Maurici de Morais avatar

Maurici de Morais

Deputado estadual (PT-SP)

26 artigos

HOME > blog

Mais uma vez, os pretensos patriotas apunhalam o Brasil

Mais uma vez, pretensos patriotas agem contra o Brasil ao buscar nova interferência dos Estados Unidos em temas estratégicos nacionais

Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Eduardo Bolsonaro e Donald Trump (Foto: Reprodução)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Aqueles que se apresentam como patriotas são os que apunhalam o Brasil pelas costas. E o fazem sem remorso, movidos pelos próprios interesses. Ou alguém já se esqueceu de quando Eduardo Bolsonaro articulou junto ao governo dos Estados Unidos o tarifaço, que impôs taxas draconianas à importação de produtos brasileiros, colocando em risco a indústria nacional e os milhares de empregos que dela dependem? Na ocasião, sequer tiveram o trabalho de esconder a verdadeira motivação: chantagear a Justiça brasileira para reverter a condenação de Jair Bolsonaro por liderar a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Agora, o roteiro se repete. Para desviar o foco de seu pedido de milhões de reais a Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro foi aos Estados Unidos atrás de uma nova intervenção de Donald Trump: a classificação como organizações terroristas das facções criminosas que atuam no Brasil. A iniciativa surge em meio ao escândalo das mensagens trocadas entre o senador e candidato à Presidência e o dono do Banco Master, nas quais aparece um pedido de dinheiro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Uma produção que, apesar do valor artístico questionável, teve um orçamento superior ao de dois dos mais recentes sucessos do cinema brasileiro indicados ao Oscar: “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”.

Não é de hoje que a extrema direita se vale do diversionismo como estratégia para desviar a atenção de um problema central, com discursos geralmente mais polêmicos ou emocionais, dispersando as discussões e distraindo as pessoas com uma cortina de fumaça. O problema é que a estratégia já está manjada e cola cada vez menos. Afinal, é tanta sujeira que nem sempre dá para esconder debaixo do tapete.

Para além do discurso fácil, a classificação, pelos Estados Unidos, do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas atrapalha o combate efetivo às facções criminosas e pode causar prejuízos econômicos ao Brasil, especialmente nos setores financeiro e produtivo. Para compreender o que está em jogo, é preciso conhecer os efeitos práticos da medida.

Companhias nacionais podem ser alvo de sanções dos Estados Unidos caso, mesmo sem conhecimento, prestem serviços utilizados por integrantes dessas facções. Moradores de periferias que vivem em territórios controlados pelo crime organizado podem enfrentar dificuldades para obter vistos, ainda que jamais tenham cometido qualquer delito. O combate ao crime deixaria de atingir apenas criminosos e passaria a afetar a vida cotidiana de milhares de brasileiros inocentes.

Especialistas alertam que a classificação pode reduzir a cooperação internacional. Informações atualmente compartilhadas entre polícias passam a circular em níveis de sigilo, controladas por agências de inteligência militarizadas, limitando o acesso brasileiro. Na prática, isso enfraquece investigações e reduz a capacidade nacional de enfrentar o próprio crime organizado.

O terrorismo está ligado a motivações políticas, ideológicas, étnicas e raciais e busca provocar medo, gerar repercussão simbólica e influenciar decisões de governos e sociedades. As facções criminosas brasileiras atuam com uma lógica diferente: seu objetivo é obter lucro por meio de atividades ilícitas. Por isso, equiparar crime organizado e terrorismo não é apenas uma imprecisão conceitual, mas um ato de má-fé, que mistura alhos com bugalhos.

É evidente que o crime organizado precisa ser combatido com firmeza. O governo brasileiro ampliou ações de inteligência, aprovou uma legislação antifacção e aprofundou a cooperação internacional entre forças policiais. Há uma diferença fundamental entre cooperação e submissão. Quando uma potência estrangeira passa a enquadrar organizações criminosas brasileiras segundo seus próprios interesses e critérios, cria-se um precedente perigoso de interferência externa.

O governo do presidente Lula reagiu rápido à decisão de Donald Trump ao dizer, em alto e bom som, que “quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança”. A preocupação não é infundada. O país possui riquezas estratégicas que despertam crescente interesse internacional: minerais críticos, terras raras, biodiversidade amazônica, água doce e recursos energéticos.

Em um cenário global de disputa econômica e tecnológica, qualquer brecha para o enfraquecimento da soberania nacional precisa ser observada com atenção. A história mostra que intervenções externas raramente acontecem apenas por razões humanitárias ou de segurança. Frequentemente, interesses econômicos e geopolíticos caminham junto com os discursos oficiais.

Logo após a articulação de Flávio Bolsonaro junto ao governo Trump para enquadrar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, os Estados Unidos concluíram, ainda que de forma preliminar, a investigação da Seção 301 sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil. O resultado foi mais um ataque aos interesses nacionais: a imposição de tarifas de 25% sobre parte das exportações brasileiras e uma nova ofensiva contra o Pix, uma pedra no sapato dos interesses de gigantes estadunidenses como Visa e Mastercard.

O secretário de Estado, Marco Rubio, que, descumprindo as obrigações impostas pelo cargo que ocupa, não compareceu ao encontro entre Lula e Trump, deixou muito claro qual é a questão ao declarar que não é “amigável” ao Brasil, assim como a Cuba e à Venezuela.

O que a extrema direita estadunidense deseja não é a amizade dos demais países do continente americano, mas a sua completa submissão aos desígnios e interesses da potência hegemônica, nos termos da antiga Doutrina Monroe, rebatizada de Doutrina Donroe. Apesar das imensas diferenças existentes entre os três países, Cuba, Venezuela e o Brasil, nos governos do PT, têm em comum a intransigente defesa de sua soberania e a rejeição à vassalagem a quem quer que seja.

Mais uma vez, a família Bolsonaro abre espaço para que uma potência estrangeira pressione o Brasil em temas estratégicos. E ainda tenta travestir a submissão em patriotismo. Agora, a extrema direita fará malabarismo para atribuir ao presidente Lula a responsabilidade por essa sequência de novas interferências dos Estados Unidos.

Porém, segundo coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, um levantamento feito pela AtivaWeb Datalab mostra que, das 15 milhões de interações em redes sociais até a tarde de 2 de junho, 78% foram de “sentimento negativo” contra Trump e a família Bolsonaro. A realidade é teimosa e o povo já percebeu quem são os verdadeiros traidores da pátria.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados