A torpeza autoritária de Trump lançada ao mundo
Entre a destruição humanitária, a especulação imobiliária e a intimidação geopolítica, o trumpismo expõe a falência moral da ordem internacional liberal
A atuação recente de Donald Trump no cenário internacional revela uma escalada autoritária que combina ameaça política, desprezo pelo direito internacional e instrumentalização econômica da guerra, aprofundando a crise da ordem global e das soberanias nacionais.
Trump, movido por uma torpeza autoritária cuidadosamente calculada, tem recorrido à intimidação de países e contribuído para o embaralhamento da nova ordem mundial em desenvolvimento. Seu ardil estratégico tenta ressuscitar uma lógica de dominação comercial típica do século XIX, desprezando deliberadamente as normas multilaterais e afrontando a soberania de outras nações.
Seus ataques imperialistas, revestidos por um fascismo assustador, têm provocado sobressaltos no mundo, produzidos pela prepotência exacerbada em lances diários de ameaça às soberanias de países, como: a intervenção ilegal na Venezuela, com o sequestro do presidente e de sua esposa; o incisivo anúncio de apropriação de territórios de outros países, no caso da Groenlândia; a promessa de total asfixia de regimes até sua extinção, como pretende concretizar em Cuba, por meio de declarações ao mundo em tom irônico ao afirmar que seu secretário de Estado, Marco Rubio, será o futuro presidente da ilha revolucionária; e o polêmico Conselho da Paz para Gaza, no qual Trump figura como fundador, com poder de decisão final para destituir ou agregar membros.
De acordo com a Casa Branca, o conselho, lançado oficialmente no Fórum Econômico Mundial em Davos, tem como propósito: “fortalecimento da capacidade de governança, relações regionais, reconstrução, atração de investimentos, financiamento em larga escala e mobilização de capital”.
Esse conselho tem sido amplamente questionado por cientistas políticos, especialistas em Direito Internacional e por organizações que atuam na defesa da causa palestina. As críticas concentram-se no fato de a iniciativa contornar o papel institucional das Nações Unidas, deslocando o eixo de decisão para um grupo restrito de países alinhados politicamente a Israel.
Trata-se de uma aberração abissal, à moda de uma personalidade megalomaníaca com profundos traços fascistoides, uma vez que a parte essencialmente interessada não foi convidada. Trump deixou de fora os palestinos, mas absurdamente incluiu Benjamin Netanyahu, carrasco da população civil da Faixa de Gaza, que prontamente aceitou o convite.
Para esses analistas, o desenho do conselho esvazia princípios centrais do direito internacional, ao relativizar a autodeterminação do povo palestino e substituí-la por um arranjo que, na prática, legitimaria a continuidade da ocupação e uma lógica de imposição externa. Segundo essa leitura, longe de representar um caminho efetivo para a paz, a proposta tende a consolidar assimetrias de poder e a normalizar uma dinâmica de controle e coerção sobre o território palestino.
Esse esquema político, no entanto, não se sustenta apenas em abstrações diplomáticas ou formulações jurídicas. Ele se ancora, sobretudo, na destruição concreta de um território e de um povo, cuja tragédia humanitária vem sendo deliberadamente invisibilizada nos fóruns do poder global e na mídia hegemônica ocidental.
Gaza foi reduzida a terra arrasada. Os palestinos que ali vivem, população civil sem qualquer vínculo com o Hamas, composta por homens, mulheres e crianças, sobrevivem ao massacre em condições subumanas. Muitos estão mutilados, traumatizados e confinados em abrigos degradantes.
Bairros inteiros desapareceram. Instituições de saúde, de educação e toda a infraestrutura básica do território estão em escombros. Para agravar esse cenário de devastação absoluta, membros do governo israelense impediram a atuação da Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU em Gaza, que classificou a ofensiva conduzida por Benjamin Netanyahu como um verdadeiro genocídio.
É nesse cenário que se insere a fala de Donald Trump em Davos, ao anunciar sua pseudo “comissão de paz” para Gaza, com a promessa de que “vai ser algo grandioso”. Longe de qualquer iniciativa genuína de reconstrução humanitária, o projeto revela-se um arranjo voltado a interesses privados e financeiros.
Trump almeja converter o território palestino em um polo de conglomerados imobiliários de luxo, não para os palestinos, mas para bilionários dispostos a lucrar com a localização estratégica da região. Aos legítimos donos da terra restaria, na melhor hipótese, a condição de mão de obra ultra precarizada, destinada a carregar sacos de cimento e a limpar os arranha-céus com vista para o mar, erguidos por investidores vorazes convidados pelo próprio Trump.
Trata-se de uma gigantesca e altamente rentável operação de especulação imobiliária e financeira, que inclui, segundo informações divulgadas por seu genro, a participação da incorporadora israelense Yakir Gabay.
O conselho é representado, inicialmente, por sete figuras questionáveis, não alinhadas à causa palestina: Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, com posicionamentos extremistas de direita; Tony Blair, ex-primeiro-ministro do Reino Unido, com posicionamentos desfavoráveis ao pleito palestino por soberania; Steve Witkoff, empresário norte-americano do mercado imobiliário, investidor e fundador do Witkoff Group; Jared Kushner, esposo da filha de Trump; Ajay Banga, presidente do Banco Mundial; Marc Rowan, americano expoente do capital especulativo; e Robert Gabriel, aliado próximo de Trump no Conselho de Segurança Nacional.
Em última análise, essa composição inicial pode ser seguramente interpretada como um arranjo verticalizado, concebido sem a incorporação efetiva das demandas palestinas.
Além desses membros, foram convidados outros chefes de Estado, entre eles o presidente Lula, estadista que tem defendido a criação de um Estado palestino, reiterada em discursos, entrevistas e fóruns internacionais. Esse posicionamento coloca o presidente brasileiro diante de um dilema delicado.
A posição, firmemente sustentada desde o início da ofensiva israelense em Gaza, em outubro de 2023, entra em rota de colisão com o convite feito por Donald Trump para que o Brasil integre um conselho de paz. Caso recuse o convite, embora preserve sua linha de princípios, tende a provocar desconforto em Washington e pode comprometer a reaproximação construída com o presidente norte-americano desde as negociações em torno do tarifaço imposto a produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos.
Além do Brasil, o Reino Unido, a China, a Croácia, a Alemanha, a Itália, a Rússia, Singapura e a Ucrânia ainda não confirmaram nem negaram a participação. O Canadá foi “desconvidado” depois de embates diplomáticos entre Trump e o primeiro-ministro canadense, Mark Carney. Já a França, a Noruega, a Eslovênia e a Suécia recusaram participar. Na América do Sul, dois presidentes submissos a Trump, Javier Milei, da Argentina, e Santiago Peña, do Paraguai, já aceitaram.
Nessas investidas surreais, Trump vai pisoteando o mundo e desnudando abertamente seu racismo, inclusive sobre seus parceiros de governo, como faz ao tratar com escárnio a subjetividade confusamente rancorosa de Marco Rubio em relação a Cuba, homem de pele latina considerada inferior à pele alaranjada de Trump.
No que diz respeito ao episódio envolvendo a Groenlândia, não se trata de bravata isolada de Donald Trump, mas da expressão nua e crua de uma concepção de mundo em que soberania nacional, autodeterminação dos povos e direito internacional são obstáculos menores diante dos interesses estratégicos da Casa Branca.
Ao anunciar, no palco elitizado do Fórum Econômico Mundial, supostas tratativas com a Otan para garantir acesso total dos Estados Unidos à Groenlândia, Trump reedita a lógica colonial segundo a qual territórios periféricos existem para servir às grandes potências — lógica essa travestida, agora, do discurso da “segurança coletiva”.
A indignação expressa pela deputada groenlandesa Aaja Chemnitz, ao classificar a declaração como “absurda”, expôs o óbvio que o poder imperial insiste em ignorar: a Groenlândia não é um objeto geopolítico negociável. Trata-se de um território habitado, com povo, identidade e direitos políticos, que não pode ser tratado como moeda de troca no espectro da militarização do Ártico.
A reação firme do parlamento dinamarquês escancarou o abismo entre o discurso civilizatório do Ocidente e suas práticas concretas quando interesses estratégicos entram em jogo.
Já a fala da primeira-ministra Mette Frederiksen, embora diplomática, revelou os limites desse “diálogo entre aliados”. Ao exigir respeito à integridade territorial da Dinamarca, Frederiksen precisou reafirmar um princípio elementar do direito internacional — algo que, em tese, deveria ser pressuposto entre membros da Otan, mas que se torna frágil quando confrontado com o peso político e militar dos Estados Unidos. O fato de tal lembrança ser necessária já é, por si só, sintomático da assimetria que estrutura a aliança atlântica.
Nessa perspectiva, a posterior negativa da Otan e do governo dinamarquês, bem como o esclarecimento do secretário-geral Mark Rutte de que não há qualquer cessão de soberania em curso, não elimina o problema central. Pelo contrário, evidencia como, sob o guarda-chuva da “defesa coletiva”, a Otan vem ampliando sua atuação territorial e estratégica, convertendo regiões inteiras, como o Ártico, em zonas permanentes de tensão militar.
A Groenlândia surge, assim, não como exceção, mas como mais um capítulo da crise da ordem internacional liberal, em que regras valem para os adversários, enquanto aliados poderosos se arrogam o direito de reinterpretá-las conforme sua conveniência.
No fundo, o que Trump fez foi apenas dizer em voz alta aquilo que muitas vezes é operado nos bastidores: a máxima de que a soberania de territórios estratégicos pode ser relativizada quando confrontada com os interesses do império. O escândalo não está apenas na declaração, mas na naturalização desse pensamento e no silêncio cúmplice de um arranjo internacional que já não consegue esconder suas fissuras.
Diante da materialidade grotesca produzida pelo governo norte-americano — expressa na instabilidade internacional e no uso sistemático do medo como método de poder — tornam-se cada vez mais consistentes os prognósticos de derrota do trumpismo nas próximas eleições para os 435 membros da Câmara dos Deputados, com o avanço de candidaturas opositoras ao seu projeto autoritário.
Essa perspectiva de erosão interna do trumpismo decorre de um dado estrutural incontornável: nenhum país é capaz de conter, do lado de fora, o maior poderio bélico do planeta, o que torna inviável qualquer freio internacional realmente eficaz.
Ainda que governos estrangeiros possam e devam reagir com estratégia política, soberania e altivez, impondo limites diplomáticos sem se curvar aos caprichos de um líder como Trump, como fez o governo Lula, essa resistência externa esbarra em limites concretos quando confrontada com a ameaça, explícita ou velada, do uso da força militar norte-americana.
A contenção real de Trump, portanto, só poderá ocorrer internamente. O governo trumpista já enfrenta severas críticas: pelas medidas políticas desumanas, como a aplicada aos imigrantes por agentes fascistas do ICE, sobretudo após o assassinato de uma cidadã americana durante uma manifestação popular; pela inflação em alta; pela recessão; pelo alto risco de desemprego; pela insegurança alimentar; pelo sistema de saúde caríssimo; pelo envolvimento de Trump no escândalo Epstein, entre outros problemas.
Nesse sentido, cresce a expectativa de que o próprio povo estadunidense, submetido a um ambiente de intimidação, repressão política e decisões erráticas, intensifique sua rejeição ao governo, reduzindo ainda mais a baixa avaliação popular de Trump até corroer sua legitimidade.
Esse cerco interno, eleitoral e social, nutre a expectativa internacional de que Trump seja politicamente derrotado e que seu ciclo de degradação democrática se encerre, revelando o esgotamento de uma liderança que converteu a autoproclamada maior democracia do mundo em um regime ruidoso no discurso e frágil na prática democrática.
Ao encerrar este artigo, torna-se necessário registrar que, ao escrevermos nossos textos sobre os acontecimentos políticos no país e no mundo, nos orientamos por faróis que iluminam nossas análises: intelectuais progressistas generosos, que nos ajudam a compreender as intempéries que atravessam as tensas relações nacionais e internacionais, em meio a um sistema econômico predador, no qual os mais fortes ameaçam e tentam submeter os mais fracos, afrontando-lhes a soberania e a própria existência.
Um desses faróis nos deixou nesta semana: o querido professor James Onnig, cientista político que, de forma reiterada, denunciou o governo Trump, apontando seus potenciais efeitos desestabilizadores no cenário geopolítico e os riscos concretos de erosão democrática.
O professor Onnig travou a boa luta por meio de uma clarividência intelectual marcada pela generosidade e pela gentileza próprias das mentes verdadeiramente brilhantes, aquelas que se colocam acima de qualquer vaidade pessoal. Descanse em paz, professor, onde quer que esteja.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



