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Copom reduzirá a Selic a partir de março, mas sem indicar a dimensão dos cortes

Comunicado fala em “serenidade” e condiciona ritmo da distensão à confiança na inflação, enquanto apostas oscilam entre redução de 0,25 ou 0,5 ponto

Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante coletiva de imprensa, em Brasília - 27/03/2025 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

247 – O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a Selic em 15% ao ano nesta quarta-feira, mas, ao mesmo tempo, sinalizou que o ciclo de queda dos juros está prestes a começar, com expectativa de corte já na reunião de março. A mensagem, porém, veio acompanhada de uma incerteza que ganhou o centro do debate: o primeiro passo será de 0,25 ponto percentual ou de 0,5 ponto?

A leitura foi detalhada em análise do Valor, que aponta como o comunicado divulgado logo após a decisão sugere distensão, mas evita cravar o tamanho do movimento inicial, empurrando parte das respostas para a ata do colegiado, que será divulgada na próxima terça-feira.

Um sinal de distensão, sem número no papel

O Copom manteve o juro no nível mais alto do ciclo recente, mas adotou uma comunicação que, na prática, abre espaço para a redução da Selic. A chave é a ideia de que o cenário já permite discutir “calibração do nível de juros”, expressão que costuma aparecer quando o Banco Central avalia que o grau de restrição está alto o suficiente e que, adiante, pode começar a ser ajustado.

O problema, para o mercado, é que calibrar pode significar diferentes velocidades de ajuste. Um corte de 0,5 ponto, logo na largada, teria peso simbólico e prático, reforçando a percepção de que o Banco Central já enxerga margem para avançar na distensão. Um corte de 0,25 ponto, por sua vez, sinalizaria prudência adicional, limitando o entusiasmo de investidores e reduzindo o risco de o mercado precificar um ciclo mais agressivo do que o comitê estaria disposto a entregar.

Mercado dividido: 0,25 ou 0,5 ponto?

As projeções mostram um quadro de disputa. No boletim Focus, a mediana das estimativas de economistas aponta para uma queda de 0,5 ponto em março, levando a Selic a 14,5% ao ano. Ao mesmo tempo, a média das projeções está em 14,59%, o que indica que há um volume considerável de analistas defendendo um corte menor.

Esse cenário também aparece nas opções relacionadas ao Copom citadas na análise. Cerca de 34,5% apostavam em corte de 0,5 ponto; 36% colocavam as fichas em 0,25 ponto; e 22% acreditavam que não haveria redução. O retrato é claro: o mercado já aceita que a distensão está no horizonte, mas não concorda sobre o tamanho do primeiro movimento.

A palavra “serenidade” e a ambiguidade calculada

O trecho mais observado do comunicado foi o que trata do ritmo e da magnitude do ciclo. O Copom escreveu: “O compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária”.

À primeira vista, “serenidade” pode ser lida como um convite ao corte menor, de 0,25 ponto, por sugerir moderação e cautela. Mas a própria experiência recente mostra que o vocabulário do Copom nem sempre aponta, de maneira mecânica, para o tamanho da decisão seguinte.

A análise lembra que, em agosto de 2023, quando começou um ciclo de queda com corte de 0,5 ponto, o Copom afirmou que a conjuntura exigia “serenidade e moderação” — e ainda assim cortou 0,5 ponto no encontro seguinte. Ou seja, o termo, isoladamente, não encerra a discussão.

“Ritmo” não é uma reunião só

Outro ponto central do debate é a diferença entre “primeiro corte” e “ritmo do ciclo”. Ritmo pressupõe sequência: trata do padrão de reduções ao longo do tempo. Por isso, há duas leituras plausíveis a partir do comunicado.

A primeira: o Copom poderia iniciar com um corte menor em março, de 0,25 ponto, e só depois definir um compasso mais intenso, eventualmente de 0,5 ponto por reunião, caso o cenário evolua bem. A segunda: já começar imprimindo o ritmo de 0,5 ponto de imediato, se o comitê considerar que há confiança suficiente na convergência da inflação.

O comunicado dá sinais de que o Copom busca flexibilidade. Ao condicionar ritmo e magnitude à evolução de fatores que aumentem a confiança no cumprimento da meta, o texto sugere que a decisão está “em aberto” e que dependerá da dinâmica inflacionária e do comportamento das expectativas até março.

Projeções de inflação e o sinal embutido

Além da comunicação direta, há a leitura das projeções. O Copom estima inflação de 3,2% no horizonte relevante de política monetária. A análise menciona a interpretação do ex-diretor de Política Econômica do Banco Central, Diogo Guillen, para quem esse percentual, dadas as incertezas de estimativas de longo prazo, não se diferencia estatisticamente da meta de 3%.

Esse detalhe importa porque a projeção do comitê, conforme descrito, incorpora a trajetória de queda de juros prevista pelo mercado no Focus: queda de 0,5 ponto em março e Selic de 12,25% ao fim do ano. Ainda assim, o Banco Central tende a tratar esse tipo de sinal com cautela, justamente para preservar margem de manobra e não transformar um cenário condicional em promessa.

Ata ganha peso e março vira o teste decisivo

Com o comunicado deixando espaço para múltiplas leituras, a ata da reunião passa a ser o documento mais aguardado. É nela que o Banco Central pode detalhar quais variáveis estão mais determinantes na visão do comitê, que tipo de “confiança” precisa ser construída para o início do ciclo e, principalmente, como o Copom interpreta a relação entre inflação, expectativas e o nível de restrição ainda necessário.

Até lá, o cenário segue com uma conclusão e uma interrogação. A conclusão: a distensão foi sinalizada e o mercado se prepara para uma Selic menor. A interrogação: o Copom vai iniciar com um corte mais simbólico e firme, de 0,5 ponto, ou com um passo mais contido, de 0,25 ponto, para moderar expectativas e preservar a “restrição adequada” mencionada no comunicado.

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