Mercado já enxerga inflação abaixo de 4% no Brasil
O Focus também projeta o câmbio em torno de R$ 5,50, relativamente estável neste ano e nos próximos
Começamos um novo mês depois de um rali impressionante dos ativos brasileiros: cerca de R$ 20 bilhões de entrada na Bolsa, uma alta superior a 10% no Ibovespa e, além disso, uma forte apreciação do real, que figurou entre as moedas emergentes que mais se valorizaram no período. Esse movimento está em linha com a leitura de que parte do capital tem saído dos Estados Unidos em busca de outros ativos, apesar de, na sexta-feira, termos visto uma correção bastante forte em prata, ouro e também no Bitcoin. Por enquanto, as moedas emergentes — e o Brasil em particular — passaram relativamente incólumes a esse ajuste.
A grande novidade do fim do mês foi a indicação de Kevin Warsh, tradicionalmente visto como um dirigente de Banco Central mais “hawkish”, mais duro. Ao mesmo tempo, ele vem fazendo intervenções públicas nos últimos meses defendendo cortes de juros e redução do balanço do Fed. Resta ver como isso vai se traduzir na prática, porque os Estados Unidos operam hoje com um déficit nominal superior a 6% do PIB, somando déficit primário e pagamento de juros, o que pressiona fortemente a emissão de dívida. Quem compra esses títulos, em grande medida, é o próprio Banco Central, que acaba monetizando a dívida e depois tentando enxugar parte da liquidez. O problema é que, num contexto em que vários bancos centrais estão diversificando reservas — migrando para ouro e outros ativos, como fez o Brasil no ano passado —, o Fed tem pouco espaço para simplesmente sair do mercado de Treasuries.
Esse ponto também vale para o mercado imobiliário americano, já que o balanço do Fed está carregado de MBS. Uma saída brusca do Banco Central desse mercado poderia provocar uma explosão das taxas longas de hipotecas. Esses dois temas ajudam a explicar, ao menos em parte, a correção observada na sexta-feira em metais preciosos e criptomoedas, possivelmente associada à leitura de um Fed potencialmente mais duro com a indicação de Warsh. Vamos acompanhar os desdobramentos ao longo da semana, mas começamos a segunda-feira ainda com perdas relevantes em commodities em geral, bolsas asiáticas em queda e ouro recuando — tudo isso refletindo o receio de um Banco Central mais “hawkish”.
No Brasil, tivemos a divulgação do Focus logo cedo, com uma notícia positiva: a expectativa de inflação para este ano caiu para abaixo de 4%, em 3,99%. Para 2026, a projeção é de 3,80% e, a partir de 2027 e 2028, algo em torno de 3,50%. Ainda não é exatamente a meta de 3%, mas já estamos relativamente próximos. O cenário desenhado é de um “step down” da Selic: das atuais condições mais restritivas para algo em torno de 12,25% ao fim deste ano, segundo o Focus, caindo para 10,5% no ano que vem e 10% em 2028.
É importante frisar que mesmo 12,25% ainda representa uma taxa de juros muito elevada. Nas próprias contas do Banco Central, o juro real neutro gira em torno de 5%. Com inflação entre 3% e 3,5%, isso implicaria uma Selic de equilíbrio perto de 8,5%. Ou seja, mesmo com a Selic em 12%, estaríamos algo como quatro pontos percentuais acima do juro neutro — um aperto monetário ainda bastante significativo.
O Focus também projeta o câmbio em torno de R$ 5,50, relativamente estável neste ano e nos próximos. Na ausência de uma previsão melhor, essa continua sendo a referência do mercado. Vale lembrar que estamos entrando em um ano eleitoral, então muita água ainda vai rolar. Por ora, o cenário base é de um câmbio conseguindo se sustentar ao redor de R$ 5,50 ou até um pouco abaixo. O déficit externo permanece na casa de US$ 65 bilhões, com um déficit em transações correntes relevante, apesar de uma balança comercial ainda robusta, com superávits entre US$ 65 e US$ 70 bilhões. O problema estrutural segue sendo o enorme déficit de serviços, que acaba deteriorando o resultado das contas externas.
Esta também é uma semana importantíssima para os Estados Unidos, com a divulgação de dados relevantes — inclusive o payroll na sexta-feira — e tudo indica que deve haver algum acordo no Congresso, possivelmente até quarta-feira, para evitar uma repetição do shutdown visto no ano passado. Além disso, teremos vários indicadores econômicos ao longo da semana, que vou comentando no dia a dia.
No geral, o cenário parece bastante razoável para o Brasil. O Focus segue projetando crescimento de 1,8% neste ano, enquanto o Banco Central trabalha com algo em torno de 1,6%. Eu sou um pouco mais otimista do que ambos. Acredito que é possível crescer algo próximo de 2% em 2026, dadas as políticas sociais em curso: a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, o reajuste real do salário mínimo, políticas salariais no funcionalismo de estados e municípios, além de BPC, aposentadorias, Bolsa Família e outras transferências que seguem dando estímulo importante à demanda. Historicamente, o mercado costuma errar para baixo essas projeções no começo do ano. Mais uma vez, partimos de um cenário mais pessimista, mas eu vejo espaço para um crescimento em torno de 2% neste ano.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


