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Indicado de Haddad ao BC, Guilherme Mello defendeu mudanças na política monetária

Secretário de Política Econômica afirmou que juros altos provocaram retração do crédito e que trajetória da inflação pode permitir ajuste gradual

Guilherme Mello (Foto: Washington Costa/MF)

247 - A indicação do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda para a diretoria do Banco Central reacendeu o debate sobre os rumos da política monetária no país. Apesar de o nome ter sido apresentado pelo ministro Fernando Haddad, a decisão final sobre a escolha do novo diretor cabe ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o indicado ainda precisará passar por sabatina e votação no Senado. As informações são do jornal O Globo.

Atualmente, o Banco Central possui duas vagas abertas em sua diretoria. Uma delas é na Diretoria de Política Econômica, área estratégica responsável por fornecer o embasamento técnico das decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa Selic e pela comunicação da política monetária. A outra vaga está na Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, que acompanha a estrutura do sistema financeiro e conduz processos de resolução de instituições.

Em entrevista concedida à imprensa para apresentar as projeções do governo para indicadores macroeconômicos, como Produto Interno Bruto (PIB) e inflação, o secretário afirmou que os dados disponíveis apontam para um cenário que pode permitir uma inflexão gradual na atuação do Banco Central. Segundo ele, há confiança de que a inflação caminhe para a meta de 3%, ainda que esse processo não seja imediato.

 “O ministro Fernando Haddad tem confiança nessa trajetória que nossos números, números do BC, e até, em certa medida, os números do mercado mostram, que é o seguinte: vamos ter uma convergência da inflação para meta (de 3%), ela vai levar tempo, não vai ser imediata, assim como vamos ter um ciclo compatível com o nosso potencial daqui para frente. E essa trajetória é uma trajetória benigna que possibilita uma mudança na postura da política monetária”, afirmou.

O secretário ressaltou que a discussão não envolve uma alteração brusca do atual cenário de juros, mas sim o momento adequado para iniciar o processo de flexibilização. — “(A mudança na trajetória) Não (seria) também imediata, de ultra restritiva para neutra ou expansiva, não é isso que se fala. O questionamento não é acerca da trajetória, isso todo mundo concorda. A discussão gira em torno do momento, de quando”, disse.

Na avaliação do secretário, a Selic fixada em 15% ao ano representou uma postura “ultra restritiva” da autoridade monetária, com impactos diretos e significativos sobre o mercado de crédito. “As políticas, tanto fiscal quanto monetária, têm produzido efeitos reais, portanto a taxa de juros, de fato, tem impactado o mercado de crédito, não é um impacto pequeno. É um impacto, inclusive, que já faz a gente entrar no campo da retração, não da desaceleração do mercado de crédito”, declarou, em entrevista concedida em novembro.

Na reunião do Copom realizada na semana passada, o Banco Central sinalizou a possibilidade de iniciar o corte da taxa básica de juros no encontro previsto para março, reforçando as expectativas do mercado quanto a uma mudança gradual na política monetária.

O nome do secretário foi levado por Fernando Haddad ao presidente Lula como uma das opções para ocupar a diretoria do BC. Embora o chefe do Executivo ainda vá deliberar sobre o tema, Lula já seguiu indicações do ministro em outras ocasiões, como no caso de Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central e ex-secretário-executivo da Fazenda.

À frente da Secretaria de Política Econômica, o indicado comanda o núcleo responsável pelas projeções oficiais de inflação, crescimento econômico e resultado fiscal que subsidiam decisões e propostas do governo federal. É dessa área que saem os cenários e simulações utilizados na calibragem de medidas econômicas e na resposta a choques externos. Apesar disso, agentes do mercado têm reagido com cautela à possível indicação, citando um perfil considerado mais heterodoxo.

Na entrevista concedida em novembro, o secretário também foi questionado sobre a necessidade de aguardar a inflação projetada atingir o centro da meta para iniciar a redução dos juros. Ele afirmou que essa avaliação cabe ao Copom. “Esse pode ser um fator que eles avaliam, mas não há automatismo sobre esse tema”, disse.

Atualmente, as duas cadeiras vagas na diretoria do Banco Central seguem ocupadas de forma interina desde o fim do ano passado. A Diretoria de Política Econômica está sob responsabilidade temporária de Paulo Picchetti, diretor de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos, enquanto a Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e Resolução é comandada interinamente por Gilneu Vivan, diretor de Regulação.

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