Governo Lula tenta diálogo com os EUA sobre tarifas nesta semana
Governo Donald Trump deve ser representado por Jamieson Greer, representante de Comércio
247 - O governo Lula (PT) tenta abrir uma nova frente de negociação com os Estados Unidos para barrar novas tarifas sobre produtos brasileiros, em meio à expectativa de uma reunião por videoconferência ainda nesta semana com o representante de Comércio norte-americano, Jamieson Greer. O encontro deve contar com a participação dos ministros Marcio Elias Rosa, da Indústria e Comércio, e Mauro Vieira, das Relações Exteriores, segundo o jornal O Globo.
A reunião deve ocorrer no âmbito do grupo de trabalho definido em 7 de maio, durante encontro na Casa Branca entre os presidentes Lula e Donald Trump. O mecanismo foi criado para tratar de questões tarifárias e agora deve ser acionado diante de relatórios recentes dos Estados Unidos que ampliaram a pressão comercial sobre o Brasil.
Na semana passada, Mauro Vieira conversou com Jamieson Greer à margem da reunião ministerial da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, em Paris. O chanceler relatou que o representante norte-americano sinalizou disposição para manter o diálogo com o Brasil.
“Conversamos, ele disse que estavam tendo ótimas conversas com o Brasil. Eu disse que é do nosso interesse manter conversas sobretudo depois dos anúncios, dos laudos, dos relatórios finais das duas investigações sobre a seção 301. Ele disse que estava pronto para continuar a conversa e que sempre o diálogo tinha sido muito bom”, afirmou Mauro Vieira.
Relatórios dos EUA elevam tensão comercial com o Brasil
A nova rodada de negociações ocorre após a divulgação de dois relatórios produzidos pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da Lei de Comércio. O primeiro deles, anunciado na terça-feira da semana passada, sugeriu a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.
O documento do governo Trump trata de práticas comerciais classificadas por Washington como desleais. Entre os pontos citados estão o uso do Pix, questões de propriedade intelectual, decisões judiciais e desmatamento. O relatório afirma que determinados atos, políticas e práticas do governo brasileiro seriam “irrazoáveis” e poderiam “onerar ou restringir” o comércio dos Estados Unidos com o Brasil.
No dia seguinte, Washington apresentou uma nova proposta de tarifa, de até 12,5%, contra 60 países, sob a justificativa de supostas falhas no combate ao chamado trabalho forçado. No caso brasileiro, a interpretação americana seria a de que o país não impediria a entrada de produtos que desrespeitam essas regras. O relatório também aponta irregularidades em segmentos específicos da economia brasileira.
Governo brasileiro avalia caminhos para negociação
Integrantes do governo brasileiro avaliam que a eventual tarifa de 25% sobre produtos nacionais teria mais chance de ser revertida por meio de negociação direta com autoridades dos Estados Unidos. A avaliação é diferente em relação à tarifa de até 12,5% vinculada ao tema do trabalho forçado.
No entendimento de membros do governo, a segunda medida tende a ser mais difícil de derrubar porque atinge um conjunto amplo de países, incluindo aliados dos Estados Unidos, como a Argentina. Por essa razão, um acordo específico para livrar apenas o Brasil dessa cobrança seria considerado mais complexo.
Ainda assim, a taxação relacionada ao trabalho forçado pode ser usada como argumento na mesa de negociação. Representantes brasileiros podem sustentar que o país já estaria submetido a uma tarifa de 12,5% e, por isso, não deveria ser alvo de uma nova cobrança de 25%.
Trump tenta recompor política tarifária
Economistas e especialistas em comércio exterior interpretaram a movimentação do governo Trump como uma tentativa de reconstruir sua política tarifária após a derrubada, pela Suprema Corte dos Estados Unidos, das taxas de importação anunciadas pelo republicano em 2025.
No governo brasileiro, há a percepção de que a medida sobre trabalho forçado também se insere nessa estratégia de recomposição do chamado “muro tarifário” de Trump. A expectativa em Brasília é que o canal bilateral aberto no grupo de trabalho permita reduzir os impactos das medidas sobre o comércio entre os dois países.
A videoconferência esperada para esta semana deve ser, portanto, um teste para a capacidade de negociação entre Brasil e Estados Unidos em um momento de maior tensão comercial. O governo Lula aposta na continuidade do diálogo para tentar impedir que as novas tarifas avancem contra produtos brasileiros.



