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Ricardo Amaral

Ricardo Amaral é jornalista, editor especial do Brasil 247 em Brasília e escritor. Publicou "A Vida quer é Coragem", sobre a trajetória da presidenta Dilma Rousseff, e "Memorial da Verdade", sobre a farsa da Lava Jato contra Lula. Mineiro de Belo Horizonte, onde começou a trabalhar na imprensa popular em 1976.

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Lula decide trucar a carta gringa dos Bolsonaros

A veemência de Lula levou Flávio Bolsonaro a um primeiro e constrangedor recuo sobre o Pix

02.06.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Anúncio à imprensa sobre a inauguração do Instituto Federal Goiano – Campus Catalão, em Catalão - GO. Foto: Ricardo Stuckert / PR (Foto: Foto: Ricardo Stuckert / PR)
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Cinismo, hipocrisia, arrogância e outras categorias morais (no caso, imorais) não bastam para enquadrar objetivamente a sequência de ataques à economia e à soberania do Brasil nos dias recentes. No reino das coisas concretas, estamos lidando com bandidos e vigaristas políticos da pior espécie, enfrentando poderosos interesses econômicos globalizados e a estratégia geopolítica agressiva do governo Donald Trump. Essa é a crua realidade que o presidente Lula decidiu desafiar.

Pela maneira desabrida e vigorosa com que tem se manifestado, Lula sinaliza ter entrado em modo de combate, na defesa do país e de seu patrimônio político. Ele expressa a justa indignação nacional com a ingerência dos EUA na legislação interna de segurança pública do Brasil e com as novas declarações de guerra tarifária contra o país. Denuncia a traição dos Bolsonaros, sem disfarçar a decepção pessoal de quem investiu no diálogo com Trump e acreditou na razoabilidade de negociações comerciais e diplomáticas.

Ninguém tem o direito de ficar surpreso por ver a carta gringa lançada no jogo eleitoral brasileiro com a algazarra de uma partida de truco. Foi o que os Bolsonaros pediram e é o que a plutocracia e a extrema-direita estadunidense sempre quiseram. As razões e sem-razões para enquadrar PCC e CV na abusiva legislação de alcance transnacional dos EUA, sempre metidos a “polícia do mundo”, estavam definidas desde dezembro passado, na nova estratégia de segurança nacional de Trump. Submissão política da América Latina ao imperialismo renovado, sob a ameaça do “big stick”, a velha porrada que caiu na cabeça de Maduro.

Quanto às expectativas em torno de uma negociação comercial equilibrada, estas entraram em choque com o objetivo mais amplo do processo na tal Seção 301: nunca foi somente o Brasil, é a tentativa de conter a crescente presença da China em toda a região. Trump preserva importações imprescindíveis para os consumidores estadunidenses (café, laranja, aços) e aperta o garrote sobre o Pix, o sistema circulatório da economia popular brasileira. E vem agora a notícia de que também querem sobretaxar o Brasil e mais uma penca de países por suposta leniência com “trabalhos forçados”. Vá perguntar aos colhedores de laranjas na Califórnia se algum dia o governo se preocupou com seus direitos.

Nada que se justifique, mas nada por acaso. A ideia é pressionar o Brasil para fragilizar as políticas soberanas sobre comércio, terras raras, big techs, energia e, não menos importante, alterar a rota de nossa política externa; as relações com a China, a presença nos BRICS e a defesa do multilateralismo. Uma guinada completa para a subserviência, que Flávio Bolsonaro se ofereceu sofregamente para “negociar” com o governo Trump, sem ter mandato para nada, repetindo Guaidó, o desaparecido “presidente autoproclamado” da Venezuela.

Fanfarronices à parte, existe uma lógica implacável, econômica, geopolítica e de sobrevivência política interna, nos recentes movimentos de Trump. E há, evidentemente, a conexão com os vigaristas da família Bolsonaro, no projeto de expansão regional da extrema-direita.

Lula sabe que são escassos os instrumentos de que o Brasil dispõe, isoladamente, para enfrentar a guerra tarifária contra um governo que não hesitou em comprometer a estabilidade da economia global, juntando-se a Israel num ataque insano ao Irã. É na disputa eleitoral contra os Bolsonaros que Lula encontra o terreno mais favorável para resistir às ameaças de hoje e posicionar o Brasil para os próximos anos no tabuleiro mais largo da geopolítica. E é nessa disputa que Lula e o Brasil podem e precisam derrotar a cartada gringa.

Digam os que disserem as oniscientes pesquisas, foi a inteligência política de Lula que o levou a trucar, no ato, o lance dos adversários. Ele não esperou pelos efeitos práticos da ofensiva antinacional para denunciar os traidores da pátria. Antecipou-se ao que ainda pode vir, seja na forma de sanções ilegais ou na destruição de empregos, para responsabilizar diretamente os Bolsonaros por qualquer prejuízo ao Brasil.

A veemência de Lula levou Flávio Bolsonaro a um primeiro e constrangedor recuo. Afinal, se ele é assim tão brother do Marco Rubio, teria de ter pedido antes para não mexerem com nosso Pix, e não na cartinha, pretenciosa e farsesca, que divulgou depois de perceber o estrago sobre sua imagem e candidatura. Se “ama muito Brasil”, no dizer de Trump, não deveria ter saudado o primeiro tarifaço nem implorado pelo segundo.

A resposta de Lula foi estrategicamente certeira, mesmo se houver uma improvável inflexão na ofensiva antinacional, que os Bolsonaros tentariam manipular a seu favor. A trucada de Lula e a durabilidade dessa resposta ainda serão testadas no correr da disputa presidencial, com todos os sortilégios que ela ainda nos reserva. O que a carta gringa deixou mais evidente é que derrotar a extrema-direita no Brasil é mais que um desafio para Lula e o campo democrático popular que ele lidera. É missão.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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