Lula no G7 fala pelos excluídos do mundo e reage à ofensiva de Trump e Bolsonaro
Em discurso contundente na França, presidente confronta a agenda neoliberal, rejeita ingerências externas e se posiciona como porta-voz do Sul Global
O presidente Lula não precisou pronunciar o nome de Donald Trump para responder à mais nova ofensiva do governo dos Estados Unidos contra o Brasil e criticar abertamente o unilateralismo da política externa dos Estados Unidos na reunião do G7, na manhã desta terça. Lula estava lá, na sofisticada estância francesa de Evian, no papel de consciência crítica do planeta, fazendo a voz dos excluídos. Era o convidado talvez inconveniente na reunião dos países ricos que orbitam em torno dos interesses econômicos e geopolíticos dos EUA: Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Canadá e Japão, e que hoje enfrentam as consequências de sua prolongada submissão.
Num tom acima de anteriores participações em palcos globais, Lula foi contundente na crítica ao neoliberalismo e à financeirização da economia global. Afirmou que o primeiro “agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias” e que a cada vez maior concentração de riquezas “decorre de décadas de políticas pró-bilionários”. No momento em que apenas um trilionário tem mais dinheiro do que toda a soma de recursos dos 46% mais pobres, Lula denunciou “um sistema que produz riqueza em abundância, mas que distribui oportunidades de forma profundamente assimétrica.”
É no mínimo improvável que aquele conjunto de chefes de estado de países capitalistas concedam ao discurso de Lula algo além de um silêncio constrangido ou palavras de aprovação envergonhada e inútil. O próprio Lula iniciou seu discurso lembrando as inúmeras reuniões desse tipo de que participou e não levaram a nenhum resultado prático. Os debates que ele propôs teriam mais consequência num encontro de países do sul global, com participação da China e da Rússia, da Índia e de países asiáticos, da África do Sul e outros do continente africano.
Mas Lula não deixou de incluir, ao longo de seu discurso no G7, recados diretos à ingerência do governo Trump em assuntos que tocam mais imediatamente ao Brasil. A primeira foi a menção ao unilateralismo e ao protecionismo, que chamou de “respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”. Nada mais unilateral e protecionista que as tarifas extraordinárias e outras sanções previstas na mal afamada Seção 301 da legislação de comércio externo estadunidense, que Trump vem de impor ao Brasil. Da mesma forma, veio a defesa do respeito à soberania dos países na cooperação para o combate ao crime e ao narcotráfico.
Não menos importante foi a abordagem de Lula aos temas da inteligência digital e da exploração de terras raras, apresentada no final do discurso: “As transições energética e digital não podem reproduzir padrões históricos que concentram benefícios econômicos em poucos atores. Os países detentores de minerais críticos devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia, por meio da industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de capacidades, conforme suas necessidades nacionais.”
Lula nem precisou falar do Pix para reagir ao conjunto de ofensas dos EUA à soberania brasileira, especificamente, num discurso de abrangência global. E para o público interno, ficou ainda mais claro o recado: as eleições de outubro serão uma escolha entre Lula, o candidato do Brasil, e Flávio Bolsonaro, o candidato dos Estados Unidos da América e da curriola global da extrema-direita.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




