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Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

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Na democracia, não!

Morte sob custódia do Estado levanta alerta e exige investigação rigorosa em plena democracia

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado pela PF como "sicário" de Daniel Vorcaro (Foto: Divulgação)

Morreu sob a custódia do Estado Brasileiro. Não. Não vamos contar mais uma história dramática dos tempos da ditadura civil-militar do Brasil. Para alguns, o tema está “démodé”. O que estamos falando agora é da morte de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, ocorrida na quarta-feira à noite, após ser preso, apontado pela Polícia Federal como responsável por monitorar e planejar ataques contra adversários do banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo informou a corporação, ele "atentou contra a própria vida" quando estava na carceragem da Superintendência do órgão em Belo Horizonte e foi levado a um hospital. Detalhe: para se matar, teria usado a própria camiseta. Ao melhor estilo do tempo das trevas dos anos de 1970. O que se precisa dizer agora, em alto e bom som é uma única palavra de ordem: “Na democracia, não!”

O necessário agora é o que a ditadura jamais permitiu que fosse feito: apurar as circunstâncias dessa morte.

O suspeito de codinome “Sicário” foi preso na terceira fase da operação Compliance Zero, que investiga as fraudes do Banco Master, na quarta-feira. Ele é apontado como uma espécie de capanga de Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, preso no mesmo dia. 

Luiz Phillipi sabia demais. Com um passado de entradas na Polícia desde a adolescência, até então por pequenos delitos, frequentava a alta sociedade, dando pinta de empresário do ramo de compra e vendas de automóveis e o imobiliário. (O mesmo do pai de Vorcaro, mas é só coincidência).

Sicário recebia de Vorcaro a quantia de R$ 1 milhão por mês, havia sido policial federal e, portanto, conhecia os meandros da instituição onde estava detido. Não se pode dizer que ele teve uma “crise existencial”, pois não cai bem o perfil, para um “matador de aluguel”, dado a serviços do tipo: “quebrar todos os dentes” de um jornalista ou “moer” uma trabalhadora de serviços domésticos.

Da última vez que tivemos uma “epidemia” de presos suicidas, com suas próprias peças de roupa ou objetos pessoais a ditadura comia solta. A primeira foi Anatália Melo Alves, militante morta em 13 de dezembro de 1973, nas dependências do Destacamento de Operações de Informações–Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) de Recife. 

Após ser deixada sem água e sem comida, foi seviciada durante toda uma noite, vindo a falecer nas primeiras horas da manhã do dia seguinte. Causa da morte: “suicídio”. Ela teria usado a alça da sua bolsa numa ida ao banheiro, para se matar. Seu laudo cadavérico localizado por mim, no Arquivo do Estado de Pernambuco, mostra seu cadáver numa cama de campanha, nas dependências do DOI-CODI, em posição de defesa, com as roupas íntimas descidas e a área genital queimada (uma tentativa tosca de apagar o vestígio deixado por seus verdugos). Eu estive com a sua bolsa nas mãos. A alça mal daria uma volta em seu pescoço.

A morte de Manoel Fiel Filho ocorreu apenas 3 meses após a de Vladimir Herzog, sob circunstâncias parecidas e no mesmo local. No dia seguinte à prisão, no dia 16 de janeiro de 1976, Manoel morreu na carceragem do DOI-CODI. Assim como havia ocorrido com o jornalista Vladimir Herzog, assassinado no mesmo local três meses antes, os militares divulgaram uma versão falsa de suicídio. Segundo o Exército, o metalúrgico teria se enforcado com as próprias meias.

Também Vladimir Herzog teria se suicidado usando um cinto do macacão que vestia na condição de preso, em 25 de outubro de 1975. Mesmo não tendo causado a comoção que houve com a morte de Herzog, a de Manoel Fiel Filho foi responsável pelo afastamento do comandante do 2° Exército, o general Ednardo D’Ávila Mello, quatro dias após a morte do metalúrgico. Ednardo era responsável pelos maus-tratos dos presos políticos do DOI-CODI.

Anatália, Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho foram mortos pela repressão, lutando pela causa da liberdade. Já Luiz Phillipi Mourão, era um malfeitor, a serviço de um banqueiro que subiu vertiginosamente e usou e abusou das instituições, ao que parece, para manter o caminho livre para o sucesso da sua “pirâmide”. Tanto a financeira, como a que escalou, socialmente.

Todas as vidas importam. Mesmo a de Luiz Phillipi que, ao final, poderia ter prestado o serviço da delação, jogando luz no esquema que, pelo que as investigações dão a entender, ele conhecia como ninguém. Morreu sob a custódia do Estado. E se na ditadura não era permitido saber em que circunstâncias, na democracia exigimos esclarecimentos sobre o que se passou naquela cela individual, onde o preso atentou contra a sua vida, pelo que diz a PF, com a sua própria camiseta. Não estive com ela nas mãos, tal como pude examinar a bolsa de Anatália, mas quero muito entender como se morre se enforcando com uma camiseta. Queremos detalhes dessa morte. Ainda que macabros.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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