (a ditadura para debelar a sedição). Nossos Atos Institucionais, cujos objetivos foram essencialmente semelhantes (quebrar um impasse institucional e expungir a subversão), nada mais são do que uma versão cabocla da lei curiata".  

Não é fofo descobrir que o AI-5 é nossa versão cabocla da Lei Curiata? Que tal importarmos também de volta, da República romana, o escravismo, que lhe servia de base material?

Resumindo, na alma mais profunda desse tipo de liberal parece repousar, irresistível, uma tentação totalitária. Especialmente se o pretexto for livrar-nos do mal (comunismo), amém!

Nesse passo, impossível, também, não tirar o chapéu para o grande estadista britânico Winston Churchill, que apesar de um canalha, com as mãos sujas de sangue do colonialismo britânico, pelo menos teve a decência de escolher o lado da civilização, não o da barbárie, quando o assunto era o nazifascismo. Ele teria respondido aos conservadores que o interpelavam pela sua aliança com Stalin: se Hitler invadisse o inferno, eu me aliaria ao Diabo!

Agora passando ao grande filósofo existencialista. 

Sartre definia sua filosofia como a filosofia da liberdade: “Somos condenados a ser livres”. “Somos responsáveis pelo que fazemos de nós mesmos”.

Sobre a aproximação de Sartre com os comunistas, no pós guerra, é bem compreensível, afinal, eles estiveram juntos, na resistência francesa à ocupação nazista, enquanto boa parte dos liberais franceses estava colaborando com a escritura da página mais vergonhosa da história nacional francesa: a República colaboracionista de Vichy. 

Aliás, a frase implacável de Sartre sobre o período é essa: “nunca os franceses foram tão livres quanto durante a ocupação nazista”. Afinal, se somos responsáveis por nossas escolhas, mesmo nas horas mais críticas, sempre se pode escolher de que lado ficar.

Ademais, Sartre visitou os Estados Unidos logo após a 2ª Guerra Mundial e relatou ter ficado estarrecido e indignado com o apartheid racial institucional que conheceu na pátria liberal do Ocidente. Nesse ponto, deve ter sido bem impressionante mesmo, para um pensador radical da liberdade, comparar aquela realidade a como eram tratadas as etnias minoritárias na União Soviética e ver que um tadjique ou um nanai , não precisavam estudar em escolas apartadas, ou viajar no fundo dos vagões, ou utilizarem banheiros separados de qualidade inferior.

Sartre se filiou ao Partido Comunista Francês em 1952 e rompeu com ele quatro anos depois, em 1956, após a invasão da Hungria pelas tropas soviéticas, para sufocar uma revolta popular contra o regime stalinista.

Logo depois, em 1958, ele escreve, na revista “Os Tempos Modernos”, o artigo “O fantasma de Stalin”, em que condenava tanto a intervenção soviética quanto a submissão do PCF aos ditames de Moscou, somando-se, assim, à longa tradição do socialismo democrático, que vinha de Rosa Luxemburgo, com sua crítica contundente ao conceito de disciplina bolchevique e ao fechamento da Duma (parlamento) após a Revolução de 1917, e de Alexandra Kollontai e da oposição de esquerda na URSS, com seus avanços feministas, que o Ocidente Liberal só iria conhecer décadas mais tarde, como o direito a salários iguais e ao aborto.

Portanto, chamar Sartre de stalinista é tão absurdo quanto chamar Trotsky de stalinista, só porque este defendia o Estado Operário Soviético, ao tempo em que combatia sem tréguas sua direção burocratizada, autoritária e corrupta.

Por fim, não deixa de ser muito curioso que ao falar sobre a monstruosidade dos comunistas, Mises nos brinde, no mesmo texto citado antes, com a seguinte frase:

Os partidos da Terceira Internacional consideram permissíveis quaisquer meios, desde que lhes pareçam úteis na consecução de seus objetivos. Quem não reconhecer, incondicionalmente, todos os seus ensinamentos como os únicos corretos e a eles não se conformarem com toda a lealdade, a seu juízo, sujeita-se à pena de morte. Não hesitam em exterminá-lo e a toda a sua família, inclusive as crianças pequenas, quando e onde for fisicamente possível.

E pensar que há tantos liberais hoje passando pano pro extermínio de famílias e de crianças pequenas em Gaza! Chega quase a dar saudade do Mises... Se tivéssemos certeza de que ele seria coerente com as próprias palavras.

Num momento histórico em que o mundo volta a ser assombrado por ameaças fascistas de movimentos e governos de extrema direita, a começar dos próprios Estados Unidos, com seu presidente pervertido, em todos os sentidos, há muitos liberais no Brasil que ao invés de seguirem o exemplo de um Nabuco, um Mário Covas, um Márcio Moreira Alves, um Victor Nunes Leal, um Barbosa Lima Sobrinho, preferem se curvar à tradição de Roberto Campos, Bulhões, Merquior e Cia, e não aparentam qualquer problema de consciência para apoiar candidatos declaradamente à favor da ditadura, da tortura e que rendem homenagens a facínoras como Brilhante Ustra.

Para esses, nunca é tarde para perguntarmos, inspirados em Sartre e, por que não, também em Churchill, se já escolheram de que lado estão. 

E se é, desde sempre, contra Lula e o PT, por medo de qualquer coisa que eles representem, vale lembrar mais essa pérola do pensamento liberal, atribuída a Benjamin Franklin: “o homem que troca liberdade por segurança não merece nenhuma das duas”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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