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Ricardo Nêggo Tom

Músico, graduando em jornalismo, locutor, roteirista, produtor e apresentador dos programas "Um Tom de resistência", "30 Minutos" e "22 Horas", na TV 247, e colunista do Brasil 247

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Marco Feliciano, as bruxas, o carnaval e o racismo religioso evangélico

Querem instituir um bacanal gospel na sociedade, regado a dominação cultural, social e econômica, critica Ricardo Nêggo Tom

Marco Feliciano (Foto: Najara Araujo/Câmara dos Deputados)

Sobre a definição original do termo bacanal, é importante que se diga que ele se origina do latim bacchanalia, e se refere às festas realizadas em homenagem a Bacchus, ou Baco, o deus romano do vinho, dos prazeres e da embriaguez. Originalmente, eram rituais inicialmente femininos, focados em música, dança e vinho, tendo o seu sentido desvirtuado de acordo com conveniências humanas para satisfação de outros prazeres ou vontades. Por isso, quando nos referimos a bacanal nos dias de hoje, o termo nos remete, sobretudo, à satisfação do prazer carnal. Algo que acabou sendo inserido na festividade de Baco, mas sem fazer parte de sua essência. O que resultou numa tentativa de intervenção do império romano na continuidade do rito, sugerindo a sua proibição.

Do mesmo modo, o charlatanismo de pastores evangélicos foi inserido dentro de um cristianismo que, por essência, não continha as vigarices e as picaretagens que hoje são apresentadas como evangelho de Cristo e palavra de Deus. O que não pode nos levar a crer que todos que participam dele hoje em dia, sejam vigaristas e pilantras como muitos líderes. Líderes como o pastor parlamentar e deputado evangélico Marco Feliciano, que anda muito mais preocupado com os “demônios” do carnaval, do que com a situação política do país, da qual ele, como parlamentar, deveria cuidar para torná-la melhor. Depois de subir à tribuna da Câmara para fazer uma pregação religiosa contra a festa mais popular do país e classificá-la como um “bacanal a céu público”, ele agora está compartilhando vídeos em suas redes sociais contendo “alertas” aos cristãos sobre o sentido “maligno” da festa.

Em um dos vídeos, ele associa a sexta-feira 13 a uma data usada para fazer rituais demoníacos, e lembra que o carnaval deste ano teve início nesta mesma data. Feliciano também critica o desfile da Colorado do Brás, agremiação carnavalesca de São Paulo que abriu os desfiles do grupo especial com o enredo "A Bruxa está solta! Senhoras do saber renascem na Colorado", que falou sobre ancestralidade e ressignificação das "bruxas" como sábias e mulheres de poder. Segundo o pastor, a escola estava abrindo um portal para que espíritos de bruxas invadissem o país e possuíssem a todos que participassem do carnaval. Obtuso, como todo fundamentalista religioso, Marco Feliciano não conseguiu fazer a leitura correta do enredo que, entre outras coisas relacionadas ao universo feminino, traz um protesto contra a violência diabólica cometida contra as mulheres, e que vêm aumentando devido ao comportamento de homens possuídos pelo demônio do machismo e da misoginia.

Essas mulheres que não tinham voz e nem vez, e que quando se rebelavam contra a submissão imposta pelo patriarcado que Feliciano defende como autoridade divina, era considerada uma herege. Uma desajustada. Uma louca. Uma puta. Uma bruxa passível de punição na fogueira santa da hipocrisia cristã. A bruxa está solta significa que as mulheres não vão mais se calar diante da opressão masculina. Elas agora podem e devem estar onde elas quiserem. E nem as religiões abraâmicas, que sempre reservaram a elas um olhar de inferiorização, e um lugar de subalternidade dentro de seus templos, irão conseguir detê-las. Sendo assim, precisamos demonizar o feminismo e a libertação das mulheres da nossa estrutura patriarcal. E que seja no carnaval, com uma escola de samba denunciando os crimes históricos cometidos contra os seus direitos e à sua existência.

Marco Feliciano é apenas mais um ignorante (não burro) alçado por seus fiéis – a maioria tão ignorantes quanto ele - à condição de guia de ovelhas sem cérebro, sem rumo e sem sentido de vida próprio. Pessoas que entregam sua liberdade de raciocínio nas mãos de lobos, esperando que eles as conduzam à salvação eterna. Lobos que pregam o pânico moral como evangelho de Cristo. A falsa espiritualidade como conhecimento oculto. O racismo religioso como doutrina salvífica. A demonização de culturas não cristãs como salvação da alma. Que isto é método, muitos sabem. No entanto, é preciso combater sistematicamente esta tentativa de domínio cultural, social e econômico através da religião. Da igreja evangélica neopentecostal, que quer ganhar almas para o seu projeto de poder. Não para Jesus. Um projeto que deseja instituir um bacanal gospel na sociedade, regado a cargos públicos, emendas parlamentares, e poder sobre tudo e todos.

Essa tentativa de destruir o carnaval por parte dos evangélicos é antiga. Porém, é preciso lembrar que o gospel foi instituído como patrimônio cultural brasileiro. Assim sendo, os interesses neopentecostais no fim da folia de Momo têm um sentido muito mais amplo do que apenas rivalizar religiosamente com a festa. Agora, eles querem ocupar o lugar desta festa. Exagero? Os ataques cometidos por eles contra a cultura e a educação, além do aparelhamento das forças de segurança do Estado para a ampliação bélica do seu projeto, não deveriam nos deixar duvidar. Enquanto avançam sobre os parlamentos brasileiros, eles trazem consigo pessoas prontas para disseminarem o caos espiritual e o pânico moral na sociedade. As ameaças de castigo divino, e, até mesmo, de uma nova pandemia enviada por Deus como prova de sua rejeição ao carnaval, já estão sendo atualizadas com sucesso.

O curioso é que o “Deus verdadeiro” de muitos evangélicos nunca enviou um castigo sobre situações e acontecimentos históricos da humanidade, que provocaram dor, sofrimento e muitas mortes. Os escravocratas não foram castigados com uma pandemia quando sequestravam seres humanos no continente africano, e os submetiam a violência do açoite e a desumanização de sua existência. Não vejo uma pandemia ou qualquer tipo de castigo se abater sobre Israel, apesar do genocídio cometido contra o povo palestino. E sobre os EUA, que financiam guerras e promovem a morte de milhares de inocentes? Nada. Nem uma disenteria Deus manda contra o imperialismo sanguinário. Deve ser porque “Deus verdadeiro” dessa gente não gosta de nada que não seja essencialmente branco, ou que não tenha sido tornado branco. Como o Jesus palestino, que passou pela harmonização racial católica para ser melhor aceito como salvador da humanidade.

Feliciano, e tantos outros pastores e líderes evangélicos, precisam responder judicialmente pelo racismo religioso que propagam. É um crime previsto por lei, que não pode isentar de responsabilidade judicial o comportamento criminoso de pessoas que se protegem sob a liberdade de culto religioso prevista na Constituição. Até porque, além de não respeitarem a crença religiosa de outras pessoas, boa parte deles também desejam que a Constituição do país seja substituída pela Bíblia. Algo que, caso se concretizasse, obrigaria a confecção de um novo conjunto de leis para o país. Do contrário, faltariam presídios para abrigar aqueles que quisessem obedecer integralmente a essa nova “Constituição”. Ou iríamos naturalizar o apedrejamento de mulheres, o genocídio dos considerados “infiéis”, e o incesto em situações permitidas por Deus? Está repreendido em nome de Momo! Evoé?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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