Julimar Roberto avatar

Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

271 artigos

HOME > blog

Mais empregos, mais consumo: efeitos do fim da 6x1

Redução da jornada de trabalho pode gerar cerca de 4,5 milhões de novos empregos no Brasil

64% dos brasileiros rejeitam a escala 6x1 (Foto: Ag. Brasil )

Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um cenário positivo para o comércio brasileiro. Em janeiro deste ano, o volume de vendas do varejo cresceu 0,4% em relação ao mês anterior e atingiu o maior patamar da série histórica iniciada em 2000, igualando o recorde registrado em novembro de 2025. Na comparação ao mesmo período no ano passado, o avanço foi de 2,8%.

Esses números revelam um setor dinâmico, com forte capacidade de geração de renda e empregos, mas também reforçam um debate cada vez mais necessário.  Como garantir que esse crescimento econômico seja acompanhado por melhores condições de trabalho para quem sustenta o funcionamento do comércio diariamente?

É inegável dizer que a proposta que mais ganha força nesse debate é o fim da escala 6x1 — modelo em que o trabalhador e a trabalhadora enfrentam uma jornada de trabalho por seis dias consecutivos e descansam apenas um. Embora parte do empresariado costume reagir a mudanças trabalhistas com previsões de crise ou desemprego, estudos recentes indicam justamente o contrário.

 Um levantamento do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), da Universidade Estadual de Campinas, aponta que a redução da jornada de trabalho pode gerar cerca de 4,5 milhões de novos empregos no Brasil. O próprio estudo identifica que grande parte dessas novas vagas surgiriam justamente em setores aquecidos da economia, como comércio e serviços.

A lógica é que se a jornada diminui, as empresas precisam contratar mais trabalhadores e trabalhadoras para manter o funcionamento das atividades. Ao mesmo tempo, funcionários menos cansados tendem a produzir mais e melhor. O estudo também estima um aumento de cerca de 4% na produtividade, resultado associado a melhores condições de trabalho, maior descanso e menor estresse. Ou seja, não haveria prejuízos para as empresas.

Além disso, jornadas mais equilibradas tornam o emprego formal mais atrativo, especialmente para os jovens. Segundo dados do IBGE, cerca de 21 milhões de brasileiros trabalham mais de 44 horas semanais, ultrapassando o limite previsto pela legislação trabalhista. Esse cenário contribui para afastar parte da força de trabalho do emprego formal ou aumentar a rotatividade — um custo que também pesa para as empresas.

A experiência histórica brasileira também oferece pistas importantes. Quando a Constituição de 1988 reduziu a jornada semanal de 48 para 44 horas, o país registrou aumento da produtividade ao longo da década seguinte, além de expansão do emprego e redução da informalidade. Ou seja, ampliar direitos não paralisou a economia; ao contrário, ajudou a fortalecê-la.

Há ainda um efeito indireto frequentemente ignorado no debate, mais tempo livre gera mais consumo. Trabalhadores e trabalhadoras que têm folga real conseguem frequentar restaurantes, viajar, praticar esportes, estudar ou participar de atividades culturais. Tudo isso movimenta novos setores da economia e retroalimenta o próprio comércio.

Em um momento em que o varejo brasileiro mostra sinais claros de recuperação e crescimento, discutir o fim da escala 6x1 deixa de ser apenas uma pauta trabalhista. Trata-se de uma oportunidade de modernizar as relações de trabalho, ampliar empregos e fortalecer o mercado consumidor.

No fim, a conta é bem simples. Trabalhadores e trabalhadoras com mais tempo, saúde e dignidade consomem mais, produzem melhor e permanecem mais tempo nos empregos. Quando isso acontece, ganha a classe trabalhadora e também os patrões.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados