Paulo Gala avatar

Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

49 artigos

HOME > blog

Mercado de trabalho dos EUA mostra resiliência; tensão geopolítica ainda dita preços de ativos

Dados sólidos de emprego sustentam cautela do Fed enquanto conflitos elevam a incerteza global

Donald Trump e Jerome Powell (Foto: REUTERS/Kent Nishimura)

Os pedidos iniciais de seguro-desemprego nos Estados Unidos vieram melhores do que o esperado nesta quinta-feira, reforçando a percepção de um mercado de trabalho ainda sólido. Foram registrados 202 mil novos pedidos na última semana, abaixo dos 211 mil da semana anterior e próximos das mínimas históricas.

O indicador é acompanhado de perto por economistas porque níveis baixos de pedidos costumam sinalizar um mercado de trabalho aquecido. Apesar disso, outros dados recentes sugerem uma moderação gradual. O relatório da ADP, divulgado na véspera, apontou a criação de 60 mil vagas em março, número mais fraco do que o observado em meses anteriores.

Outro indicador relevante é o estoque de beneficiários do seguro-desemprego, que permanece em torno de 1,84 milhão de pessoas. Embora elevado em termos absolutos, o número recuou em relação ao pico recente, próximo de 2 milhões, registrado ao longo de 2025, sugerindo alguma melhora na margem.

O quadro geral indica um mercado de trabalho relativamente estável. A taxa de desemprego segue na faixa de 4% a 4,5%, sem sinais de deterioração acentuada, mas também sem forte dinamismo. Contratações e demissões mostram comportamento mais contido, refletindo um ambiente de maior cautela por parte das empresas.

Esse cenário reduz a probabilidade de cortes urgentes de juros pelo Federal Reserve, ao mesmo tempo em que mantém alguma pressão salarial, característica de um mercado que não pode ser classificado como fraco.

A atenção agora se volta para o payroll, principal indicador do mercado de trabalho americano, que será divulgado nesta sexta-feira, mesmo com o feriado de Good Friday nos Estados Unidos.

No campo geopolítico, o discurso do ex-presidente Donald Trump elevou a volatilidade dos mercados. Considerado mais duro do que o esperado, o pronunciamento frustrou expectativas de uma sinalização de encerramento do conflito no Oriente Médio.

Trump afirmou que os Estados Unidos seguem dentro do cronograma militar e indicou a possibilidade de novos ataques, o que levou a uma reação negativa inicial dos mercados. O preço do petróleo voltou a subir, ultrapassando US$ 106 por barril, refletindo o aumento das incertezas.

Ao longo do dia, no entanto, houve alguma acomodação, com expectativas de manutenção da abertura do Estreito de Ormuz contribuindo para reduzir o estresse. O petróleo perdeu parte dos ganhos, enquanto os juros dos Treasuries de 10 anos se estabilizaram ao redor de 4,3%.

A leitura predominante no mercado passou a ser de continuidade do conflito, sem uma resolução imediata, mas também sem uma escalada significativa no curto prazo.

No Brasil, os ativos acompanharam esse movimento. Após uma abertura mais pressionada, houve recuperação ao longo do dia: os juros longos recuaram, o real apresentou leve valorização e a bolsa operou em alta moderada.

Com isso, o mercado encerra a semana ainda sensível ao cenário externo, dividido entre dados econômicos que apontam resiliência e um ambiente geopolítico que segue imprevisível.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados