Banco Central: quem vigia o supervisor?
Quanto mais autonomia tem um banco central, mais sua credibilidade depende de disciplina interna. Galípolo soube identificar as irregularidades e enfrentá-las
A suspeita de que dois servidores da área de supervisão bancária do Banco Central possam ter recebido vantagens indevidas no caso do Banco Master revela um paradoxo institucional pouco discutido. O papel do supervisor bancário torna-se ainda mais crucial à medida que aumenta a autonomia da autoridade monetária. Quanto mais independente um banco central se torna da política, mais sua credibilidade passa a depender de sua própria disciplina interna. Em outras palavras, cabe ao supervisor equilibrar independência institucional com rigor absoluto na fiscalização.
A investigação faz parte da 3ª fase da Operação Compliance Zero, que apura o colapso do Banco Master, um banco de médio porte colocado em liquidação em novembro após graves problemas em seu modelo de captação e fortes suspeitas de operação fraudulentas. Autoridades estimam que as operações da instituição deixaram um rombo superior a R$ 50 bilhões no sistema financeiro, parte do qual acabou absorvida por mecanismos de proteção a depositantes, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Os dois servidores investigados atuavam justamente no departamento responsável por supervisionar bancos e monitorar instituições financeiras.
Segundo investigadores, os servidores teriam mantido contato direto com o controlador do banco, Daniel Vorcaro, discutindo estratégias regulatórias e revisando documentos que posteriormente foram apresentados ao próprio regulador. O Banco Central afirma que identificou indícios de irregularidades durante uma revisão interna do processo de supervisão relacionado à liquidação do Banco Master. Os dois funcionários foram afastados de suas funções e o material foi encaminhado à Polícia Federal.
O episódio atravessa duas gestões na autoridade monetária. Parte das revisões de supervisão envolvendo o Banco Master começou quando o Banco Central era presidido por Roberto Campos Neto, entre 2019 e 2024, período em que foi implementada a autonomia formal da instituição. A liquidação do banco e a investigação interna ocorreram já sob a administração seguinte.
Sob a presidência de Gabriel Galípolo, as irregularidades foram identificadas durante uma revisão interna da supervisão, o que levou ao afastamento dos servidores e ao envio das evidências às autoridades federais.
Autonomia e risco
O Brasil concedeu autonomia formal ao Banco Central em 2021, estabelecendo mandatos fixos para sua diretoria e reduzindo interferências diretas da política monetária no ciclo eleitoral. A reforma foi amplamente vista pelo mercado financeiro e investidores internacionais como um avanço institucional, aproximando o país de padrões de governança típicos de economias desenvolvidas.
Mas a independência institucional tem um efeito colateral inevitável. Ao reduzir o controle político direto, aumenta o peso da governança interna. A credibilidade de um banco central passa a depender não apenas de suas regras formais, mas também da integridade de quem as aplica.
Supervisores bancários operam inevitavelmente em uma zona cinzenta. Para compreender balanços complexos, estruturas de financiamento e modelos de risco, precisam manter diálogo constante com as instituições que fiscalizam. Essa proximidade cria um risco conhecido na economia regulatória: a chamada captura regulatória, quando quem fiscaliza passa — conscientemente ou não — a agir em favor das instituições supervisionadas.
Instituições tentam mitigar esse risco por meio de decisões colegiadas, regras de conflito de interesse e estruturas internas de compliance. Episódios como o do Banco Master, no entanto, lembram uma verdade persistente da supervisão financeira: bancos são governados por regras. Reguladores, por instituições. No fim das contas, porém, a eficácia dessas salvaguardas ainda depende de algo muito menos previsível: as pessoas que operam o sistema.
Para Gabriel Galípolo, o caso também representa um teste inicial desse princípio. A credibilidade de um banco central independente não se mede pela ausência de problemas, mas pela capacidade da instituição de identificá-los e agir rapidamente.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



