Passagens aéreas podem subir até 20% com alta do combustível
Alta do querosene de aviação pode reduzir demanda por voos no Brasil
247 - O aumento do preço do querosene de aviação pode provocar uma alta de até 20% nas passagens aéreas, pressionando custos das companhias e impactando diretamente a demanda por voos no Brasil. A elevação está ligada à valorização do petróleo no mercado internacional, influenciada pelo conflito no Oriente Médio, que envolve Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Segundo reportagem do G1, especialistas apontam que o encarecimento do combustível tende a afetar de forma significativa o setor aéreo, já que o querosene representa uma parcela relevante das despesas operacionais das empresas.
De acordo com Andre Castelini, sócio da Bain&Company, o impacto pode ser direto nos custos das companhias. “Os gastos para transportar um passageiro por quilômetro vão aumentar aproximadamente 20%. Como quase metade das despesas das companhias aéreas é com o QAV, o custo operacional deve subir nessa proporção”, afirmou.
Ainda segundo o especialista, não há garantia de que o aumento será repassado imediatamente ao consumidor. A decisão depende de fatores como ocupação dos voos e estratégias comerciais de cada empresa. “Talvez elas tenham que cortar voos que não sejam rentáveis, porque o passageiro não consegue absorver esse aumento. Com isso, o número de passageiros pode cair, e aí passa a fazer sentido reduzir a oferta”, acrescentou.
O sócio da L.E.K. Consulting, Maurício França, projeta um cenário semelhante, com impacto entre 10% e 20% nas tarifas, sendo cerca de 15% a estimativa mais provável. “Esse é um movimento relevante porque, quando o preço das passagens sobe, a demanda tende a recuar. Para cada 1% de aumento no preço, a demanda tende a cair em magnitude semelhante, embora isso varie conforme o perfil do passageiro”, explicou.
Ele destaca ainda que viagens de lazer tendem a ser mais sensíveis ao preço do que deslocamentos a trabalho. “Em um cenário de alta de cerca de 15% nas passagens, é razoável esperar também uma retração da demanda em torno de 15%, o que seria bastante significativo para as empresas do setor”, avaliou.
A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) alertou para os impactos mais amplos do aumento do combustível. Em nota, a entidade afirmou que a alta, somada ao reajuste de 9,4% aplicado desde março, eleva o peso do querosene para cerca de 45% dos custos operacionais, ante pouco mais de 30% anteriormente. “A medida tem consequências severas sobre a abertura de novas rotas e a oferta de serviços, restringindo a conectividade do país e a democratização do transporte aéreo”, declarou.
Apesar do cenário adverso, a Petrobras anunciou medidas para reduzir o impacto imediato. A estatal informou que, em abril, o reajuste cobrado das distribuidoras será de 18%, enquanto o restante — que pode chegar a cerca de 54% — será parcelado em seis vezes a partir de julho. “Essa medida visa preservar a demanda pelo produto e mitigar os efeitos do reajuste no setor de aviação brasileiro, assegurando o bom funcionamento do mercado”, afirmou a empresa.
O governo federal também estuda ações para conter os efeitos da alta. Entre as propostas analisadas pela Secretaria Nacional de Aviação Civil estão a redução temporária de tributos sobre o querosene de aviação, diminuição do IOF sobre operações financeiras das companhias aéreas e corte do Imposto de Renda em contratos de leasing de aeronaves.
Outra alternativa em discussão é a criação de uma linha emergencial do Fundo Nacional da Aviação Civil (Fnac) para financiar a compra de combustível. A expectativa é que essas medidas ajudem a preservar a competitividade do setor, evitar aumentos excessivos ao consumidor e manter a conectividade aérea no país.
O Ministério da Fazenda informou que acompanha continuamente os efeitos do cenário internacional sobre a economia brasileira. Em nota, a pasta afirmou que eventuais medidas serão avaliadas “com responsabilidade, à luz das evidências, e sempre em conformidade com os marcos fiscais vigentes”.
A escalada do preço do petróleo desde o início do conflito no Oriente Médio, que levou o barril de cerca de US$ 70 para mais de US$ 115, segue como o principal fator de pressão sobre os custos do setor aéreo brasileiro.


