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Tereza Cruvinel

Colunista/comentarista do Brasil247, fundadora e ex-presidente da EBC/TV Brasil, ex-colunista de O Globo, JB, Correio Braziliense, RedeTV e outros veículos.

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Lula, o voto e os endividados

Medidas emergenciais contra o endividamento expõem falhas estruturais do crédito e o peso político da crise sobre o governo Lula

Presidente Lula em Brasília 11/2/2026 REUTERS/Mateus Bonomi (Foto: REUTERS/Mateus Bonomi)

Faltando apenas seis meses para o primeiro turno da eleição, o governo prepara às pressas medidas para enfrentar um problema que subestimou ou não identificou em tempo: o sufoco das famílias endividadas, em grande parte responsável pelo mau humor político captado pelas pesquisas.

O ministro Dario Durigan está concluindo, com a equipe técnica da Fazenda, uma medida que seria mais eficiente que o Desenrola, mas, para incidir eleitoralmente, ela terá de ser capaz de produzir resultados de muito curto prazo. E isso vai requerer o mínimo de burocracia e a boa vontade dos bancos e financeiras.

A meta agora é favorecer a renegociação das dívidas mais caras, como cartão de crédito, cheque especial e crédito sem garantia, oferecendo abatimentos de até 80% e o refinanciamento do restante. A União seria a fiadora junto aos bancos privados, por meio de um fundo a ser criado com parte daquela dinheirama nunca procurada pelos donos, gerida pelo Banco Central, que soma mais de R$ 10 bilhões.

Terá o governo, entretanto, de tomar outras providências se não quiser apenas repetir o Desenrola, que acabou sendo um paliativo temporário. Será preciso reprimir a gula dos bancos e conter o impulso dos consumidores.

Há dois anos se fala, no governo e na mídia, de um “mal-estar difuso” que estaria bloqueando a percepção das pessoas, especialmente das mais pobres, acerca dos bons resultados econômicos e sociais produzidos pelo governo nos últimos 40 meses: geração surpreendente de empregos, aumentos reais da renda e do salário mínimo, inflação controlada, especialmente a de alimentos, e novos programas sociais, como o Pé-de-Meia e o Gás do Povo.

Embora estes resultados tragam benefícios diretos e indiretos, a maioria das pessoas diz aos pesquisadores que a vida não melhorou e que esperam dias piores. A aprovação do presidente, neste início de 2026, está em cerca de 45%, contra 52% de reprovação. Pesquisas eleitorais recentes mantiveram o empate técnico entre Lula e Flavio Bolsonaro, mas com o filho de Jair numericamente à frente, com um ponto percentual a mais. Não é nada, mas a certos eleitores impressiona.

É ocioso dizer que 2026 não é 2022, mas vale recordar que Lula, naquele pleito, derrotou o incumbente que havia sido cruel com o país na pandemia, que acenava com um golpe de Estado (e veio de fato a tentá-lo), que ofendia a Nação com sua vulgaridade, com a política externa da subserviência, com o desmonte das instituições do Estado democrático e das políticas sociais e culturais progressistas implantadas neste milênio. Já seu filho, feito do mesmo barro, pode ludibriar os incautos com a falsa impressão de ser mais moderado, preparado e racional.

O sufoco de viver devendo

O endividado é um enforcado. No final do mês, a maior parte de seu salário ou aposentadoria (ou renda de programas sociais) é aspirada pelas dívidas, e o que sobra não dá para atravessar o resto do mês.

Apesar do Desenrola, o endividamento hoje está novamente nos níveis de 2022. Ele cresceu muito nos últimos 12 meses, quando o conjunto de famílias aportou aos bancos, com o pagamento de débitos, o equivalente a 1,5% do PIB. No período anterior de 12 meses, o dreno levou apenas 0,2% do PIB.

Bolsonaro deu grande contribuição para o endividamento ao elevar de 30% para 45% a margem de endividamento com os empréstimos consignados junto ao INSS, que têm o menor juro do mercado. Lula não tapou esta fenda deixada por Bolsonaro.

Conheço uma mulher na seguinte situação. Aposentada com um salário mínimo (R$ 1.621), ela fez empréstimos consignados junto ao INSS no limite máximo, ou seja, comprometendo 45% de seu rendimento, R$ 730. E, com isso, passou a receber apenas R$ 891.

Meses depois, um filho envolvido com drogas foi preso, e ela precisou pagar um advogado para tirá-lo da cadeia. Para isso, pegou empréstimo “sem garantia”, que lhe vinha sendo oferecido pelo banco onde recebe a aposentadoria.

Esta modalidade de empréstimo (crédito pessoal livre) tem taxas de juros astronômicas, que passam dos 8% mensais e podem chegar a 150% ao ano. O empréstimo que ela fez gerou uma prestação mensal de quase R$ 500, que o banco fisga tão logo o INSS deposita o pagamento dela. Sobram pouco mais de R$ 300 para ela passar o mês. Por ora, vive num modesto imóvel cedido, mas o proprietário decidiu vender o terreno em que fica o barraco. Ela acha que terá mesmo de ir viver nas ruas. Não pode receber auxílios sociais porque, teoricamente, tem renda mensal de um salário mínimo.

Pelo WhatsApp, os bancos bombardeiam os correntistas pobres, especialmente aposentados, com oferta de “crédito sem garantia”, mesmo quando sabem que a pessoa já paga o consignado. Para pegá-lo, não é preciso ir ao banco nem assinar nada. Faz-se a operação pelo aplicativo, usando apenas a senha bancária. Por meio do Banco Central, o governo devia proibir estas práticas e também o crédito sem garantia para quem já está com a renda comprometida.

Há histórias de todo tipo entre os devedores, inclusive as de pessoas que se enforcaram jogando nas bets. Primeiro, eles jogam no “tigrinho” com o dinheiro próprio, perdem e depois pegam empréstimos para pagar as contas. Na ilusão de ganhar uma bolada para resolver a situação, pegam mais dinheiro emprestado. Nesta altura, alguns já estão viciados. Conheço uma família de classe média em que um filho rouba coisas da casa para vender e poder jogar. Agora foi internado.

A Apple acaba de proibir os aplicativos de bets em seus aparelhos. Eles não são oferecidos pela loja eletrônica Apple Store, mas alguma burla já vem sendo praticada por bets não legalizadas. Esta é outra medida que o governo poderia tomar: a extensão desta vedação a outras plataformas.

Números do infortúnio

Neste mês de abril, a relação entre dívida e renda das famílias brasileiras chegou a 49,7. Vale dizer: metade do que é auferido pelo conjunto das famílias vai para a amortização de dívidas de toda natureza. Este era o patamar de 2022, antes do Desenrola. A parcela da renda comprometida com o pagamento de dívidas alcançou a média de 29,3%, mas há quem tenha comprometido muito mais.

A taxa de juros de 14,5% é claro que contribui muito para o endividamento, mas modalidades como cartão de crédito e cheque especial cobram muito mais. Aqui, os devedores são mais de classe média, mas Lula precisa também do voto deles.

O crédito rotativo do cartão de crédito cresceu 32,7% em 12 meses, com taxas que podem ultrapassar 400% ao ano.

Estudos da FGV indicam, entretanto, que os mais pobres são os mais enforcados. Entre beneficiários do Bolsa Família, o comprometimento da renda com dívidas superou 30% no fim de 2024. Quem inventou isso também foi Bolsonaro, com seu populismo eleitoral em 2022. Lula podia ter fechado esta porta.

Mas os bancos também são culpados. Estas pessoas não teriam se endividado tanto se os bancos não as tivessem aliciado com suas mensagens digitais e suas facilidades. Elas são vítimas do próprio despreparo, da falta de educação financeira e, principalmente, da ganância sem ética nem limites do sistema financeiro.

Educação financeira é outro item que o governo devia incluir entre suas prioridades sociais. Muitas são as facilidades hoje oferecidas ao consumidor, como Pix, cartão de crédito, cartões de lojas e tudo o mais. Ao cidadão, entretanto, raramente se vê uma mensagem sobre o consumo com responsabilidade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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