Lula diz que disputará novo mandato para impedir volta do fascismo e aprofundar inclusão social
Em entrevista à mídia progressista, presidente afirma que o Brasil pode se tornar uma das maiores economias do mundo
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que está disposto a disputar um novo mandato presidencial para impedir, em suas palavras, que “um fascista volte a governar esse país” e para concluir um ciclo de reconstrução nacional que, segundo ele, ainda está em andamento. Em entrevista concedida à mídia progressista — aos jornalistas Leonardo Attuch, da TV 247, Renato Rovai, da revista Fórum, e Kiko Nogueira, do DCM —, Lula disse que nunca esteve “com tanta energia” para ser presidente da República.
A entrevista foi transmitida pelo canal da TV 247 no YouTube, sob o título “Lula fala à mídia progressista”, e reuniu temas centrais do debate político e econômico brasileiro, como eleições de 2026, juros, endividamento das famílias, apostas esportivas, segurança pública, Petrobras, relações internacionais, Venezuela, Cuba, educação e democratização da comunicação.
Logo no início da conversa, Lula enquadrou sua possível candidatura como uma decisão política e histórica, não apenas pessoal. “Não se trata de eu querer um quarto mandato. Nem sempre você quer o primeiro, quer o segundo ou quer o terceiro. Circunstâncias políticas e o momento conjuntural que você vive decide se você é para ser ou não”, disse. Em seguida, foi além ao justificar o sentido político de uma nova disputa: “Segundo, porque um compromisso moral, ético, eu diria até cristão, não permitir que um fascista volte a governar esse país.”
O presidente apresentou sua eventual candidatura como parte de uma batalha em defesa da democracia, lembrando os ciclos de avanços e rupturas na história recente do Brasil. Ao mencionar o processo de redemocratização e os reveses políticos vividos pelo País, afirmou: “Nós não temos o direito de permitir que isso aconteça no Brasil. Nós temos o direito de brigar.” Também reforçou que se sente em plena capacidade física e política para o desafio. “Eu me sinto, primeiro fisicamente muito bem, politicamente eu tô muito bem, tô com a saúde muito bem preparada e tô motivado”, declarou.
Lula ainda buscou associar sua disposição eleitoral aos indicadores de seu governo e ao que considera ser uma melhora concreta da vida nacional. “O Brasil vive hoje um bom momento. Um bom momento. Nós temos a menor inflação acumulada em 4 anos, nós temos a maior massa salarial. Nós temos o aumento do salário mínimo com aumento real de salário”, afirmou. Na mesma linha, destacou exportações recordes, recuperação industrial e melhora das condições de vida da população, ainda que abaixo do que julga necessário.
Recado ao mercado e defesa de mais inclusão social
Ao comentar as especulações do mercado financeiro sobre uma eventual sucessão presidencial, Lula foi direto ao confrontar o núcleo duro da Faria Lima. “O mercado, se você analisar o mercado da Faria Lima, eles sempre vão querer outro candidato”, disse. E explicou a divergência de fundo: “Porque eles não querem política de inclusão social, eles querem política para pagar a taxa de juro deles. E eu quero fazer política de inclusão social.”
Na sequência, o presidente indicou que um eventual novo mandato não seria de contenção, mas de aprofundamento de políticas redistributivas. “Ele não sabe que eu quero fazer muito mais. Ele não sabe que nós vamos fazer muito mais investimento em política de inclusão social, porque o povo brasileiro merece um pouco mais do que tem”, afirmou, em crítica ao mercado.
Lula também rebateu a ideia de que os resultados econômicos do País decorreriam de fatores externos ou sorte pessoal. Ao rememorar os governos anteriores do PT, recordou o ceticismo de economistas e analistas e sustentou que o crescimento foi fruto de decisão política, crédito e inclusão. “A gente não tem sorte, a gente tem compromisso”, resumiu.
Endividamento, bets e nova proposta para aliviar famílias
Um dos trechos mais importantes da entrevista foi dedicado ao aperto financeiro vivido pelas famílias brasileiras. Ao reconhecer que os números macroeconômicos positivos não se traduzem automaticamente em alívio no fim do mês, Lula disse que o governo prepara um novo programa para enfrentar o problema do endividamento.
“Nós sabemos dessa situação, por isso nós estamos preparando um programa para resolver parte da dívida das pessoas, como nós já fizemos o Desenrola”, anunciou. Segundo ele, a iniciativa buscará aperfeiçoar a experiência anterior para alcançar mais gente e reduzir a pressão cotidiana sobre os orçamentos familiares.
O presidente relatou conversas com trabalhadores que, mesmo com renda mensal relativamente elevada, permanecem presos ao ciclo da dívida. Ao citar o caso de um casal que, somando salários, recebe R$ 11 mil por mês, Lula observou que ainda assim “não sobra um centavo no final do mês”. Para ele, a resposta precisa combinar aumento de renda, educação financeira e ação regulatória do Estado.
Nesse ponto, Lula fez duras críticas à expansão das apostas digitais. “Agora o cassino tá dentro da sua casa, tá dentro da sua sala, tá no celular do seu pai, no celular do seu avô, no celular da sua avó”, afirmou. Em outro trecho, reforçou: “Nós precisamos efetivamente tentar terminar com essa guerra de jogatina que tá no Brasil.” Segundo ele, o governo discute o tema com a Justiça, o Ministério da Fazenda, o Coaf e o Banco Central.
Lula associou o avanço das bets e das fintechs à lavagem de dinheiro e ao crime organizado. “Nós sabemos que tem muita lavagem de dinheiro na fintech, tem muita nas bets”, disse. Por isso, prometeu apresentar “uma grande proposta” que una combate ao endividamento e regulação mais dura contra mecanismos que exploram financeiramente a população.
“Ano da verdade contra a mentira”
Ao falar da disputa política e da comunicação de governo, Lula afirmou que 2026 será um momento decisivo de confronto entre fatos e desinformação. “Eu tenho dito que esse ano vai ser o ano da verdade contra mentira”, declarou. Segundo ele, os primeiros anos do mandato foram dedicados à reconstrução e à semeadura de políticas públicas, enquanto agora seria o momento da colheita.
“Quem mentiu, mentiu. Quem não mentiu daqui para frente vai ser pego de calça curta”, disse, em referência aos ataques da extrema direita e às manipulações digitais. O presidente prometeu resposta rápida às falsificações políticas: “A mentira tem que ter vida curta e a verdade tem que durar.”
Essa lógica foi retomada em vários momentos da entrevista, inclusive quando Lula tratou da mídia tradicional, do mercado financeiro e das investigações sobre corrupção. Em todos os casos, insistiu na necessidade de cronologia, contexto e disputa aberta de narrativas com base em fatos.
Crescimento, crédito e defesa do arcabouço em contexto de reconstrução
Na área econômica, Lula sustentou que o atual governo retomou o crescimento acima de 3% após mais de uma década de estagnação. “A economia brasileira não crescia acima de 3% desde que eu deixei a presidência da República em 2010. Ela só voltou a crescer acima de 3% quando eu voltei presidente da República em 2023”, afirmou.
Ele também destacou a recuperação do crédito estatal e o papel dos bancos públicos no estímulo à atividade. Citou Banco do Brasil, Caixa, BNDES, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia como instrumentos fundamentais para reativar a economia real. “Quando você tem compromisso, quando você quer fazer, as coisas dão certo”, resumiu.
Sobre juros altos e o arcabouço fiscal, Lula disse que a estratégia atual precisa ser entendida à luz da destruição herdada do governo anterior. “Quando você encontra uma economia destruída, você não pode começar a administrar sem levar em conta que ela está destruída”, afirmou. Em defesa da responsabilidade fiscal, recordou que já adotou medidas duras no passado para reconstruir a credibilidade do País e acumular reservas internacionais.
Ao mesmo tempo, deixou claro que a austeridade não é um fim em si mesmo. Criticou a pressão permanente para cortar gastos sociais e questionou o custo histórico de o Brasil ter adiado reformas estruturais, especialmente em educação. “As pessoas nunca pararam para discutir quanto custou ao país a gente não ter feito as coisas na hora certa”, disse.
Petrobras, combustíveis e sonho de reconstruir distribuição estatal
Lula também voltou a criticar o desmonte da Petrobras após o golpe de Estado contra Dilma e a privatização da BR Distribuidora. Ao ser questionado sobre a possibilidade de a estatal voltar a atuar de forma integrada, do poço ao posto, respondeu que as condições contratuais atuais impedem uma recomposição imediata, mas não afastou esse objetivo estratégico.
“Eu ainda sonho que a gente vai ter uma empresa distribuidora de gás. Eu ainda sonho que a gente vai ter distribuidora de combustível”, declarou. Segundo ele, a perda do controle sobre a distribuição limita a capacidade pública de impedir repasses abusivos de choques internacionais aos preços internos.
Lula afirmou que o governo vem tentando neutralizar os impactos da guerra e das oscilações do petróleo sobre diesel, feijão, pão e transporte. “Esse é o nosso objetivo e muito menos ao tanque de um caminhoneiro autônomo”, disse, ao destacar medidas de compensação tributária e coordenação com governos estaduais.
Segurança pública, PEC e criação de ministério
Na área de segurança pública, Lula reconheceu a dificuldade histórica do governo federal de comunicar melhor suas ações e explicou o problema como uma limitação estrutural da Constituição de 1988, que concentrou a segurança nos estados. Para mudar esse quadro, afirmou que aguarda a aprovação, no Senado, da PEC da Segurança.
“A hora que a PEC for aprovada no Senado, eu vou criar o Ministério da Segurança Pública”, anunciou. Segundo ele, a nova pasta precisará nascer com “um orçamento muito poderoso” e com integração entre Polícia Federal, inteligência e uma guarda nacional apta a fazer intervenções quando necessário.
O presidente afirmou que o combate ao crime organizado exige atuação permanente e coordenada. “Essa é uma guerra que é nossa”, declarou. Também associou a percepção pública de corrupção ao fato de que ela aparece justamente nos governos que investigam. “Quando você apura a corrupção, você prende o bandido, aparece a corrupção, aparece no governo de quem? Aparece no governo de quem combate a corrupção. No governo de quem não combate a corrupção não aparece”, afirmou.
Ao comentar o caso do Banco Master, Lula disse que sua orientação ao Banco Central é prestar contas à sociedade, deixando clara a cronologia dos fatos e das responsabilidades. “Eu só quero que você mostre pra sociedade quem é quem no cinema, quem é o artista principal, quem é o coadjuvante”, disse, referindo-se à necessidade de dar transparência ao caso.
Comunicação, imprensa e críticas à manipulação
Lula também fez um longo balanço de sua relação com a mídia brasileira, relembrando o tratamento que recebeu em diferentes campanhas presidenciais e durante o ciclo da Lava Jato. Sem defender censura ou restrição à imprensa, afirmou que exige apenas honestidade factual.
“Jamais eu vou pedir para um jornalista, para a Folha, para o jornal Estado de S. Paulo, para a Bandeirantes, fale bem de mim. Eu não falo. Seja livre, fale mal, mas fala a verdade. Não invente história”, disse. Em seguida, acrescentou: “Eu sei o que eu passei com as mentiras contadas e até hoje eu tô esperando que algum sacana prove, mostre uma prova.”
Ao tratar da democratização dos meios de comunicação, Lula admitiu a complexidade do tema e sugeriu que será preciso discutir novas formas de apoio para ampliar a diversidade informativa. “O que nós precisamos trabalhar é como é que a gente pode, num governo democrático, ajudar para que todas as pessoas possam, que tá trabalhando em meio de comunicação, ter mais facilidade de trabalhar, ter mais possibilidade, inclusive aporte financeiro, como se dá para todo mundo”, afirmou.
Trump, democracia e o papel do Brasil no mundo
No cenário internacional, Lula criticou duramente a postura de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, embora tenha dito esperar que as tensões possam ser administradas diplomaticamente. “O Trump não precisava ficar ameaçando o mundo”, afirmou. E acrescentou: “Essas ameaças do Trump não faz bem pra democracia.”
Ao relatar conversa com o presidente norte-americano, Lula disse ter defendido uma liderança baseada no respeito, não no medo. “A gente tem que escolher se a gente quer ser temido ou a gente quer ser amado”, disse que afirmou a Trump. Em outro trecho, completou: “A minha guerra com você é um argumento. Eu quero o poder da palavra para mostrar que nós estamos certos e você tá errado.”
O presidente brasileiro também voltou a defender o multilateralismo e anunciou participação em um encontro internacional em defesa da democracia, com lideranças progressistas de diversos países. Segundo ele, fora do regime democrático “qualquer coisa é pior”.
Venezuela, Cuba e críticas a Netanyahu
Sobre a Venezuela, Lula relatou seus esforços de mediação desde 2003 e disse que aconselhou Nicolás Maduro a realizar uma eleição “a mais livre possível” e a permitir o maior número de observadores. Reiterou que pediu a divulgação das atas eleitorais e que, diante da não publicação, optou por não reconhecer o resultado, sem aderir a campanhas de desestabilização. “Eu achava que ele deveria ter feito. Aliás, eu disse: você convocava uma nova eleição”, afirmou.
Ao ser questionado sobre possíveis interferências dos Estados Unidos na eleição brasileira, minimizou a hipótese e ironizou o desempenho político de aliados de Trump em outros países. “Receio eu não tenho”, disse. E completou: “Eu acho que ele me ajudaria muito se ele fizer.”
Em relação a Cuba, Lula descreveu a situação econômica do país como a mais grave desde a Revolução. “Cuba tá faltando comida, Cuba tá faltando energia elétrica, falta petróleo, tá faltando tudo”, afirmou. Disse que o Brasil tem enviado remédios, sementes e alimentos, mas ressaltou que a solução precisa partir dos próprios cubanos, com uma estratégia de médio e longo prazo.
Já ao falar de Israel e da guerra no Oriente Médio, Lula voltou a separar o governo de Benjamin Netanyahu do povo israelense. “Netanyahu é uma figura fora da linha. Ele é um político, sinceramente, não tem nada de humanismo dentro da cabeça”, declarou. Ainda assim, ponderou que o Brasil precisa agir com cautela antes de um eventual rompimento diplomático, dadas as relações históricas entre os dois países e a presença da comunidade judaica no Brasil.
Educação como legado central
Nos momentos finais da entrevista, Lula apontou a educação como o eixo principal de seu legado histórico. Comparou o custo de manter jovens presos ao custo de mantê-los estudando e afirmou que o Brasil só se desenvolverá plenamente com investimento maciço em formação, ciência e oportunidades.
“A educação é a principal mola propulsora do crescimento de um país, da melhoria da cabeça política, cultural de um país”, disse. Também defendeu que o custo relevante não é o de investir, mas o de ter adiado por décadas aquilo que deveria ter sido feito antes. “Não me diga vai custar. Me diga quanto custa não fazer”, resumiu.
Lula destacou a expansão dos institutos federais, das universidades, dos hospitais universitários e das escolas em tempo integral, além de metas para alfabetização até o segundo ano do ensino fundamental. Segundo ele, esse esforço é decisivo para abrir perspectivas à juventude e conectar educação a mercado de trabalho, inovação e desenvolvimento nacional.
Ao projetar o futuro, afirmou que o Brasil pode se tornar uma das quatro ou cinco maiores economias do planeta se souber aproveitar seus minerais críticos, a transição energética, a recuperação de terras e o potencial agrícola e industrial. “O país está preparado para dar um salto de qualidade”, declarou.
Fechando a entrevista, Lula voltou ao ponto inicial: sua disposição de seguir na política está ligada a uma causa histórica e social. “Eu não deixo envelhecer por dentro da minha causa. A minha causa é renovada todo santo dia”, afirmou. É sob essa chave que o presidente tenta construir, desde já, a narrativa de 2026: a de que sua permanência no centro da disputa nacional seria menos um projeto individual e mais a continuidade de uma travessia contra a extrema direita, pela democracia e por um novo ciclo de inclusão social no Brasil.

