BC mantém sigilo sobre reuniões entre Moraes e Galípolo e cita “risco à segurança”
Respostas à LAI afirmam que encontros com “altas autoridades” não são documentados
247 – O Banco Central se recusou formalmente a informar detalhes sobre reuniões entre seu presidente, Gabriel Galípolo, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, alegando risco à segurança da sociedade e do Estado e afirmando que não documenta encontros de seu dirigente com “altas autoridades da República”. As informações constam de respostas a pedidos feitos via Lei de Acesso à Informação (LAI).
A apuração foi publicada pelo jornal O Globo, com pedidos protocolados na plataforma Fala.Br e apoio da Fiquem Sabendo, ONG especializada em acesso a informações públicas, que acompanhou a tramitação de cinco solicitações rejeitadas pelo regulador.
LAI recusada e ausência de registros
Segundo o relato, a coluna solicitou a relação completa de reuniões, encontros presenciais ou online e contatos por vídeo ou telefone entre Moraes e Galípolo, com datas e horários de início e término. O Banco Central rejeitou os pedidos e informou não manter registro das discussões ocorridas nas reuniões — nem mesmo sob sigilo — quando se trata de encontros com “altas autoridades da República”.
A equipe do blog também questionou se houve produção de documento, informe ou ata sobre contatos entre Galípolo e Moraes no período de março de 2025 — quando o Banco Regional de Brasília (BRB) anunciou a compra do Banco Master, de Daniel Vorcaro, e o caso passou a ser analisado pelo BC — até dezembro de 2025. A resposta, de acordo com o texto fornecido, reafirmou a inexistência de registros formais.
A Lei de Acesso à Informação estabelece deveres de transparência ativa e passiva, além de exigir que o Estado registre e preserve informações de interesse público. É nesse ponto que a negativa do Banco Central, e especialmente a alegação de que reuniões desse nível não são documentadas, abre um flanco de controvérsia institucional.
A contradição com a fala pública de Galípolo
Um dos elementos mais sensíveis do caso é o contraste entre a resposta do Banco Central na LAI e uma declaração pública do próprio Gabriel Galípolo. Em entrevista coletiva em 18 de dezembro, o presidente do BC afirmou que todas as reuniões, mensagens e comunicações relacionadas ao caso Banco Master foram documentadas.
“Do ponto de vista da questão do Master, sabia que esse é um caso que tem que ser absolutamente gabarito. Ele é um gabarito completo porque a gente precisa que todo o processo se sustente ao longo do tempo. A gente documentou. Documentamos tudo: cada uma das ações que foram feitas, cada uma das reuniões, cada uma das trocas de mensagens, cada uma das comunicações. Tudo isso está devidamente documentado”, declarou Galípolo, segundo o texto.
A divergência entre a promessa pública de documentação total e a resposta formal de inexistência de registros sobre reuniões com “altas autoridades” cria um ruído que, por si só, já alimenta questionamentos sobre governança, transparência e proteção institucional do próprio Banco Central.
O pano de fundo: Banco Master, BRB e veto do BC
O episódio se conecta ao caso Banco Master e à operação anunciada pelo BRB para compra de ativos do banco de Daniel Vorcaro. Segundo o texto fornecido, o Banco Central vetou o negócio em setembro do ano passado por decisão unânime da diretoria.
Ainda de acordo com o relato, Moraes teria procurado Galípolo ao menos quatro vezes para pressionar em favor do Master, à época dependente do aval do regulador. O texto também afirma que as intervenções ocorreram quando o escritório de advocacia da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, mantinha um contrato de R$ 129 milhões (remuneração mensal de R$ 3,6 milhões por três anos), com escopo amplo e sem especificação de causa ou processo.
A publicação descreve esse contexto como um fator adicional de interesse público, por envolver, simultaneamente, decisões regulatórias no sistema financeiro e a proximidade institucional entre autoridades de Poderes distintos.
Magnitsky, sanções e a justificativa do sigilo
O Banco Central citou a aplicação da Lei Magnitsky pelo governo Donald Trump contra Alexandre de Moraes como argumento para não fornecer os dados solicitados. Oficialmente, segundo o texto, Galípolo e o ministro afirmam que se encontraram para tratar das restrições financeiras impostas pela legislação americana, criada para combater terrorismo e violadores de direitos humanos na esfera internacional.
O material também afirma que a medida atingiu Viviane Barci de Moraes e uma empresa mantida pela família, a Lex Instituto de Estudos Jurídicos, e que, em dezembro, Trump recuou das medidas.
Para justificar a recusa em divulgar informações, o BC invocou a regra de que agendas envolvendo “riscos à salvaguarda e à segurança da sociedade e do Estado” não são divulgadas quando o tema envolve tais riscos, com base em decreto assinado por Jair Bolsonaro em 2021 sobre transparência de agendas públicas.
Relatos sobre contatos e o debate interno no BC
O texto relata que, ao fim de 2025, a própria coluna publicou que, em pelo menos uma ocasião, Moraes se encontrou presencialmente com Galípolo para conversar sobre problemas de liquidez do Master, tema que teria sido retomado em telefonemas. Segundo a apuração, seis fontes diferentes relataram as conversas ao blog ao longo de dezembro: uma teria ouvido do próprio ministro sobre o encontro; as outras cinco, por integrantes do Banco Central.
Há ainda referência a um ambiente de divergência interna no regulador sobre intervir ou não no Master, diante de indícios de liquidez. Na narrativa apresentada, Galípolo teria dito ao ministro que técnicos descobriram fraudes no repasse de R$ 12,2 bilhões em créditos do banco de Vorcaro para o BRB. Conforme o texto, Moraes teria então admitido que a compra não poderia ser aprovada caso o esquema fosse comprovado nas investigações.


