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Elisabeth Lopes

Advogada, especializada em Direito do Trabalho, pedagoga e Doutora em Educação

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O Agente Secreto e a pedagogia incômoda da memória brasileira

O ataque ao regime democrático opera hoje de maneira mais sofisticada e menos ruidosa, entranhado nas próprias instituições civis

Wagner Moura e Kleber Mendoça Filho (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

O filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado pelo prestigiado ator Wagner Moura, acompanhado por um elenco afinado de grandes talentos da dramaturgia brasileira, materializa na tela os reveses da memória histórica de um dos períodos mais sombrios do país os “anos 1970”, no auge do regime militar em que eram presidentes os ditadores General Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) e General Ernesto Geisel (1974-1979). 

Por meio da atuação magistral de Wagner Moura, o filme retrata a saga de um professor de uma universidade pública do Nordeste, um cientista comprometido com um projeto de país soberano, cujo avanço científico confrontava interesses tanto internos quanto externos. Sob a tutela do imperialismo norte-americano e das elites locais associadas, iniciativas capazes de alterar a configuração do país eram sistematicamente sufocadas. A ciência, como a política, só era tolerada enquanto não ameaçasse privilégios ou o controle do domínio social.

Tempos marcados pela repressão política, pela censura sistemática, pela corrosão dos direitos humanos, pelo saque de corpos e consciências e pela tentativa deliberada de silenciar aqueles que não se curvavam à lógica criminosa e autoritária. Nesse cenário, a diversidade especialmente a de gênero era tratada como ameaça a ser eliminada.

A perseguição a homossexuais, travestis e pessoas trans retratadas em cenas no filme não foi um efeito colateral do regime, mas parte estruturante de um projeto moralizante e violento, sustentado tanto pela ação direta do Estado quanto pela conivência de uma sociedade conservadora, moldada por valores patriarcais, hipócritas e heteronormativos. O filme desnuda esse passado, expondo suas entranhas.

Kleber Mendonça Filho construiu uma narrativa que se recusa ao conforto da nostalgia e aposta numa pedagogia do incômodo. Ao resgatar elementos do imaginário popular, como a lenda da perna cabeluda, o diretor mistura realismo histórico e fabulação crítica, criando um espelho distorcido e por isso mesmo mais verdadeiro das várias nuances das agressões vivenciadas no dia a dia da sociedade brasileira.

Não por acaso, O Agente Secreto tornou-se um fenômeno internacional. Em 2026, acumulou mais de cinquenta prêmios e quatro indicações ao Oscar (Melhor Filme, Filme Internacional, Elenco e Ator para Wagner Moura), além da vitória no Globo de Ouro. 

Esse reconhecimento externo não é apenas artístico, revela como o mundo lê, com clareza desconcertante, aquilo que o Brasil insiste em relativizar a cumplicidade histórica de suas elites com a barbárie.

O longa-metragem tem alcançado públicos diversos, com destaque no Brasil entre pessoas que herdaram as marcas do período autoritário na história de suas famílias, bem como entre aquelas que tomaram conhecimento das violências desse período por meio das pesquisas e investigações da Comissão Nacional da Verdade. Criada pela Lei nº 12.528/2011 e instalada em 2012, durante o governo da presidenta Dilma Rousseff. Esta Comissão teve como missão apurar e esclarecer violações de direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988, assegurando o direito à memória e à verdade histórica e contribuindo para a reconciliação nacional.

Durante quase duas horas de projeção, entre cenas de violência, de perseguição, de roubo da liberdade, das vidas relegadas à clandestinidade, perseguidas pelo sistema, o público se depara com o resgate histórico num labirinto cênico dos anos de chumbo, racionalizado em gavetas na memória do país. 

Os expectadores atentos contrastam com olhos inquietos, atravessados pela indignação diante de uma violência que não pertence apenas ao passado. A cena em que uma patroa presta depoimento após a morte da filha de sua empregada atropelada enquanto estava sob seus cuidados remete diretamente ao caso do menino Miguel Otávio, ocorrido em 2020 no Recife. 

Esse momento atua como um golpe contundente, costurando passado e presente para expor a permanência da dominação da elite financeira, alicerçada no racismo estrutural e na profunda desigualdade social. A história se repete, agora sob o aval tácito de instituições e com a mídia tradicional, em muitos casos, funcionando como porta-voz dos interesses dominantes.

A consternação da plateia cresce à medida que a trama avança. As interpretações viscerais resgatam o inacreditável, a insanidade do corpo deixado sem vida por dias à beira da estrada, a truculência dos órgãos de segurança pública, a banalização do mal, a naturalização da violência. 

A crueldade, afinal, assume múltiplas formas ao longo da história, do neonazismo ao neofascismo, da escravidão aos conflitos bélicos contemporâneos sempre atualizada por elites que tratam vidas humanas como descartáveis. 

Outro aspecto a ser ressaltado em O Agente Secreto, quando comparado a Ainda Estou Aqui, refere-se às diferenças em suas construções narrativas. Enquanto Ainda Estou Aqui se ancora em acontecimentos reais ligados à história da família Paiva, situando-se no campo da memória histórica e do testemunho sobre a violência de Estado, assumindo um compromisso ético com o enfrentamento do esquecimento, O Agente Secreto adota uma abordagem ficcional. Nesse caso, a narrativa desloca o foco da reconstrução factual para a criação de uma atmosfera de suspense, marcada pela paranoia e pela sensação constante de vigilância. 

Nessa perspectiva, a obra opera menos como registro histórico e mais como metáfora, investigando os mecanismos do medo, da desinformação e do apagamento da memória, elementos recorrentes em tempos autoritários. 

Nas cenas finais do filme, Kleber Mendonça estabelece uma ponte entre passado e presente, evidenciando a ironia de uma memória que, embora reprimida por décadas, ressurge quando Flávia pesquisadora que resgatou registros de uma gravação com relatos de Armando e do grupo que protegeu perseguidos políticos conclui seu trabalho e entrega ao filho, Fernando, o arquivo que preserva a história de seu pai. Ao longo do filme, Flávia aparece de forma pontual, desempenhando o papel de mediadora entre a experiência vivida e sua inscrição na memória histórica. Já adulto, Fernando interpretado também por Wagner Moura trabalha como médico em uma unidade de doação de sangue instalada no mesmo prédio que antes abrigava um cinema. 

Ao converter um espaço dedicado à memória em um ambiente voltado à manutenção da vida, o filme constrói uma metáfora sobre a possibilidade de reinscrever o passado no presente, projetando a ideia de reparação diante das marcas deixadas pela história.

Vale ressaltar que a perseguição a cientistas e intelectuais de orientação progressista durante a ditadura militar brasileira apresentada em O Agente Secreto encontra paralelos em experiências autoritárias recentes, como no governo de extrema direita de Jair Bolsonaro. 

Nesse período, as universidades públicas federais e o sistema nacional de pesquisa científica foram submetidos a severas restrições orçamentárias, caracterizadas por cortes sucessivos, contingenciamentos e bloqueios de recursos, configurando um cenário de estrangulamento financeiro que comprometeu tanto a produção científica quanto a manutenção das atividades acadêmicas.

Para além da dimensão econômica, essa conjuntura foi atravessada por intensas tensões políticas, campanhas de deslegitimação do conhecimento científico, negacionismo profundo da ciência durante a pandemia do Covid e embates constantes entre o governo federal e as instituições de ensino superior, frequentemente tratadas como adversárias ideológicas, como espaços de balburdia e anarquia. 

A repressão à autonomia universitária constitui uma tendência recorrente em regimes autoritários, que percebem a universidade e a pesquisa científica como espaços de pensamento crítico, produção de saberes dissidentes e questionamento das narrativas oficiais, razão pela qual buscam controlá-las, enfraquecê-las ou submetê-las a interesses políticos e ideológicos imediatos.

Os 21 anos de regime de exceção representaram a negação mais profunda da razão civilizatória. A tortura institucionalizada, a supressão de liberdades e o aniquilamento de direitos fundamentais não foram desvios pontuais, mas políticas de Estado. Como o filme sugere, tais práticas não desapareceram, elas se reinventam e persistem nas ações contemporâneas de forças de segurança, especialmente em estados governados pela direita e pela extrema direita. Exemplos recentes incluem o massacre policial nas comunidades do Complexo do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, sob o governo de Cláudio Castro (PL), que resultou em 121 mortes; o padrão de atuação violenta da Polícia Militar nas periferias de São Paulo, na atual gestão do bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos); e, mais recentemente, em 04/02/2026, a repressão brutal da Polícia Militar do Paraná, no governo de Ratinho Júnior (PSD), quando agentes foram filmados usando spray de pimenta contra manifestantes, inclusive em direção a mulheres em uma greve de metalúrgicos, sem que houvesse ameaça aos policiais. As imagens também mostram um dirigente sindical idoso sendo imobilizado com um golpe de estrangulamento e algemado pelas costas, mesmo estando no chão e sem oferecer resistência

Em novas circunstâncias, com outros personagens, mas movidas pelas mesmas pulsões autoritárias, as intenções golpistas ressurgem. O ataque às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, e os clamores pela volta do regime militar são expressões contemporâneas de um passado que se recusa a passar. A radicalização no atentado frustrado ao Supremo Tribunal Federal, aos planos de assassinato de autoridades eleitas revela a persistência de uma mentalidade que naturaliza o terror como método político.

Esses episódios não são delírios isolados, mas frutos de uma lavagem ideológica alimentada pelo neofascismo abrasileirado. O ódio, cuidadosamente cultivado, transforma-se em ação direta contra instituições democráticas, também expresso por uma sociedade adoecida em que o maior sucumbe sem remorso, o menor. 

A condenação de militares de alta patente envolvidos em planos terroristas, inclusive contra o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes expôs, mais uma vez, o quanto os porões da ditadura seguem vivos, agora travestidos de legalidade e ressentimento.

Desta vez, contudo, as instituições reagiram. A punição de Jair Bolsonaro e de membros centrais de seu governo por crimes contra o Estado Democrático de Direito representa um marco histórico. Ainda assim, seria ingênuo supor que isso basta. O país segue refém de uma elite financeira que dita normas, captura o Estado e se infiltra nos mercados, no Congresso, na Justiça e nos meios de comunicação.

Tal como retratado em O Agente Secreto, empresários e setores do capital apoiaram e continuam apoiando projetos autoritários sempre que seus interesses estão em jogo. O regime militar foi, também, um empreendimento civil, financiado e legitimado por quem lucrava com a repressão. Essa cumplicidade estrutural é um dos méritos centrais do filme, amplamente reconhecido pela crítica internacional.

Ao dar rosto ao personagem Armando Solimões, um cientista obstinado por seu ofício, filho de uma adolescente empregada doméstica e de um adolescente da elite, o filme desnuda as contradições de um país que se constrói sobre a exploração e o silenciamento. É a história de um Brasil que se repete em fragmentos, em retalhos de memória, onde minorias seguem sendo esmagadas sempre que ameaçam deslocar o eixo do poder.

O problema, portanto, não reside apenas nos arroubos autoritários mais visíveis, mas na normalização de um sistema que corrói a democracia por dentro, sem tanques nas ruas, mas com gravatas, manchetes e planos.

Nessa perspectiva, insistir em uma leitura que restringe as ameaças à democracia brasileira ao comportamento das Forças Armadas equivale a confundir o sintoma com a estrutura. Embora o papel dos militares não possa ser relativizado, ele está longe de esgotar o problema. 

O ataque ao regime democrático opera hoje de maneira mais sofisticada e menos ruidosa, entranhado nas próprias instituições civis. Ele se manifesta nos desmandos de um Congresso capturado por interesses privados, no qual lobbies, emendas opacas e barganhas corporativas se sobrepõem à representação efetiva do povo. Revela-se também em um sistema de Justiça que, sob o discurso da imparcialidade, segue reproduzindo privilégios históricos, garantindo proteção aos ricos e rigor seletivo aos pobres. A isso se soma a atuação da Faria Lima, que se arroga o direito de definir quem pode ou não governar o país, condicionando mandatos eleitos à submissão a uma agenda econômica que não passou pelo crivo das urnas.

Completa esse arranjo a mídia corporativa, que se apresenta como árbitra neutra do debate público enquanto opera, na prática, como voz organizada da elite, enquadrando narrativas, legitimando interesses específicos e deslegitimando qualquer projeto que confronte a ordem estabelecida. 

São esses personagens reais indispensáveis para o funcionamento formal do sistema, mas profundamente insuficientes para a realização substantiva da democracia que constituem hoje seus detratores mais persistentes.

Daí a urgência de enfrentar não apenas ameaças episódicas ou autoritárias explícitas, mas a própria dominação estrutural das elites que, ontem como hoje, tratam a democracia como concessão temporária, aceitável enquanto não ameaça privilégios, descartável quando começa a cumpri-los.

O Agente Secreto não se limita a revisitar o passado, mas interpela o presente com a força de um alerta ético e político. Ao expor as continuidades entre autoritarismo, apagamento da memória e dominação estrutural das elites, o filme evidencia que a democracia brasileira permanece vulnerável enquanto suas feridas históricas forem negadas ou relativizadas. Sua recepção internacional revela, de forma eloquente, aquilo que o país ainda relativiza. Sem memória crítica, não há futuro possível, e sem o enfrentamento das engrenagens do poder que perpetuam desigualdades e silenciamentos, qualquer projeto de transformação civilizatória seguirá ameaçado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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