Neymar e o machismo perna de pau
Carlo Ancelotti tem nas mãos a possibilidade de educar o “monstro” que a mídia esportiva criou, escreve Ricardo Nêggo Tom
Era setembro de 2010, quando o técnico Renê Simões – então treinador do Atlético-GO - proferiu a frase mais significativa do futebol brasileiro nos últimos trinta anos: “Nós estamos criando um monstro”. A manifestação do experiente profissional do futebol foi motivada por atitudes mimadas e desrespeitosas de um menino de 18 anos, que despontava como a grande promessa do futebol brasileiro. Naquele jogo, Neymar havia sido impedido por Dorival Júnior – então técnico do Santos – de cobrar um pênalti, e reagiu de forma absurdamente mal educada à decisão do comandante santista. Na oportunidade, Renê Simões disparou: “Eu estou no futebol desde garoto, e poucas vezes vi alguém tão mal educado desportivamente como esse rapaz Neymar. Eu trabalhei muito com jovens, venho a minha vida toda acompanhando, e acho que está na hora de alguém educar esse rapaz ou nós vamos criar um monstro. Nós estamos criando um monstro no futebol brasileiro”
Após 16 anos da polêmica declaração, vimos que o vaticínio de Renê se materializou. Ninguém se propôs a “educar” aquele rapaz, pelo contrário, o seu entorno, sempre composto por “parças” e “baba ovos” de plantão – incluindo jornalistas esportivos – cuidou para que a profecia de Simões se concretizasse e o futebol brasileiro ficasse refém de um craque mimado, sem limites, e sem o perfil de ídolo do esporte mais amado no país. De 15 de setembro de 2010 a 02 de abril de 2026, nada mudou no comportamento mal educado de Neymar. Na última data, ao sair de campo após a vitória do Santos sobre o Remo, na Vila Belmiro, o eterno menino mostrou toda a sua falta de educação ao disparar contra o árbitro e dizer – em meio a gargalhadas – que o juiz “acordou de chico e veio pro jogo”. Aos 34 anos de idade, Neymar segue se comportando como o mesmo moleque de 18 que mandou Dorival Júnior ir “tomar suco de caju”, ao ter a sua vontade contrariada.
Além de mal educada desportivamente, a fala de Neymar é ofensiva às mulheres, reforça estigmas de inferioridade e desequilíbrio emocional feminino e bota mais lenha na fogueira do debate sobre misoginia na nossa sociedade. No país onde o feminicídio mata, em média, 4 mulheres por dia, aquele, que para muitos, é o maior craque do futebol brasileiro, contribui ainda mais para a discriminação de gênero e para a associação da natureza feminina a algo negativo. Essa declaração, entre outras, tão desastrosas quanto, não teria sido dada se o “profeta” Renê Simões tivesse sido ouvido, e os responsáveis por educá-lo – social e desportivamente – tivessem cumprido com a sua obrigação. Inevitável não citar a “ideologia” política que Neymar professa, e que potencializa seu caráter e personalidade, cada vez mais alinhados com discursos que vão de encontro à evolução da sociedade e a eliminação de preconceitos dentro dela. Sobretudo, do machismo e da misoginia, os principais instrumentos de violência contra as mulheres.
Em um vídeo publicado em suas redes sociais, o menino Ney - o jogador que muitos ainda estão pedindo a sua convocação para a copa - "desabafa" que não é tratado como um ser humano normal, que é perseguido pelo que faz nos seus dias de folga e pergunta para o trabalhador brasileiro: “Você trabalha nos seus dias de folga?”. A alienação social de Neymar chega a ser ridícula. Tanto, que ele desconhece que a maioria dos brasileiros que não nasceram com o seu dom para jogar futebol, precisa fazer "bico", freela, extra, uber, criar conteúdo nas redes, e se virar de outras formas possíveis para complementar a sua renda. E o faz, sim, em dias de folga, menino Ney. Porque nem todo mundo ganha R$ 27 milhões por mês, e pode desfrutar de sua folga jogando pôquer por 16 horas como você faz. Falta consciência social e maturidade a um Neymar que ainda fala com voz e trejeitos de adolescente, e se percebe como uma “Alice no país das maravilhas”, onde a média salarial da população é menor do que dois salários mínimos. Uma quantia que Neymar deve gastar diariamente em doces para manter acesa a chama da infantilidade dentro de si.
No mesmo vídeo, Neymar também reclama que não teve infância, nem adolescência, e que enquanto os outros garotos da sua idade se divertiam, ele estava treinando ou descansando para treinar no dia seguinte. Esqueceu de falar que aos 13 anos, seu pai recebeu R$ 1 milhão do presidente do Santos, Marcelo Teixeira, para manter o garoto no clube e não o negociar para a Europa. Uma vez que o poderoso Real Madrid já despertava interesse pela jovem promessa. Aos 14 anos, ele assinou seu primeiro contrato com o clube, onde recebia R$ 8 mil mensais e mais R$ 800 mil de luvas, em duas parcelas de R$ 400mil. Com 16 anos, Neymar passou a receber R$ 20 mil mensais. Com 17 anos, já nos profissionais, seu salário foi reajustado para R$ 30 mil mensais, fora outras premiações que recebia. É sério que Neymar quer ser visto como normal, numa sociedade onde a maioria dos adolescentes não têm sequer educação pública de qualidade e alimentação digna?
Para piorar, ele evoca o mito da meritocracia ao dizer no vídeo que: "Eu me esforcei para isso", justificando suas conquistas pessoais em detrimento do esforço descomunal que a maioria esmagadora do povo brasileiro faz para sobreviver. É a difusão do discurso neoliberal de que se você é pobre, é porque não se esforçou o suficiente, e que se a prosperidade e o sucesso ainda não bateram na sua porta, a culpa é toda sua. Mesmo que a estrutura da sociedade tenha sido planejada para abrigar com dignidade a poucos, e manter esses poucos e seus descendentes sob privilégios. Para a tristeza de Neymar, o técnico da seleção brasileira, Carlo Ancelotti, também está evocando a meritocracia ao não convocá-lo, e impondo limites às vontades de alguém que acha que pode tudo. No entanto, mesmo não jogando com sequência há uns quatro anos, Neymar acredita que pode ser o craque do time na copa do mundo. Talvez, para fazer em campo as "coisas normais" que gosta de fazer fora dele.
Ancelotti tem nas mãos a possibilidade de educar o “monstro” que a mídia esportiva criou. Renê Simões agradece. E nós também.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


