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Boaventura de Sousa Santos

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No princípio está a alegria e a esperança

A separação entre alegria e esperança corrói a energia coletiva e compromete a capacidade de imaginar e construir uma transformação social duradoura

No princípio está a alegria e a esperança (Foto: Gerada por IA/DALL-E)

Neste começo do ano, é mais visível do que nunca que o casal alegria-esperança está desavindo. Há alegria, mas, sem esperança, a alegria tem a duração de um fósforo aceso. Quando chega à noite, tem de tomar ansiolíticos para dormir. Se procurarmos muito, também encontramos a esperança, mas, sem alegria, a esperança parece um membro da população de rua, um sem-abrigo, embrulhado em trapos tristes e velhos. Quem provocou o divórcio entre a alegria e a esperança? Não sei, mas tenho duas certezas. Primeira, a transformação progressista do mundo tem de ser um produto da complementação da alegria com a esperança. Segunda, a transformação progressista do mundo nunca será o produto do ódio ou do desespero.

Ora, a alegria sem esperança pode ser apenas o regozijo sádico do ódio. E a esperança sem alegria não é mais que o desespero envergonhado de ser quem é.

Sobre a alegria e a esperança

As teorias anteriores postularam sempre a figura ideal do revolucionário. Postularam a sua alegria e a sua esperança sem nada lhe perguntar. Consideraram-no um dado adquirido, mesmo que tivesse de ser totalmente reconstruído. A ideia do “Homem Novo” foi tão apregoada pelos revolucionários russos como pelos nazis. A verdade é que qualquer transformação social tem de ser feita com as pessoas e as realidades que existam num dado momento histórico. Mesmo descontando o preconceito machista, a ideia do homem novo é uma ideia velha que acompanha o narcisismo próprio de novos regimes. A transformação social progressista é feita com pessoas reais, alegres e com esperança.

No início de qualquer acção libertadora está a alegria. Sem alegria, o ser humano não se expande ao ponto de ir para além de si. A alegria não pressupõe excitação. Pressupõe a serenidade de coincidir com o que tem de ser feito. A passividade é o resultado da descoincidência. A alegria é a percepção colorida da vida e do mundo. A alegria não é possível a preto e branco. A razão pela qual sem alegria não se luta é porque só a alegria faz durar o efémero até à eternidade. Um riacho de oportunidade parece um rio e um rio parece o mar. Em suma, só a alegria é criativa e expansiva ao ponto de poder correr riscos que não constam dos contratos das seguradoras. A alegria é o oposto da monotonia. É o ser na plenitude do ser. Na alegria, a liberdade é libertação. Na alegria, o passado apoia o futuro para o futuro poder ser diferente dele. A alegria reconhece os fracassos, mas é a negação do fracasso enquanto destino humano.

A alegria distingue-se do prazer. O prazer, ao contrário da alegria, pressupõe apropriação: ser apropriado como objecto ou apropriar-se de um objecto. A sua duração é a do gozo da apropriação. É dominado pelo seu carácter temporário. A alegria pode ser efémera, mas, porque é incondicional, é eterna enquanto dura. A alegria é sempre plenitude, mesmo na sua efemeridade.

A alegria de que me ocupo aqui é o sangue e o motor da esperança. É a condição necessária da esperança, ainda que não a condição suficiente. A alegria é a máxima imanência, enquanto a esperança é a transcendência: o ser levado à máxima potência. A alegria é presença incontida como emoção; a esperança é emergência como razão dessa emoção. A emergência é sempre um parto, uma luta contra o statu quo no sentido de o expandir, uma invenção que o transcende. Sem a alegria, a invenção desliza facilmente em repetição.

Recorrendo a uma metáfora meteorológica, a alegria é o céu limpo, enquanto a esperança é o nevoeiro – correntes atmosféricas que apontam para diferentes previsões. A alegria é o que permite esperar bom tempo sem descurar a possibilidade da tempestade. Na alegria, a liberdade não tem medo de fracassar. Na esperança, a emergência reside na liberdade condicionada para conformar as condições que permitam evitar o fracasso, ou seja, as contra-condições que levam ao desespero. É por isso que o desespero tende a ser mais duradouro que a tristeza.

Na época que vivemos, a esperança pressupõe uma teoria frágil e uma prática difícil. A alegria dá força à teoria e torna a prática mais fácil. Porque transita da ausência para a emergência, do “nunca” ou do “já-não” para o “ainda-não”, a esperança é sempre, em última instância, uma ruína-semente. A alegria é idealista e imagina as ruínas-sementes como se fossem parques naturais. A esperança é mais realista e sabe que, nesta época, foi preciso desnaturar muito parque antes de o tornar natural.

Tanto a alegria como a esperança nascem de desassossegos. Mas a alegria ignora-os e a esperança transforma-os em energia transformadora. A alegria não reconhece problemas. A esperança precisa da alegria para não conhecer problemas irresolúveis nem dificuldades inultrapassáveis. A alegria não faz perguntas. Graças à alegria, a esperança vive de perguntas a que é capaz de responder. A alegria é conciliação, enquanto a esperança nasce da disputa e da luta e só aceita uma reconciliação mais justa. A alegria não precisa de nada para estar alegre, enquanto a esperança precisa da alegria para continuar a esperançar. É por isso que a alegria é mais fácil que a esperança. Separada da esperança, a alegria rapidamente empalidece; sem alegria, a esperança é um armazém de sonhos embalsamados. A alegria dispensa a sabedoria; a esperança pressupõe-na. Mas, sem alegria, a esperança concebe a sabedoria como um exercício taciturno que justifica a maior probabilidade da derrota, o que pode levar à passividade, ao desespero, à impossibilidade da esperança.

A alegria tem uma amplitude maior que a esperança. A esperança é própria dos humanos, enquanto a alegria é dada aos animais, às montanhas, aos rios, às árvores, às formigas. A alegria não é riso; pode viver-se na mais profunda contemplação. Na esperança, a contemplação é o momento necessário para ganhar forças e continuar na luta.

A alegria é simplicidade benevolente; a esperança é complexidade encorajadora. Não há alegria se houver dúvidas. Ao contrário, não há esperança se não houver dúvidas. A esperança tem de ir à raiz do statu quo. A alegria ignora-o. Não é irresponsável, mas também não se sente responsável pelas razões de estar alegre. Ao contrário do que se passa com a esperança, as razões da alegria não são imperativas. A alegria não conhece a hesitação; a esperança não existe sem ela. Mas, sem alegria, a hesitação leva à desistência, enquanto, com alegria, redobra o esforço da resistência. Tanto a alegria como a esperança são optimistas, mas, enquanto o optimismo da alegria pode ser uma fantasia, o optimismo da esperança assenta na realidade emergente. Por isso, enquanto a alegria é um direito disponível, a esperança é um direito indisponível.

Sem alegria não há impulso para caminhar; sem esperança, esse impulso carece de caminho. Mas é o impulso que cria a necessidade do caminho, e não o contrário. A alegria é a fonte última da liberdade. A alegria da liberdade é o momento da suspensão das perguntas. Por isso, a liberdade da alegria tem de ser constantemente alimentada. A alegria é a única versão positiva da cegueira. Por não conhecer o caminho, está sempre à beira do colapso. Para o evitar, a esperança tem de estar sempre dentro da alegria.

A alegria e a esperança dos oprimidos

Não me ocupo neste texto da alegria em geral. Restrinjo-me à alegria dos oprimidos que resistem e lutam contra a opressão. Nisso reside a ligação indestrutível entre a alegria e a esperança. Vem a propósito comparar a alegria dos camponeses em contraste com a tristeza do dono das suas terras, Levin, na Anna Karenina, de Leo Tolstoy. Exaustos sob os fardos do feno e do cereal fresco, os camponeses cantavam, tal como, mais tarde, cantariam os camponeses do Alentejo. A alegria para resistir à opressão e ao cansaço torna-se potencial revolucionário quando se vê o trilho da esperança. E, tal como sugerido na Anna Karenina, a alegria pode ser contagiosa.

A transformação do mundo tem de ser impulsionada pela alegria e pela esperança, não pelo ódio ou pelo desespero, embora um e outro estejam sempre presentes, ainda que sob controlo se a luta confia no êxito. O problema de Paulo foi que acumulou demasiado ódio aos cristãos antes de se converter. Foi um fanático que “caçava” cristãos para os entregar às autoridades. Recordemos que o objectivo da viagem de Jerusalém a Damasco (mais de 300 km) era prender cristãos e levá-los a julgamento pelo crime de heresia. Sabemos que foi na estrada de Damasco que a conversão ocorreu – a mais dramática conversão de sempre –, mas o ódio original de Paulo contaminou para sempre a cristandade, de que é testemunho a vandalização dos templos gregos e romanos, a chamada Reconquista de Al-Andaluz, a evangelização forçada dos povos colonizados, as guerras religiosas, a Inquisição, as excomunhões. De nada valeu a Paulo ter dedicado a sua vida depois da conversão à mensagem do perdão, da misericórdia e do amor divino. Aliás, é significativo recordar que essa mudança de atitude acabou por se transformar em motivo da perseguição de que ele próprio viria a ser vítima.

O êxito e o fracasso são os dois fantasmas que assombram qualquer luta significativa por uma transformação social progressista que ouse pôr em causa o statu quo injusto para as grandes maiorias. A alegria é possível quando a dialética do fracasso e do êxito se suspende. A suspensão tem de ser total, já que não é possível pensar no êxito sem pensar no fracasso, e vice-versa. A alegria vive dessa suspensão, a qual seria irresponsável se não fosse apenas o momento positivo radical da esperança.

A esperança é o “ainda não” de Ernst Bloch, no Princípio da Esperança, mas seria uma esperança sempre à beira do desespero se se exigisse da esperança a certeza do êxito contra o fracasso quando “ainda não” se sabe o resultado da luta, mesmo sabendo que o resultado é sempre provisório. Mas a esperança tem uma característica única: é capaz de imaginar o êxito antes de ele acontecer. É essa imaginação que dá sentido à alegria. A esperança é a força da inadaptação ao que existe. É inadaptação por se saber que o que existe só existe porque impede outra realidade de existir. Parafraseando Bachelard, a personalidade não é apenas adaptação, é também reorientação num universo de possibilidades. A função do que não existe é relativizar tudo o que existe. É substituir o determinismo por contingência. Essa função cria o distanciamento que torna possível a alegria. Retira peso à realidade e, ao torná-la mais leve, permite inclusivamente que nos divirtamos com ela. A esperança cria distanciamento ainda por outro mecanismo: temporaliza o que se apresenta como perpétuo, torna provisório o permanente.

O desencorajamento nunca se elimina e seria perigoso se isso ocorresse. Como diz Sun Tzu, em A Arte da Guerra, “se não podes ser forte, porém tampouco sabes ser débil, serás derrotado”. Saber ser débil é saber ser humilde perante a dificuldade da tarefa que se enfrenta. A ideia mítica que se tem dos revolucionários faz-nos esquecer que são sempre neles muito mais os momentos de desencorajamento e desespero do que de coragem e de esperança. A alegria é a expansão da abertura ao outro (o outro lado da humildade), mas essa abertura tem o sentido que a esperança lhe dá, porque o ainda-não ou é concreto ou é mero embrião da desilusão. Se a esperança exige humildade, exige também a complementaridade, o acolhimento do outro, a luta contra o orgulho. De fato, o orgulho está nos antípodas da luta, porque se basta a si próprio. Ora, lutar é estar-com-em-luta; lutar é sempre lutar-com. Nem D. Quixote lutou sozinho. O orgulho nunca torna o orgulhoso verdadeiramente alegre, porque a sua alegria só existe na medida da tristeza dos que são humilhados para tornar possível o orgulho. E também não tem esperança, porque a esperança pressupõe a disponibilidade para se desencorajar, para desesperar. Por sua vez, a alegria é contagiosa porque parte da humildade.

Etimologicamente, humildade, humilitas em latim, vem de humus, da terra, de estar perto do chão. A transformação social tem de ser humilde para poder estar perto do chão. O chão é sempre o lugar para onde são atirados os oprimidos. Por isso, a transformação social que advogo aqui tem de estar igualmente fundada numa epistemologia humilde, perto do chão. É o que designo por epistemologias do Sul.

O princípio da esperança e o princípio da alegria são as forças anímicas que mobilizam as epistemologias do Sul. O conhecimento nada faz por si só. Conhecer é pôr à prova o que não se conhece. Mais uma vez, é uma inadaptação, um desassossego, uma necessidade de reorientação, uma relativização do statu quo, um inconformismo. Nada disto é fácil, nem individual nem colectivamente, porque a alegria e a esperança estão sempre mais preocupadas com o fracasso do que com o êxito. O fracasso está sempre à porta, enquanto o êxito está sempre no horizonte. Daí que a alegria e a esperança pressuponham também a disponibilidade para o sacrifício. Transformar o statu quo implica sempre identificar e superar contradições. O sacrifício consiste na determinação de não transferir para outros o fracasso. Daí o princípio da responsabilidade, que se soma ao princípio da alegria e da esperança. A responsabilidade significa a obrigação de dominar as contradições, assumir os erros, refazer estratégias, repensar-se como revolucionário. Assumir a responsabilidade é manter intacta a esperança e antever as alegrias futuras que podem advir da correcção do curso da acção revolucionária.

A possibilidade da alegria futura tem um poder mobilizador extraordinário, sobretudo para aquelas populações a quem foi imposta a tristeza como modo de vida e a alegria como único instrumento de resistência. Para os oprimidos, a perda da alegria é a desistência. A perda da esperança é a consciência da dureza e da permanência da derrota que decorre da desistência ou da simples impossibilidade de resistir. A luta contra a opressão começa sempre com a alegria e a esperança e não acaba enquanto uma e outra durarem. É esse o único nome de futuro digno da luta por ele.

Dizia Heraclito (fragmento 18) que “sem esperança nunca se encontrará o inesperado”. E acrescentava que o inesperado é inacessível, o que não afecta em nada o realismo da esperança. Porque a esperança está para além dos êxitos e dos fracassos. Está no modo como se orienta e constrói a personalidade individual e colectiva da luta por um mundo melhor. Pode mesmo dizer-se que a esperança é indiferente à sucessão empírica de êxitos e fracassos, sempre e quando a alegria mantém o horizonte aberto para a luta. Se não fosse assim, como se compreenderia que povos humilhados, explorados e oprimidos ao longo de séculos mantivessem vivas as suas lutas, a sua esperança e a sua alegria? Só quem nunca viveu ou trabalhou a seu lado acha estranho que o corpo que sofre e que morre é também o corpo que rejubila, que canta e que dança.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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