Mercado reage a alívio geopolítico e sinaliza desaceleração doméstica
Ainda assim, a volatilidade permanece elevada, especialmente diante da incerteza sobre a natureza — transitória ou permanente — dos choques recentes
O mercado financeiro iniciou o dia em forte alta, refletindo um alívio temporário nas tensões no Oriente Médio. A perspectiva de resolução — ainda que incerta — do conflito impulsionou os ativos de risco, com o petróleo recuando e abrindo espaço para uma melhora relevante nas condições financeiras globais.
O barril do petróleo tipo Brent caiu para a faixa de US$ 104, reduzindo pressões inflacionárias e ajudando a sustentar o movimento positivo nos mercados. No Brasil, o Ibovespa futuro chegou a subir cerca de 2,7%, acompanhando o otimismo externo. O câmbio também reagiu de forma significativa, com o real se apreciando para aproximadamente R$ 5,22 por dólar.
No mercado de juros, a curva apresentou fechamento relevante, especialmente nos vértices mais longos, com taxas abaixo de 14%. O movimento reflete a leitura de que, ao menos no curto prazo, o choque inflacionário associado ao petróleo pode ser mais transitório do que se temia anteriormente — ainda que essa percepção siga volátil e sujeita a mudanças rápidas.
No cenário doméstico, o destaque foi a divulgação do Caged, que apontou a criação de 255 mil vagas formais em fevereiro, abaixo das expectativas de mercado, que giravam em torno de 300 mil. O dado sugere uma moderação no ritmo de crescimento do emprego formal, reforçando sinais de desaceleração gradual da atividade econômica. No acumulado do ano, foram criadas cerca de 370 mil vagas com carteira assinada.
Esse conjunto de informações traz implicações importantes para a condução da política monetária. Nos Estados Unidos, o mercado já praticamente abandonou a expectativa de cortes de juros em 2026, projetando movimentos mais relevantes apenas a partir de 2027, diante de um cenário ainda pressionado pela inflação.
No Brasil, por outro lado, consolida-se a expectativa de continuidade do ciclo de afrouxamento monetário, ainda que em ritmo moderado. A sinalização recente do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforça essa leitura. Ao comparar a autoridade monetária a um “transatlântico” — e não a um jet ski —, Galípolo indicou que mudanças bruscas de direção são improváveis.
Nesse contexto, o cenário mais provável segue sendo de cortes graduais da taxa Selic, possivelmente em movimentos de 0,25 ponto percentual por reunião, à medida que o Banco Central busca calibrar o ritmo de desinflação sem comprometer a credibilidade da política monetária.
A apreciação recente do real também contribui para esse quadro mais benigno. Uma moeda mais forte reduz pressões sobre preços de alimentos e combustíveis, aliviando a inflação e facilitando o trabalho da autoridade monetária, mesmo diante de eventuais repasses externos.
Em síntese, o dia foi marcado por uma melhora significativa nos ativos financeiros, sustentada por fatores externos e reforçada por sinais de desaceleração interna. Ainda assim, a volatilidade permanece elevada, especialmente diante da incerteza sobre a natureza — transitória ou permanente — dos choques recentes.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



