Em recado a Trump no G7, Lula exige "respeito à soberania" no combate ao crime
Presidente defendeu cooperação internacional contra narcotráfico, lavagem de dinheiro e tráfico de armas durante reunião ampliada do G7
247 - O presidente Lula (PT) afirmou nesta terça-feira (16), durante reunião ampliada do G7 em Évian, na França, que o combate ao crime organizado deve respeitar a soberania dos Estados e ser conduzido por meio da cooperação internacional. Em discurso no encontro, que contou com a presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Lula defendeu uma resposta articulada contra narcotráfico, lavagem de dinheiro e tráfico de armas, associando o enfrentamento aos crimes transnacionais à agenda global de desenvolvimento.
O presidente discursou no segmento “Firmar novas parcerias e reconstruir a solidariedade internacional”. Lula afirmou que crimes transnacionais precisam fazer parte do debate sobre desenvolvimento, especialmente diante do impacto do crime organizado sobre comunidades e sobre recursos públicos que deveriam ser destinados a áreas essenciais.
Segundo o presidente, o crime organizado “aterroriza comunidades” e desvia recursos que poderiam financiar escolas, hospitais e estradas. Para Lula, o enfrentamento ao problema deve ocorrer sem violar a soberania dos países. “Esse esforço deve levar em conta do respeito à soberania dos Estados”, afirmou Lula.
O presidente classificou a Declaração de Líderes do G7 sobre o Combate ao Tráfico de Drogas como um passo positivo. No entanto, advertiu que o narcotráfico não pode ser tratado de forma isolada em relação a outros crimes.
“Mas o enfrentamento ao narcotráfico não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas”, declarou.
Lula também defendeu o fortalecimento do diálogo e da cooperação institucional entre países e organismos internacionais. Ele citou a INTERPOL como instrumento para auxiliar na localização de ativos e pessoas ligadas a atividades criminosas.
“Valorizar o diálogo e a cooperação institucional, inclusive por meio da INTERPOL, contribuirá para a localização de ativos e indivíduos vinculados a essas atividades criminosas”, disse.
No discurso, Lula fez uma crítica mais ampla ao cenário internacional. Ele afirmou que, apesar das sucessivas cúpulas do G8 e do G7 das quais participou desde 2003, os líderes mundiais não conseguiram construir respostas coletivas e duradouras para crises que afetam milhões de pessoas.
O presidente criticou políticas baseadas na desregulamentação dos mercados, no Estado mínimo e na austeridade fiscal. Segundo ele, o neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que atingem as democracias.
“Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, afirmou.
Lula disse ainda que a distância entre a prosperidade de Évian e a realidade vivida por bilhões de pessoas no Sul Global não está diminuindo. Segundo ele, a desigualdade entre países ricos e pobres aumentou nos últimos anos, em meio a uma extrema concentração de riqueza.
O presidente afirmou que o mundo caminha na contramão da Agenda 2030. Ele destacou que faltam US$ 4 trilhões por ano para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e defendeu a ampliação do financiamento climático para, pelo menos, US$ 1,3 trilhão, como forma de acelerar a implementação do Acordo de Paris.
Lula também citou a queda histórica de 23% na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento no ano passado. Segundo ele, o Programa Mundial de Alimentos perdeu cerca de 40% de seu financiamento, enquanto a Organização Mundial da Saúde e o UNICEF reduziram seus orçamentos em mais de 20%.
“Não são cifras abstratas”, afirmou.
Para o presidente, a redução desses recursos afeta diretamente populações de países em desenvolvimento, com impacto sobre alimentação, educação, proteção de mulheres e prevenção de doenças. Ele também criticou os gastos militares anuais, que somam quase US$ 3 trilhões, enquanto países em desenvolvimento transferem US$ 1,4 trilhão por ano em serviço da dívida.
Lula defendeu um sistema financeiro internacional que não obrigue países a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças. Também citou mecanismos como troca de dívida por ação climática ou investimentos sociais como alternativas para ampliar o espaço fiscal dos países mais vulneráveis.
O presidente apresentou ainda iniciativas brasileiras, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a Aliança Global contra a Fome. Segundo ele, esses instrumentos podem contribuir para conservar florestas, proteger populações e compartilhar políticas públicas eficazes de redução das desigualdades.
Ao tratar de tecnologia, Lula afirmou que o acesso à Inteligência Artificial e a outras tecnologias de ponta não pode ficar excluído das parcerias para o desenvolvimento. Ele defendeu que as transições energética e digital não reproduzam padrões históricos de concentração de benefícios econômicos em poucos atores.
Segundo o presidente, países detentores de minerais críticos devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva, por meio da industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de capacidades, conforme suas necessidades nacionais.



