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Roberto R. Martins

Autor de Liberdade para os Brasileiros – anistia ontem e hoje

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Mordaça

O livro "Mordaça" aborda apenas compositores, embora haja referência a cantores e cantoras

Mordaça
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Acabei de ler um livro com este título. Muito interessante, merece ser lido por quem gosta da música popular brasileira. O subtítulo revela seu conteúdo: “Histórias de música e censura em tempos autoritários”. Os autores, dois jovens: João Pimentel e Zé McGill. O segundo, nascido nos EUA, mas criado no Rio de Janeiro desde os três meses de idade, filho de uma norte-americana com um brasileiro que lá morou. O conheci criança, amigo do meu filho, também com 2 a 3 anos de idade.

Mas vamos ao livro, da Sonora Editora (2021), que me foi ofertado pelos pais, amigos. Depois de entrevistarem 29 compositores, os mais renomados do período, expõem as peripécias de cada um diante da censura e da repressão política da ditadura militar. Claro que tudo se agravou após o AI-5, em 13 de dezembro de 1968, quando então foi criado o Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP), que se manteve até 1988, já no governo Sarney.

O primeiro entrevistado é o advogado João Carlos Muller, que foi da Philips e depois PolyGram, gravadora de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, Nara Leão, Raul Seixas, Belchior. Gente da melhor estirpe e dos mais visados pela censura e repressão. As peripécias foram muitas. Alguns êxitos, mas a censura sempre vetando letras ou trechos delas.

Segue-se Chico, um dos mais visados pela censura. Acredita ele que o problema se agravou depois que liberaram “Apesar de Você”, ainda no tempo mais leve, e depois ficaram com aquela trava na garganta, até proibirem o samba, mas ele já estava amplamente divulgado. Então tudo que vinha de Chico era minuciosamente verificado e, na maioria das vezes, vetado. Preso em 1968, depois de solto, recebe um convite para Cannes, na França. Ele pede licença ao Exército e aproveita para se autoexilar em Roma, onde fica ano e meio, inclusive com o nascimento de sua primeira filha, com Marieta Severo, em março de 1969. Retorna em 1970. Ainda é tempo duro, sofre muito com a censura e a repressão. Talvez o melhor exemplo seja “Cálice”; sua letra levou muitos anos para ser liberada. A música saiu, sem letra, que ia circulando na surdina. Me lembro que no Presídio Político de São Paulo, onde me encontrava em 1977, a letra chegou com os sobreviventes do Massacre da Lapa (dezembro de 1976).

O livro aborda apenas compositores, embora haja referência a cantores e cantoras, como Nara Leão, Elis Regina, Bethânia, Gal Costa e vários outros. A exceção entre os grandes compositores da MPB é Milton Nascimento, talvez por suas condições de saúde, já impossibilitado de conceder entrevistas quando o livro foi feito, entre 2018 e 2020.

A Chico segue-se Ivan Lins, depois João Bosco, de “O Bêbado e o Equilibrista”, feito em homenagem à morte de Chaplin, sobre o qual dizem os autores:

“Curiosamente, o samba chapliniano que se tornara o hino da anistia brasileira também seria o que apresentaria ao Brasil um de seus filhos mais fabulosos. Betinho foi um símbolo da luta contra a fome e a miséria e um facho de esperança de um país que voltava a se acreditar possível.”

Depois de entrevistarem um gravador e um funcionário encarregado de muitas peripécias nos contatos com a censura, chegam a Carlos Lyra, que sofreu muita censura, ao ponto de os autores do livro afirmarem que ele “é um exemplo contundente de como a censura pode prejudicar de maneira decisiva a trajetória de um artista”. Segue-se Marcos Valle, quando é informado sobre o manifesto contra a censura que fizeram em 1971 por ocasião do Festival Internacional da Canção (FIC). Resultado: todos vão parar no DOPS — Edu Lobo, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Marcos Valle e seu irmão Paulo Sérgio, Capinam e “um monte de gente”. Segue-se Joyce Moreno, que, numa análise final sobre o período do AI-5, diz: “A gente teve um século XX de ouro e agora estamos em plena marcha da decadência a passos largos.”

Nelson Motta é o seguinte, seguido por Jards Macalé, depois Jorge Mautner, todos com letras cortadas ou vetadas. Mautner conta sua estada no exílio, onde recebeu auxílio de Violeta Arraes, irmã do governador deposto de Pernambuco, Miguel Arraes, solidária com os perseguidos políticos brasileiros.

Caetano, que junto com Gil foi preso 15 dias após o AI-5 em São Paulo, sem acusação formal, foi remetido para o Rio, onde estiveram no quartel da PE, futuro DOI-CODI/RJ; depois foram remetidos para a Bahia, onde passaram quatro meses em prisão domiciliar; de lá foram “sugeridos” a seguir para Londres, onde se exilaram. Em 1972, Caetano voltou antes; Gil demorou alguns meses mais. Note-se que a dupla, mais Gal e Bethânia, além de Tom Zé, marcou um novo movimento musical, o tropicalismo, que de início não era bem-visto pela esquerda, focada na MPB; e também pela direita, que tinha sua predileção na Bossa Nova e na Jovem Guarda. Mas os militares os consideravam revolucionários e impuseram o exílio. Caetano disse: a “censura tem uma vocação bem dominante de tiro que sai pela culatra”, pois suas investidas ampliavam, em larga escala, o interesse pelas músicas vetadas. Gil, depois de considerar a luta “árdua” contra a repressão, asseverava: “A censura é a reação do Mundo Velho contra a possibilidade de um Mundo Novo.”

Seguem-se Odair José, já na fase em que a censura vetava não apenas as questões de ordem política, mas também o que afetava “a moral e os bons costumes”. Vem após Nei Matogrosso, bastante afetado neste ponto e que declara, ao fim, ao referir-se aos que então pediam a volta do regime militar:

“Essas pessoas não sabem o que estão pedindo. Elas não sabem do que se tratou, da quantidade de gente que foi torturada, assassinada, jogada viva de dentro de aviões. Essas pessoas não sabem o que estão armando para si mesmas.”

Seguem-se dois Geraldos: Vandré e Azevedo. O primeiro, o grande herói da fase dos festivais, que em 1968 teve seu verdadeiro hino, um dos motivos do AI-5, “Pra não dizer que não falei das flores” ou “Caminhando”, classificado em segundo lugar por imposição dos militares; e um total de 81 canções vetadas pela censura. Já Azevedo juntou-se ao colega como violonista, participando do início de sua primeira turnê pelo país, antes de refugiar-se no exterior. Geraldo Azevedo sofreu duas prisões; a segunda, no DOI-CODI do Rio de Janeiro, onde conheceu, entre outros, duas personagens, casualmente meus conhecidos, companheiros e amigos: Gildásio Cosenza, ainda hoje vivo, residente no Rio, e Armando Fructuoso, líder sindical dos carris urbanos — os antigos bondes — muito torturado:

“Ele não resistiu e morreu por lá mesmo, do nosso lado. Estávamos encapuzados, não víamos nada, mas ouvimos a conversa dos torturadores: ‘Pô, vocês são incompetentes, mataram um cara importante, que tinha muita informação’.”

Ao sair da prisão, Geraldo tomou um susto ao deparar com um cartaz com o rosto de Fructuoso como sendo “procurado”.

Alceu Valença segue-se. Apesar de não ter atuação política, era um humanista, defensor da liberdade e das questões ambientais, sofrendo, portanto, muita censura. Então vem Ricardo Villas, que ainda estudante — no Colégio de Aplicação, Rio de Janeiro — forma o conjunto Momentoquatro, juntamente com Zé Rodrix, Maurício Maestro e David Tygel, que têm como sucesso inicial acompanhar Edu Lobo e Marília Medalha em “Ponteio”. Mas ele, uma vez universitário, entra na Dissidência Comunista do Rio de Janeiro (precursora do MR-8) e, pouco mais adiante, preso, é um dos 15 trocados pelo embaixador ianque sequestrado.

Segue Solano Lopes. Depois, Paulinho da Viola, que teve poucas músicas censuradas e ainda pegou o fim do período dos festivais, onde marcou presença com “Sinal Fechado”, uma sátira política expressiva:

— Olá, como vai?

— Eu vou indo... e você, tudo bem?

— Tudo bem, eu vou indo correndo

pegar meu lugar no futuro, e você?

— Tudo bem, eu vou indo em busca

de um sono tranquilo, quem sabe...

— Quanto tempo...

— Pois é, quanto tempo...

Paulo Sérgio Pinheiro vem a seguir e comenta a fala de um censor: “Vamos manter o veto para todos os efeitos, assim não sobra pra gente.” Ao que ele comenta: “Como é que eu poderia argumentar contra uma idiotice desta?”. Segue Eduardo Gudin, depois Martinho da Vila, cuja entrevista foi dada já aos 80 anos, em 2018. Ele foi sargento do Exército, mas saiu para compor e cantar. Registra, em meio a várias censuras: “Nos tempos da repressão, esses artistas produzem mais”. E cita um estudo que fez incluindo a censura ao cinema e ao teatro.

Beth Carvalho é a única mulher entrevistada. E já em fins de sua vida, doente, à porta da morte. Mas fala de muita gente que gravou e de tantos outros... Desde o Teatro Opinião, com Nara, Bethânia, Marília Medalha... Relembra Clara Nunes e Alcione, e registra Cartola, Nelson Cavaquinho, Manacéa, Wilson Moreira, Nei Lopes, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Monarco, “muitos deles lançados por ela”. Conta o episódio da bomba que estourou no colo do terrorista que pretendia matar milhares no show do 1º de maio (noite de 30 de abril) de 1981. E conclui com declaração significativa:

“A minha escolha pelo samba, lá no início da carreira, teve a ver com o sentido revolucionário e popular, com sua importância social-histórica. Por isso me deixa muito triste ver sambista votando num sujeito como Jair Bolsonaro, um cara preconceituoso, racista, apoiado pela mesma turma que sustentou a ditadura militar.”

A parte final é dedicada a músicos que enfrentaram a parte final da censura e que, saindo da MPB, sofrendo a influência “underground”, aderem a novos ritmos, como o punk e o reggae, entre os quais Evandro Mesquita, Leo Jaime, Philippe Seabra, Clemente Nascimento e BNegão, ainda vítimas da censura, embora mais voltada para “a moral e os bons costumes”.

Como posfácio, os autores tratam da “censura nos anos Bolsonaro”, já que o livro foi escrito durante o governo autoritário. Vários registros são feitos no período, não apenas de censura à música, mas também a filmes, teatro e livros, período em que o Movimento Brasileiro Integrado pela Liberdade de Expressão Artística (MOBILE) contabilizou 129 denúncias de censura artística.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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