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Jair de Souza

Economista formado pela UFRJ, mestre em linguística também pela UFRJ

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Mirko Casale: as máscaras caídas do imperialismo

Reações da mídia e de líderes ocidentais ao ataque ao Irã expõem contradições morais e o duplo padrão do chamado Norte Global

Mapa mostra o Estreito de Hormuz e o Irã atrás de uma miniatura impressa em 3D do presidente dos EUA, Donald Trump, nesta ilustração 22/06/2025 REUTERS/Dado Ruvic (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

Diga-me como você reage e eu lhe direi quem você é.

Se as reações de mais de dois anos diante do genocídio israelense em Gaza já fizeram cair mais de uma máscara em todo o mundo, as reações atuais à agressão israelense-estadunidense contra o Irã são a prova de que, no Norte Global, aparece uma nova máscara por trás de cada uma que cai.

Vamos rever as melhores reações a esses eventos, ou melhor dizendo, as piores. Embora, nesses casos, costumam ser ditas coisas como: "Garanto que vocês ficarão surpresos", sinceramente, nesta ocasião, surpreender-se de verdade, duvido que vocês fiquem muito surpresos.

Aí vai!

O Ataque contra o Irã (Reações reveladoras)

Tradução ao português e legendas: JAIR DE SOUZA

Tempos difíceis para a imprensa que se orgulha de ser objetiva e independente, que anda distribuindo certificados de bom comportamento, ou calando-se quando outros meios são censurados repetidamente.

O ataque dos Estados Unidos e seu porta-aviões no Oriente Médio, que se autodenomina Israel, contra o Irã, abriu um novo e extenso capítulo no Grande Livro das Dubiedades Morais da Imprensa Hegemônica, que, se ainda não existe, alguém faria bem em escrever.

Embora muitos veículos de comunicação tenham tentado parecer objetivos em sua cobertura, falharam na tentativa, como apontaram diversos usuários de redes sociais. Tomemos os "exemplos" da BBC e do New York Times ao cobrirem o bombardeio israelense-estadunidense a uma escola iraniana, que deixou mais de 150 mortos, a grande maioria alunas do ensino fundamental, além de professores e familiares. Um crime que, se tivesse ocorrido em Londres, Nova York, Paris ou Berlim, teria merecido condenação inequívoca, assim como uma cobertura detalhada de cada vítima, incluindo seus nomes, idades, planos e sonhos para quando se tornassem adultas, sonhos que lhes foram roubados por Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

No entanto, esses dois veículos de comunicação anglo-saxões supostamente imaculados, que se consideram o ápice do jornalismo mundial, estamparam suas manchetes informando com frases do tipo: "O Irã diz".., insinuando que poderia não ser verdade, que com esses iranianos, nunca se sabe, e "Ataque relatado"..., como duvidando de que o ataque realmente e, caso tivesse ocorrido, omitindo o misteriosíssimo dado sobre quem seriam seus autores.

Obviamente, não faltará quem venha a dizer que não poderiam dar a informação sem ter certeza, que como grandes profissionais deveriam esperar pela confirmação antes de publicar uma manchete com certeza. E isso seria algo a se considerar, se não fosse pelo fato de que, dois minutos depois, por assim dizer, abordaram de uma maneira completamente diferente um ataque iraniano que deixou várias vítimas israelenses.

Neste caso, ambos noticiaram o fato como certo, sem hesitação, nada dessa bobagem de "Israel diz que", e além disso, não omitiram o perpetrador, senão que o mencionaram sem qualquer tentativa de lançar dúvidas sobre a autoria.

Outro veículo de mídia altamente respeitado, The Guardian, em sua cobertura minuto a minuto, ao noticiar as condolências do presidente cubano ao povo e ao governo iranianos, afirmou que Miguel Díaz-Canel condenou... (E prestem muita atenção, pois o que vem a seguir é uma citação textual) "o que o mandatário denominou como o assassinato de Ali Khamenei".

Ah, como é? Mas eles duvidam que tenha sido um assassinato? O fato público e notório de que bombardear a residência do líder espiritual iraniano e tirar sua vida constitui, objetivamente, um assassinato não os convence totalmente, e então, eles esclarecem que um termo tão controverso quanto "assassinato" é meramente a discutível opinião do Chefe de Estado de Cuba? Inacreditável, não é? Bem, essa tem sido a tendência da mídia ultimamente, e espere, tem mais por vir.

Afinal, a grande mídia é um reflexo fiel dos poderes políticos e financeiros, e vice-versa. Neste caso, não nos concentraremos naqueles que justificam e apóiam abertamente Trump e Netanyahu, as Kaja Kalas e os Mark Ruttes deste mundo, porque não há nada aí a acrescentar que vocês já não saibam. O que vamos abordar são essas condenações que começam como firmes rejeições da agressão contra o Irã e que, em questão de segundos, se transformam em condenações do próprio Irã.

Sinal dos tempos de sequestro em que vive a política do Ocidente Coletivo e muito mais. Por exemplo, o Presidente do Governo espanhol, que, a bem da verdade, foi um dos poucos a condenar os ataques dentro do "jardim" europeu, o que também lhe valeu ataques verbais e ameaças, claro, de parte de Donald Trump, relativamente à utilização de bases estadunidenses em Espanha.

Veremos o que acontece agora. Se Madrid vai se manter firme em sua postura, ou se diz uma coisa em público e faz outra em privado, como já aconteceu nos passados meses em relação a Gaza. Mas também, a bem da verdade, a forma como o líder espanhol condenou o ataque contra o Irã sugere que o seu prestígio pessoal e político lhe preocupava muito mais do que garantir que a sua condenação tivesse repercussão.

Assim, Pedro Sánchez qualificou o ataque contra o Irã, sem mencionar os agressores, como perigoso e injustificado, mas na mesma frase declarou... (Sem que ninguém lhe tivesse perguntado), que, na sua opinião, o regime iraniano é odioso.

Curiosamente, nesses mesmos dias, nas suas redes sociais, voltou a criticar o Irã, acusando-o de atacar outros países da região do Golfo. No entanto, nessa mesma publicação, ele teve o cuidado de não expressar sua opinião sobre os sistemas de governo, a situação das mulheres e os padrões democráticos da Arábia Saudita ou do Kuwait. Vejam só! Talvez tenha se esquecido.

Um caso semelhante foi o do presidente chileno Gabriel Boric, que publicou um tweet expressando sua oposição ao ataque de Washington e Tel Aviv, e, também sem que ninguém lhe perguntasse, ele acabou dedicando 80% da publicação a rotular o Irã como um regime discriminatório, opressor e massacrador. Uma bela maneira de se opor aos bombardeios, não é? Conseguem imaginar? Por favor, parem de bombardear esse regime que discrimina, oprime e massacra. Tamanha atenção vão lhe dar com semelhante apelo!

Pessoalmente, acho muito difícil imaginar que, se Sánchez, Boric e outros que se expressaram de forma similar tivessem sido presidentes em, sei lá, setembro de 2001, ao condenaram os ataques terroristas às Torres Gêmeas, dois segundos depois, teriam esclarecido ao mesmo tempo que isso não significava que estavam se esquecendo dos crimes cometidos pela Casa Branca ao redor do mundo.

É verdade que vocês também não conseguem imaginar isso? E tenham certeza de que eles também não conseguem se imaginar nessa atitude. Como vêem, assim funcionam as coisas nas esferas do poder midiático e político no Norte Global.

Alguns abertamente entregues àquilo que as redes sociais já chamam de Coalizão Epstein, a Aliança Trump-Netanyahu; outros sendo cúmplices desses dois sujeitos, enquanto tentam manter as aparências para o consumo público; e, finalmente, um grupo que acredita estar sendo desafiador, quando, no fundo, intencionalmente ou não, acaba fazendo o jogo dos agressores. Porque estão mais preocupados com sua imagem pública do que em mudar qualquer coisa no planeta.

Hoje, a realidade é que a Coalizão Epstein lidera sozinha o que, até pouco tempo atrás, se vangloriava de ser a civilização do Ocidente Coletivo, o Primeiro Mundo, o Mundo Livre, ou o conjunto das democracias liberais.

E essa dupla com inclinações apocalípticas, que hoje cavalga por cima de todos eles, está disposta a fazer o que for preciso para garantir seus privilégios e impunidade pelo maior tempo possível.

Assim, cai mais uma máscara daqueles que sempre juraram compartilhar e defender uma série de valores como o direito internacional ou os direitos humanos, valores que eles agora contribuem a pisotear, de forma ativa ou passiva. E por trás dessa nova máscara que cai, surgirá outra, porque por trás de cada uma sempre resta algo novo a esconder e a descobrir.

Tradução ao português e legendas:

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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