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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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Nenhum economista tem a coragem de Maria da Conceição Tavares

Hoje, os tecnocratas incrustrados na burocracia estatal rezam pelas cartilhas do Banco Mundial, do FMI, da OCDE, do BID

Maria da Conceição Tavares (Foto: Blog da Boitempo)

Os tecnocratas costumam ser irritantes, a despeito de às vezes serem necessários. O debate econômico no Brasil, ao menos o que é publicado pela imprensa, irrita por se dar predominantemente entre tecnocratas da área econômica de formação ortodoxa, aos quais se somam tubarões do mercado financeiro. Temos economistas heterodoxos brilhantes, desenvolvimentistas de vasta produção acadêmica, mas a mídia restringe-se aos herdeiros intelectuais de Milton Friedman, ícone da economia desumana. 

Hoje, os tecnocratas incrustrados na burocracia estatal rezam pelas cartilhas do Banco Mundial, do FMI, da OCDE, do BID. A ortodoxia é o paradigma de referência para a maioria deles. Esse fato é constatável por levantamentos de formação acadêmica, análise de trajetórias profissionais, estudos sobre circulação de elites ou um simples olhar para as decisões de política econômica.

Certa, certíssima, estava Maria da Conceição Tavares, que nos deixou em 2024, aos 94 anos. A espirituosa economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutora pela Universidade de Paris / Sorbonne e professora da Unicamp, cutucava com tanta perspicácia a ferida tecnocrática-neoliberal que acabou se tornando deputada federal pelo PT de 1995 a 1999, tendo antes sido uma das vozes econômicas mais influentes durante a redemocratização, leia-se governo Sarney. Na Câmara, falou poucas boas.

“A economia que não se preocupa com a justiça social é uma economia que condena os povos. […] Uma economia que diz que primeiro é preciso estabilizar, depois crescer, depois distribuir é uma falácia e tem sido uma falácia, pois nem estabiliza, nem cresce de forma consistente e não distribui. Esta é a história da economia brasileira desde o pós-guerra. Se você não se preocupa com a justiça social, com quem paga a conta, você não é um economista sério, você é um tecnocrata”, ensinou Conceição, para estupefação de inúmeros adeptos da doutrina de “primeiro, fazer o bolo crescer”. 

Sua “homenagem” aos tecnocratas viria em frases como esta: “Se você não se preocupa com a justiça social, com quem paga conta, você não é um economista sério. Você é um tecnocrata”. A economia como matéria humana, não um amontoado de projeções matemáticas, era por ela reconhecida e transmitida a partir de máximas como “A economia deve servir à vida humana e não o contrário” ou “Ninguém come PIB — come alimentos”. 

Seu pensamento foi bem resumido em participação no programa Roda Vida, da TV Cultura, em 1995: “A economia que não se preocupa com a justiça social é uma economia que condena os povos a isso que está ocorrendo no mundo inteiro: uma brutal concentração de renda e de riqueza, o desemprego e a miséria. E isso está ocorrendo até no Norte, não é só no Brasil não — nos Estados Unidos, na França e na Alemanha. Isto, para mim, não é economia. Isto é coisa de tecnocrata alucinado que acha que está tudo ok, e não está nada ok.”

Corajosa, sincera, irreverente.

Em 1974, Maria da Conceição Tavares foi presa no Dops, como era corriqueiro entre acadêmicos não alinhados à ditadura. O então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, antagonista intelectual dela, mas ainda assim um colega de profissão, interveio perante o presidente-general-ditador Ernesto Geisel por sua soltura, com sucesso. Ao encontrar-se com Simonsen depois disso, suas palavras foram estas: “Olá, Mário, tudo bem? Nem vou agradecer porque você não fez nada mais do que sua obrigação”. 

Sempre é hora de lembrar Maria da Conceição Tavares. E de constatar que nossos quadros atuais não possuem nem uma faísca do seu brilho.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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